Você se considera cinéfilo? Amarcord… eu me recordo

Se você se considera cinéfilo e não viu Amarcord, corra até a locadora e pegue o DVD. Veja tantas vezes que achar necessárias. Aí sim você poderá se considerar um verdadeiro cinéfilo.

Primeiro, clique aqui para ouvir o belíssimo tema musical composto por Nino Rota, parceiro gênio-musical de Fellini em vários de seus filmes. Abrirá uma nova janela e você poderá continuar a ler o artigo.

Uma das coisas mais bacanas do cinema é que nele podemos ver partes de nossas vidas. Não estou dizendo que as pessoas queiram sair por aí vestidas de morcego quando não é Carnaval, mas esta é uma fantasia que vai nos recônditos da mente humana quando se busca um ideal de justiça e honra. Não é à toa que os super-heróis usam capas e elmos. O ideal medieval ainda persiste no inconsciente coletivo e isso é inegável.

Ao mesmo tempo, temos vários tipos de cinema, de formas de mostrar ou contar uma história. Uma das minhas histórias preferidas retratadas em forma de cinema é o filme Amarcord, de Federico Fellini. Pode ser que muitos nem o conheçam ou não o tenham visto. Quero apenas dizer que, em muitos momentos desse filme, especialmente para quem foi criado nos subúrbios do Rio de Janeiro, parece que o diretor retratou aquele momento de nossas vidas.

Apenas para ilustrar e mostrar como as coisas dos povos latinos são características, conto aqui um comentário feito por um casal de amigos que foi estudar na Alemanha. Lá chegando, acharam tudo bacana e certinho. O ônibus passava todos os dias às 13:22′:36″; fizesse Sol, chuva ou nevasse. Nos jardins observados, o ancinho estava no lugar do ancinho, as flores pareciam obedecer a uma ordem e sempre pareciam viçosas, as pessoas falavam baixo e vai por aí. Numa época de férias, foram até a Itália e… Sentiram-se em casa! Pessoas falando alto e usando as mãos para também falar, caos no trânsito, isto é, um certo ar de bagunça organizada, um ar latino e em determinados lugares, disseram que parecia que estavam no subúrbio do Rio de Janeiro em que nasceram.

Não há rua em que não houvesse um doidinho ou doidinha cativos, vizinhos barulhentos, crianças que só pensavam em fazer traquinagens e as famílias caricatas. Esta é a melhor parte, eu diria. Pois a família retratada é totalmente interessante. Há o pai que tem posições políticas bem definidas, o cunhado boa vida, a esposa que se mata de trabalhar para manter a casa e os filhos em ordem, o avô que vive de lembranças e tentando ensinar coisas da vida para os netos.

Peço, portanto, atenção especial a esta jóia do cinema, um clássico universal por ser provinciano.

Links Interessantes:

Filmografia de Federico Fellini
Um blog sobre cinema chamado Amarcord
Filosofix
, que contém um vídeo com a versão para violão clássico do tema de Amarcord.

Anúncios

Fêmeas de Chimpanzé fazem amor em silêncio

Decididamente, estes estudos e pesquisas que regularmente são noticiados revelam-se bastante divertidos em vários momentos. E não é que pesquisadores descobriram que as macacas, quer dizer, chimpanzés fêmeas transam com os machos caladas? Pois é. Até no reino animal se sabe que o pior inimigo de uma mulher é outra mulher.

O interessante disso tudo é que as macacas quando estão com os macacos fazendo aquilo ficam caladinhas caso outras fêmeas estejam nas proximidades. Logo, podemos concluir que falar demais pode atiçar a competição. Porém, quando há outros machos por perto, a macaquinha dana a fazer “Ahs…!” e “Ohs…!” em profusão que é pra atiçar a competição entre os outros machos e deixar uma pulga atrás da orelha, visto a macacada ser promíscua e ninguém ter certeza de quem é o pai da criança. Portanto, as fêmeas dos primatas, e nós humanos estamos incluídos nesta classificação, dão mais uma prova de inteligência, pois assim conseguem garantir a sobrevivência da prole.

Podemos até imaginar uma cena envolvendo Tarzan, Jane e Chita.

– Mim Tarzan, você Jane e tu Chita vamos nanar…
– Qualé, o zé mané? (diz, Jane, subindo nas tamancas)
– hihihihihi (Chita ri)
– Mim não ser Zé Mané. Mim ser o Rei dos Macacos…
– Sei dessa… Tu tá mais pra go go boy de boite gay com essa tanguinha…
– hihihihihi (Chita ri)

Jane, não gostando das risadinhas…
– Quiqui foi, ô macaca?
– Jane, minha nega, tu tá na TPM ou tem medo da concorrência?
– Que mané concorrência? Eu me garanto, ok? Confio na minha caçapa!
– hihihihihihi … (a sarcástica risadinha) É mesmo? Só se for lá pros teus negos.
– Tá querendo dizer o que com isso?
– Jane, minha macaquinha sem pêlo, o negócio é que ele só faz Óóóóóóó… quando está comigo…

Nisso, Tarzan, o Rei dos Macacos, entra de sola na conversa…
– Óóóóóóóóó…..

As duas pensaram ao mesmo tempo e exclamaram…
– Viu só? Só comigo ele faz Óóóóóóó gostoso…

E Tarzan retruca…

– Mim gostar de ver duas fêmeas se estapeando… pra segurar o cipó.

As duas berram ao mesmo tempo…

– O CIPÓ É MEU!!!!!

Confira a matéria no site da BBC Brasil

Almoço na sogra e Bandalhismo

Certa vez, ainda nos tempos de namorado, lá pelos 19 anos de idade, num domingo minha sogra resolveu fazer rabada. Mandou avisar com antecedência. Como eu sempre gostei muito da dupla Bosco e Blanc e de rabada, vivia comprando discos e tocando suas músicas que avidamente esperava sair na antiga revista Violão & Guitarra, para depois impressionar a namorada com meus dotes musicais. Não me fiz de rogado.

Domingo, de banho tomado e todo cheiroso lá vou eu para a casa da namorada e levando debaixo do braço o LP Bandalhismo, doido pra mostrar para a sogra o quanto a música pode “casar” com a culinária.

Lá chegando já fui me apoderando da vitrola. Sim, sou desse tempo. Enquanto o rango estava nas preliminares para ser posto à mesa, e eu ataco de “Tal Mãe, Tal Filha” (“…minha sogra, Deus a tenha. O Terror da Penha. Velha desbocada, Center-Half nas peladas, braba de umbigada”). Alguns olhares da sogra foram meio enviesados. Será que ela pensou que era alguma indireta que eu estaria mandando? Acho que foi isso o que ela pensou. Até aí tudo bem. Mesa posta, nós três à mesa e a bandeja com a rabada fumegante a nos esperar. Cervejinhas rolando pra lá e pra cá até que falei que deveríamos comer a rabada ao som de “Bandalhismo”. Depois que os pratos foram devidamente servidos, levantei-me pedindo silêncio para que prestassem atenção na letra e coloquei a faixa do LP para tocar.

E começa o João Bosco… “Meu coração tem botequins imundos, antros de ronda vinte-e-um, porrinha…”. Olhares um tanto parados devido ao tema.

Garfadas suaves eram dadas para que a voz do João Bosco expusesse a letra. Olhares já um tanto esbugalhados da sogra para mim no “Essa vontade de soltar um barro” e eu todo feliz por estar mostrando cultura para ela. O João Bosco manda…” Como os pobres otários da Central já vomitei sem lenço e Sonrisal o P.F. de rabada com agrião…”. E eu ouço…”Minha filha ele ta estragando o almoço…”

Nem deu tempo de ouvir a parte com o Paulinho da Viola. Fiquei com cara de tacho e rapidinho tirei a música.

O céu está chorando

Sentado ao lado da janela que está entreaberta, ouço o som das gotas pesadas que caem sobre as folhas das mangueiras e outra árvores do pequeno pomar. Lembro daquele blues. Realmente the sky is crying, e mesmo com outras idéias, as palavras de meus dedos saem ao seguir o impulso da mente e do coração.

Por que o céu está chorando numa noite tão escura? Será que alguém teve seu coração e a alma feridos com pontiaguda lâmina após trespassar a armadura? Todos nós temos essa armadura, a prevenção contra os males do coração. De que adianta? De nada! Pois quando o amor se apresenta, lá se vai da solidão a confiança e começa o palpitar no peito e o desejo do leito.

Ah, esse desejo… de todos é o complemento mais perfeito para aquilo que sabemos que é um fogo que arde sem se ver, que nos faz estrelas na claridade do dia ver e sentir que a cada minuto de saudade, vamos quase morrer. E agora a chuva amaina… o som é tímido…quase uma infâmia passar tanto tempo nesta dolorosa sanha de perder pensando que se ganha.

* Música: The Sky Is Crying, com Stevie Ray Vaughan and The Double Trouble.

Quarenta e cinco

Quarenta e cinco… Q-u-a-r-e-n-t-a-e-c-i-n-c-o… QUARENTA E CINCO!!! Caramba, este é o número. Não, não é quanto calço e muito menos o calibre de alguma arma de fogo. É apenas um número, mas quando olho pra trás vejo que aos vinte ou aos trinta e cinco eu fazia as mesmas coisas, e por isso não concebo como se pode atrelar um número a uma postura. Também não estou aos 45 do segundo tempo. Seriedade é com a Calpúrnia, ora!

Apenas relembrando e revivendo alguns momentos. São 45 carnavais bem desfilados. Em alguns o samba atravessou na avenida. Mas nada que fizesse descer para o grupo de acesso. Em outros foi desfile para DEZ! NOTA DEZ!

Ah, falam dos arianos – eu não manjo nada de astrologia – e dizem que somos malcriados, cabeças-duras, turrões. Ora, o mundo é que não nos entende. Logo, o problema é dele, mundo. Tenho o meu mundo, o meu mundinho particular. Nele cabem paixões avassaladoras e vontades imensas de jamais deixar de aprender. Sim, eu sou curioso. Não quero saber apenas uma coisa profundamente. Deixo isto para os que enxergam o mundo usando antolhos. Quero saber de tudo um pouco e também ter a visão periférica para enxergar o todo.

Escrevi, plantei árvore e tenho um filho. Não sou médico ou poeta. Mas, certamente, um pouco louco.

De um poeta, empresto uma frase: “A sorrir eu pretendo levar a vida”. E é assim que sempre será.

O Brasil vai virar França

Delacroix, A Liberdade guiando o povo (1830, Louvre, Paris) Montagem feita por Jorge Alberto

Até já estou vendo o cenário: a partir do primeiro minuto do primeiro dia de 2009, o Brasil será um pedaço da França. Sim, meus amigos, ano que vem será o Ano da França por aqui. E olha que eles tentaram fundar uma França Antártica ali na enseada de Botafogo e foram expulsos pelo bravo povo lusitano que chegou aqui primeiro e já foi logo dizendo que “em se plantando a terra tudo dá” e nada de olho grande nas índias que, segundo o escrivão da frota cabralina, “viviam com suas vergonhas de fora”.

Você acha que Brasil e França não tem nada a ver? Ah, sim… entendo. Nós adoramos uma Lacanagem(¹). Tomou bronca dos filhos de Asterix devido a vexaminosa ajeitada no meião, né? Pois é… Je aussi. Mas não tem nada não. Eles sempre tiveram uma certa adoração pelo que acontece aqui no lado de baixo da linha do Equador, como aquela idéia meio furada do Bom Selvagem, que o Rousseau propagava aos quatro ventos; e nós, em contrapartida, absorvemos um tantão de sua cultura. Basta ir à rua e olhar uma vitrine. Percebeu? É “vitrine”, uma palavra francesa. Que est-ce que c’est? Se você mora no Rio de Janeiro, dê um passeio pela Avenida Rio Branco, a mais francesa rua do Brasil. O Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional e a Escola Nacional de Belas Artes são prédios, construções, fortemente inspiradas no neoclassicismo francês. Até aquele baixinho que serve estereótipo para todo doido de desenho animado teve importância aqui nestas plagas tupiniquins. Se não fosse por ele, a Família Real Portuguesa não teria dados nos calos sem olhar pra trás em 1808.

Não sei se ainda é válida a afirmação, mas parece que a língua oficial do Itamaraty é o Francês, a língua da diplomacia. Pare seu carro na garagem e certifique-se que tem uma letra “m” na palavra “garage”. E não adianta pronunciar tal qual os comedores de rotidógui. A palavra é francesa, oui?

E como eu já falei lá em cima, vai ser um festival de francesismo. Não haverá escola de samba que se preze que não trará no enredo alguma alusão aos queijos, vinhos, Torre Eiffel, Asterix, Obelix e se bobear, a Marselhesa será levada em ritmo de samba em qualquer esquina. Coisa do tipo. Alózanfan de la patri! Que em brasileiro quer dizer: Vamos lá, rapaziada! Só não garanto que Zidane e o gnomo que um dia foi o inimigo público número 1 dos brasileiros, um tal de Alain Prost, sejam convidados para a festa. Aqui, um parêntese: Nós somos muito cordiais mesmo. Certa vez, numa comemoração de não sei o que sobre o Maracanã, alguém teve a idéia de jerico de convidar o Ghiggia, aquele ponta uruguaio que fez o Brasil inteiro morrer um pouquinho. Pediram ao Nilton Santos, a enciclopédia do futebol, que na Copa de 50 estava no banco, para recebê-lo e dar as boas-vindas. Não é preciso dizer que a mãe do uruguaio foi “elogiada” na resposta negativa a essa tresloucada idéia. “Eu lá vou apertar a mão desse f…”?

Certamente vai ter Richelieu de destaque em alto de carro alegórico e a fantasia será elaborada com papel de embrulho. Ora, ele não foi a eminência parda? Também haverá um carro alegórico com uma enorme banheira para mostrar que Luís XIV, que dizia “L´Etat c´est moi” e se julgava o Rei-Sol, tomará o seu terceiro banho somando vida e pós-vida. Não sabe? Só tomou dois banhos desde o dia em que viu a luz do Sol pela primeira vez até o dia em que bateu as botas. Alas inteiras virão fantasiadas de O Espírito das Leis e uma ala do PT virá declamando trechos do Contrato Social. O carro abre alas terá um baita estandarte avec La Déclaration des droits de l’homme et du citoyen. Adivinhe qual será o estribilho de alguns sambas? Não faz a menor idéia? Muito simples… LIBERTÉ! EGALITÉ! FRATERNITÉ! Ou, quem sabe, uma letra de samba-enredo assim: Lá nas Malvinas,/o Gardel quase botou a Rainha da Inglaterra pra correr/Mandou um monte de Exocet/Um monte de Exocet… Olha o Exocet aí, gente!

Vai ser muito bacana ouvir a Sapucaí inteira berrando estas palavras de ordem e cantando sambas dans le français. Pode até ser que alguma bicha mais afoita queira vir de Maria Antonieta comendo brioches, doida pra colocar seu pescocinho na guilhotina e ter sua cabeça rolando pela Sapucaí. Vai ser a glóóóóória!

E zefiní!

_________

(¹) – Nos anos 80, a psicanálise ainda rendia polêmicas exaltadas nos jornais, como a que opôs Eduardo Mascarenhas e José Guilherme Merquior, que cunhou o termo “lacanagem” para definir a obra de Lacan. O senhor acha que o tema ainda hoje suscita oposições tão acirradas?

Mezan: Às vezes, sim: uma destas polêmicas foi a pergunta que você fez no começo. Ela implica a idéia de que a psicanálise se situa em algum ponto do gradiente que vai do antiquado ao charlatanesco, aquela idéia de que hoje existem coisas muito melhores, mais eficientes, para tratar os pacientes. Ora, desde os tempos de Freud tem sido assim. Acho que hoje essa crença tem mais peso nos países de língua inglesa. Dada a importância cultural desses países, a idéia acaba se difundindo. Há críticas de uma banalidade e de uma superficialidade desconcertantes. (Renato Mezan em entrevista concedida à Revista Trópico)

Estão acabando os trocadores em ônibus do Rio de Janeiro

imagem do escritório de um cobrador de ônibus - Foto fãbus

Aquela tradicional figura que fazia dupla com o motorista dos coletivos do Rio de Janeiro está desaparecendo. Percebi nestes últimos dias em que tive de me deslocar usando este tipo de transporte. Tão logo ao subir as escadas o motorista ficou me esperando pagar. Nesta fração de segundo eu entendi que não havia mais a figura do cobrador, que no Rio de Janeiro denominamos trocador.

Como não há uma determinação que devemos dar o valor da passagem já certo – agora, mais do que nunca é preciso ter o valor correto, já trocado, ao pagar -, eu lhe entreguei uma nota de R$ 5,00. Ele, o motorista, olhando todos os retrovisores e tomando conta da porta traseira, a da descida, acabou por me dar o troco. Antes de passar pela roleta (catraca) percebi que ele me dera o troco a mais. Voltei-me e disse que ele me dera troco para R$ 10,00. Isto foi feito enquanto engatava a segunda marcha. Ele, então, manteve a velocidade baixa e o ônibus em movimento. Refez o troco e ainda me agradeceu.

Imagine quantos acidentes podem vir a acontecer por causa destas várias tarefas que um motorista precisa executar além de dirigir, não deixar os passageiros caírem ao descerem ou subirem no coletivo? A atenção dele não fica ligada ao perigos do trânsito. Ele, agora, precisa cuidar também do dinheiro do dono da empresa. Penso que, em caso de dar troco errado dado a mais para o passageiro, e sempre tem um que não diz que o troco está errado, ele tenha descontado de seu salário o valor ou a soma dos valores.

A função de cobrador em coletivos no Rio de Janeiro era um mercado de trabalho para inúmeras pessoas com necessidades especiais ligadas a locomoção, por exemplo. Era comum ver pessoas vítimas da poliomielite exercendo esta função. Também era comum ver senhoras exercerem-na como uma forma de aumentar os ganhos da família que, em muitos casos tinha esta senhora como provedora do sustento. Isto para não falar dos inúmeros pais de família que sustentavam seus filhos com este parco, porém, digno salário.
Foto copiada do site Fãbus.