Dicionário muito estranho da Língua Portuguesa

Em tempos de reforma ortográfica, podemos ver o que um dicionarista português fez ao criar um Dicionário da Língua Portuguesa no século 18.

O que impressiona é a lógica para explicar as palavras. Por exemplo, bigode, é descrito como “duas torcidas de barba”, ou a palavra tubo, que, para o lexicógrafo nada mais é que um “canal diclinportredondo”. Isso para não falar da pérola das pérolas: roda, que é singelamente apresentada como uma “bola chata”.

Certamente, a língua portuguesa é uma das belas. Entretanto, certas coisas nos saltam aos olhos quando tentamos entender o significado de algumas de suas palavras e, mais interessante ainda, quando alguém cria significados vindo de qualquer lugar, menos do senso comum que formou e dá dinamismo a uma língua. Este é o caso do lexicógrafo português Bernardo de Lima e Melo Bacelar, que no século 18, deu-se ao trabalho de criar uma obra de fôlego (muito, por sinal), o Diccionario da Lingua Portugueza.

Abaixo estão algumas palavras do referido dicionário apresentadas pela autora. Quando alguma palavra não for de nosso conhecimento geral, você terá a definição obtida através do dicionário Aulete Digital, nas notas de pé de pagina deste artigo:

Abdômen – parte do umbigo;

Água – segundo elemento;

Antraz1 – leicenço2 que come até matar;

Bacharel – falador formado;

Bigode – duas torcidas de barba;

Bilha – vaso que faz som bil-bil ao vazar;

Bisbis – som que parece rezar;

Biscoito – pão duas vezes cozido;

Bisconde – duas vezes conde;

Bismuto – meio metal;

324-ef0-besugo Bisugo – peixe a quem sugam duas vezes a gostosa cabeça;

Borzeguim – bota de borrego;

Bucho – fundo do estômago;

Buço – fundo do nariz com pelinhos;

Cabra – animal de pelo;

Cachaço – caixa dos miolos;

Cachimbar – tirar fora o mau suco, fumando;

Carneiro – ovelha macho;

Castanha – bolota de certa árvore;

Castiçal – que dá fogo e luz;

Caracol – peixe glutinoso ou anfíbio, de curva ou espiral figura;

Coque – pancada no coco da cabeça;

Esbirro – o que tem de birra e prende;

Espingarda – arma que deita faíscas da pederneira ou pingas abrasadoras;

Farda – casaca nova de vários panos e cores;

Gaiola – vaso furado para ter pássaros;

Gazeta – papel que tem riqueza histórica;

Jeropiga3 – santa bebida;

Legume – grãos de cozer;

Leite – suco materno;

Lenço – pano de linho;

Louro – cor de papagaio;

Macaco – animal de trejeitos delirantes;

Murça – pele de certos ratos nos ombros eclesiásticos;

Pia – vaso purificador pelo batismo e de beber o gado;

Pigmento – cor que se põe na cara;

Porcelana – louça redonda;

Roda – bola chata;tarso

Ruço – entre o vermelho e o negro;

Tarso – palma da mão ou do pé;

Tris-tris – som de vidros quebrados;

Tubo – canal redondo;

Vértebra – dobradiça das costelas;

Vertigem – rodadura do cérebro.

A descoberta dessa pérola foi feita por mim há alguns anos(1991) quando comprei num sebo, o livro As grandes anedotas da história – editado em 1976 –, de Nair Lacerda, em que vários e vários casos curiosos e pitorescos foram por ela coletados. O livro é muito bom e a introdução nos explica o significado da palavra anedota (coisa inédita, porém de breve relato). Na época em que o livro foi escrito, a autora lamentava não ser possível encontrar com facilidade um exemplar do dicionário. O que seria de nós sem a internet? Você pode ler a edição fac-similar, no portal Open Library. Clique aqui e se delicie, mas antes veja algumas das palavras contidas abaixo. A ortografia é do século 18; portanto, você terá uma pequena dificuldade inicial para entender algumas palavras, mas com cinco minutos de leitura você já poderá se considerar um exímio paleógrafo.

Após a exposição desses exemplos, a autora nos conta a história de como Bernardo de Lima e Melo Bacelar classificou a palavra silogismo – raciocínio sobre duas premissas, acrescentando “Veja: Ceroulas”. É de chorar de rir. Porém, o lexicógrafo, apesar de tudo foi capaz de escrever uma gramática que foi muito importante e erudita, a Gramática Filosófica da Língua Portuguesa. Dá para entender?

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1 Infecção cutânea, gastrintestinal ou pulmonar grave, causada pelo Bacillus anthracis ou seus esporos, que ocorre esp. em caprinos, equinos e ovinos, e pode ser transmitida ao ser humano pelo contato direto com animais doentes ou com seus dejetos, pela ingestão de carne contaminada ou ainda pela inalação dos esporos do bacilo; CARBÚNCULO [F.: Do gr. ánthraks, akos, pelo lat. anthrax, acis.]

2s. m. || fleimão, furúnculo

3sf. – 1 Bebida preparada com mosto, açúcar e aguardante; 2 Enol. Vinho de fermentação alterada pela adição de aguardante; 3 Vinho de má qualidade; ZURRAPA. [F.: De or. obsc.]

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O rosário no iPhone: gadgets e a fé

Nos EUA, os aparelhos eletrônicos (smartphone, iPod, notebook e demais gadgets) começam a ser utilizados no auxílio da fé como, por exemplo, é o caso da iRosary, um aplicativo para o iPhone ou iPod Touch, que permite iphonedispor de um rosário eletrônico na telinha dos aparelhos, para você rezar o Terço. A ideia de criar o aplicativo surgiu quando Dave Brown e sua esposa Jackie estavam no quarto do hospital em que sua filha, Isabella, fazia tratamento contra um tipo de câncer.

"Então, olhamos para estes iPhones em nossas mãos e nós dissemos: "Puxa, não seria grande se nós pudéssemos colocar o rosário diretamente aqui e, por isso, não precisaria haver uma luz acesa durante a noite, enquanto nós estivermos sentados lá no quarto de Isabella, no hospital?"

Alguns detalhes do aplicativo:

  • a contas (miçangas) que compõem o rosário podem ser giradas com toques na tela;

  • você pode escolher 243 tipos de design para a cruz e contas (miçangas);

  • orações em inglês, francês, espanhol e latim;

  • o treco faz o aparelho vibrar nos momentos de maior fervor.

Além disso, há também  o portal Pope 2 You  (algo como O Papa para você), e pode ser acessado em outras quatro línguas: Francês, Italiano, Espanhol e Alemão.

Não são apenas os católicos da terra do Tio Sam  que contam com as modernices tecnológicas para angariar um número maior de almas para seus rebanhos, os protestantes não tem apenas, hoje, os famosos pastores eletrônicos; já dispõem de uma rede de satélites para transmitir a programação do portal Life Church TV, permitindo, assim, que toda semana cerca de 60 mil computadores estejam conectados ao mesmo tempo em rede para, segundo as palavras contidas no referido portal, “Toda semana, nos unimos ao redor do mundo para adorar a Deus e à experiência de uma mensagem relevante e poderosa, que ensina as verdades da Bíblia”.

Para os judeus, apesar de vários religiosos já fazerem uso de meios eletrônicos para serem contatados, como o site Ask Moses (pergunte a Moisés), que só não responde às perguntas durante os feriados religiosos e o sabath (sábado). Um dos organizadores do site que afirma que "Não pretendemos substituir a conexão humana ou a interação humana", (…) "Nossa reivindicação é que estamos a um outro nível que pode realmente ajudar uma pessoa a alcançar um objetivo que, caso contrário pode ser impossível sem isso." Para os religiosos judeus mais conservadores, coisas como este site constituem uma forma de exceção, no sentido de “não é bem isso que se deve fazer”.

Por qual motivo não falam Jesus de forma natural?

Ao ler o artigo Religion Finds Home On IPhones, Social Networks, de Jessica Alpert para o NPR, eu achei interessante a forma pela qual se referem a Jesus. Eles, os norte-americanos, são capazes de jogar bombas atômicas, mas sentem medo ao falar a palavra Jesus, tanto que pronunciam “gee” (djii), uma metonímia do nome daquele rapaz judeu, mais conhecido por Jeoshua e que foi parar na cruz pagando nossos pecados. Deus, então, é mais conhecido como Gosh. Sabe aquela coisa de não pronunciar o nome do vosso deus em vão?  Cada povo com suas manias e sua cultura, não?

Em um filme (clássico), “A História do Mundo – Parte 1”, do diretor Mel Brooks (Melvin Kaminsky), há uma cena hilária que se passa durante a santa ceia (last supper para os comedores de rotidógui), na qual ele, Mel Brooks, interpreta o garçom que atende aos pedidos feitos pelos 12 apóstolos e Jesus. No meio do diálogo, já beirando o non sense, por não conseguir que os 13 participantes à mesa fizessem o pedido, ele exclama Jesus!, que soaria para nós, tupiniquins, como algo do tipo “caramba…”, no sentido de “mas que saco!”. E o que acontece? Jesus, que é interpretado pelo ator inglês John Hurt, pensa que está sendo chamado.

Entretanto, antes do diálogo citado, há uma outra situação muito engraçada quando o garçom espera que todos façam seus pedidos e Jesus diz que naquela noite, um deles o trairá. Ato contínuo, o garçom faz uma pergunta direta a… Judas. O que perdeu as botas lá longe dá um salto da cadeira e, quase que mortificado, pede para que os deixem em paz.

Atenção para o pastelão histórico: Após o diálogo, imagine quem surge na sala em que ocorre a santa ceia? O seu, o nosso, o de todos nós… Leonardo Da Vinci! Veja o vídeo.

Saramago e os 140 caracteres

O prestigiadíssimo ganhador do Nobel de Literatura, José Saramago, disse, numa entrevista ao O Globo, que o uso do Twitter, o microblog que limita as mensagens ao número máximo de 140 caracteres nos fará involuir ao nível da comunicação por grunhidos. Até entendo e quem sou eu para confrontar um escritor, ainda mais quando ele foi premiado com o Nobel e, para quem não sabe, o único que utiliza a língua portuguesa para escrever seus livros a ter recebido este prêmio. Entretanto, acredito que possa ter havido alguma desinformação ou informação pela metade.

Em apenas 380 caracteres, Fernando Pessoa nos deu isto:

marsalgado

Tudo bem que, hoje, o pessoal não seja lá muito amigo das palavras e o oceano vernacular se limite a, quem sabe, 600 palavras dentro do Universo que é a Língua Portuguesa. Mas, mesmo assim, há que se encarar o Twitter, não como um meio de comunicação para mensagens longas. Tanto que as empresas, as organizações capitalistas, vislumbram estes mesmos 140 caracteres como sendo extremamente válidos para indicarem seus produtos. Mensagens rápidas e certeiras, o que constitui o sonho de todo marqueteiro e, talvez, dependendo do ponto de vista, o paraíso ou o inferno para os redatores das agências de publicidade. Lógico que sabemos que se faz necessário separar o joio do trigo. Imagino que o Saramago tenha dito que percebera uma enorme massa de informações imbecis e idiotizantes circulando por aí. Mas, o que é a humanidade se não alguns bilhões de almas que seguem seu rumo ajudadas pela genialidade de algumas poucas milhares de almas geniais que passaram por aqui até hoje? Deixemos que a bobagem prossiga, mas que possamos ter como nos defendermos dessas barbaridades como o internetês e o miguxês, por exemplo.

Fico aqui a me perguntar se, quando surgiram as primeiras tabuinhas de argila contendo aquilo que os arqueólogos e historiadores classificaram como os primeiros documentos escritos produzidos pela humanidade, se havia algum tipo de limitação à quantidade de caracteres – os cuneiformes dos sumérios – se isso faria com que chegássemos ao que temos hoje. Fico também imaginando que, hoje, temos no alfabeto latino 26 sinais que, ao serem misturados, formam as palavras que compõem a maioria das línguas ocidentais e, também, o alfabeto cirílico com seus 33 sinais, sendo que 10 deles são vogais, se isso impediria que escrevêssemos uma, dez, mil, um milhão de palavras. Claro que não. E eu nem vou falar sobre os alfabetos orientais que, em dois ou três traços uma idéia pode ser expressa com poesia. A quantidade de sinais e a formação das palavras, para quem as conhece suficientemente, serão, sim, um manancial inesgotável de alternativas para que nós, pobres mortais que brincamos de escrever, possamos nos comunicar. Sim, eu odeio o internetês. Vocês jamais lerão um texto meu contendo palavras escritas com esses “grunhidos”.

E, em se falando em comunicação, como esquecer a escrita utilizada nos antigos telegramas em que “pt” e “vg” significavam respectivamente um ponto e um vírgula. As mensagens eram sucintas e diretas e, nem por isso, a língua involuiu. O que faz a língua involuir é a má distribuição de renda que não permite que tenhamos acesso à cultura, aos livros, aos dicionários, por exemplo. E, por falar em dicionários até pouco tempo eu não sabia que participava de uma confraria dos, digamos, amantes dos dicionários.

Tudo isso porque, um belo dia, recebo um telefonema de uma repórter do Jornal do Brasil, que me pediu para passar o telefone de um amigo meu que é editor e, alguém lhe disse, que ele era um desses amantes de dicionários e enciclopédias. A conversa evoluiu e acabei sendo entrevistado ali mesmo e contando para ela que eu também tenho o hábito de ler dicionários e isso, acredite, vem desde a mais tenra idade; com toda certeza, motivado por meu pai que me presenteou com um dicionário enciclopédico da Lello quando eu fiz dois anos de idade. Na bagunça que se transformou a minha biblioteca, mais conhecida por Bagunçoteca, e após algumas mudanças de residência, eu me deparei com esse dicionário e li a dedicatória que meu pai escreveu. Comecei a folhear e a chorar. Não dá pra explicar. (Leia o artigo Enciclopédias, uma grata surpresa).

Voltando aos tais 140 caracteres, eu ainda acho que, se o pessoal passar a ler mais não teremos mensagens que nos levarão a grunhir, mas sim, teremos pessoas que passarão a fazer uso de toda pujança e diversidade que a língua portuguesa nos permite. É tão simples saber como usá-la que até nos complicamos.

Última Tempestade: um filme em 24 livros

O filme Prospero´s Book, de Peter Greenway foi baseado em The Tempest (A Tempestade), considerada a última peça escrita por Shakespeare, e se trata de uma festa para os olhos, mesmo que alguns críticos, à época do lançamento (1991), tenham-no considerado surrealista por demais – será possível haver limite para o Surrealismo? Perguntem para André Breton, ok? –. Esse filme foi um tanto pioneiro por utilizar técnicas e tecnologias que, hoje, são comuns em qualquer filme B que se preze.

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George Romney – The Tempest. Ato:1; Cena:1

O mote da peça – e do filme – são os livros que criam uma atmosfera de mitologia, humanismo, magia, vingança e redenção. Próspero, no filme, é representado por John Gielgud, um daqueles excelentes atores shakespearianos que Hollywood importa para dar peso às suas produções, o que é ótimo para quem gosta de cinema. Os elementos mitológicos da cultura Clássica, que bem exprimem uma época ainda marcada pelo Renascimento (séculos XVI e XVII), conduz-nos ao conhecimento de Caliban, um ser mitológico misto de humano e besta. Próspero é, ao mesmo tempo, escritor e personagem dos livros que vai escrevendo para dar prosseguimento à vingança imaginada contra aqueles que tomaram o poder e o exilaram.

Assista a uma apresentação reunindo os 24 livros de Próspero.

Por obra de sua magia, consegue reunir vários deles na ilha após um naufrágio engendrado com o auxílio de Ariel, uma figura mitológica que pode se transmutar em água, ar e demais elementos para atender aos caprichos do mago. Assim como Caliban – meio homem meio animal –, que mantém uma relação de ódio e obediência com ele, Próspero.

As imagens desse filme sempre foram marcantes para mim, que vi, assim, uma quase materialização de uma época em que os autores usavam e abusavam da sua genialidade ao remeterem à Cultura Clássica. Quem gostar de Arte, História, Filosofia, Ciência, Literatura etc, terá neste filme, já com quase duas décadas desde a estreia, um motivo para se deliciar e compreender um momento prolífico da humanidade.

Para compor a cena introdutória, Greenaway utilizou-se de vários recursos de HDTV (high definition television) e técnicas sofisticadas de montagem. O efeito foi uma atmosfera de conflito e tempestade, não apenas como fenômeno natural, mas como tempestade de imagens, palavras, pensamentos, sons e ruídos. O que possibilitou a tradução da cena dramática para o cinema, através do uso de imagens e sons eloquentes, foi a reunião de variados recursos que a montagem e que o HDTV oferecem, os quais foram empregados não só nesta cena, mas ao longo de todo o filme. Estes recursos podem ser enumerados como: os enquadramentos inusitados e sobreposições na tela, a mesclagem de vozes e o uso da palavra escrita.”

(Costa, Erika V; Diniz, Thais F. N. A Última Tempestade de Peter Greenway como tradução Intersemiótica de “A Tempestade” de William Shakespeare)

Voltando aos livros, sempre eles, vemos que são eles, os livros, que constroem toda nossa cultura e a perpetuam. “O Livro das Águas” , “Livro dos Espelhos, “Livro do Amor”, “Livro das Cores” etc. Hoje, estamos vivendo o início de uma nova era para a difusão e divulgação do conhecimento. Os livros como os conhecemos, feitos de papel já começam a ser vistos como peças de museu. A cultura será difundida por meios eletrônicos através de máquinas que conterão uma biblioteca inteira e que, talvez, levemos uma vida para ler. Próspero, em seu exílio, tinha apenas 24 livros de sua vasta biblioteca e eles seguiram para o exílio, por sorte quando Gonzalo, seu antigo e fiel conselheiro os coloca no bote em que os condenados estavam rumo ao navio que os levaria para o exílio.

E, para finalizar, cito um trecho do artigo já mencionado acima, situando esse filme num momento de transição e adaptação das técnicas e tecnologias que, hoje, são tão comuns:

“(…) ele realizou uma adaptação/transposição/tradução de sistemas nos quais considerou não só o público atual como utilizou os recursos tecnológicos disponíveis da atualidade.”

 

Maiores informações

Livro de suspense em papel higiênico

Que certos livros podem ser considerados como as cinco letras que não cheiram bem, todos nós já sabemos, mas o que falar de um livro que conta a história de um fantasma que mora em um banheiro público e foi escrito em papel higiênico? Certamente que não é a narrativa in loco de uma fantasmagórica dor de barriga.

Toilet Paper in Glowing Light © Don Mason/CORBIS

De acordo com a nota do blog Bibliofilm – excelente blog, por sinal –, ao indicar o artigo Japanese horror novel printed on toilet roll, que está no blog news:lite, o autor Koji Suzuki, que escreve livros infanto-juvenis de suspense no estilo mangá, o livro A Queda – sugestivo, não? – tem nove capítulos curtos e pode ser lido em alguns minutos. Cada cópia tem 90cm; logo, num rolo com mais ou menos 30m, imagine quantas pessoas poderão ler? Esta é uma das mais interessantes ideias de divulgação literária dos últimos tempos.

Cabe dizer, que a idéia de publicar livros em papel higiênico não é nova. Em 2008, aqui mesmo no Recanto das Palavras, eu apresentei o artigo Livros em papel higiênico, informando que uma empresa espanhola pretendia imprimir textos clássicos, poesias, trechos da Bíblia e também textos sagrados do Budismo, nessa, digamos, mídia.

A Hayashi, editora do livro, não acha inusitado imprimir um livro em papel higiênico, mas sim, e só pode ser coisa de japonês, “produzir uma experiência de horror no banheiro”. Dá pra entender uma coisa dessas?

O lançamento – sessão de autógrafos? – será no dia 6 de junho e cada rolo custará 210¥, mais ou menos 1,50£, o que dá, aproximadamente, R$4,00.

Sugestão: coma algo bem leve antes de comprar cada “exemplar”.

Mulher tocando blues: Saffire

Este é um dos meus casos de amor à primeira audição. Em 1993, eu comprei o CD -The Uppity Blues Women – de um grupo feminino de blues chamado Saffire e assim que comecei a ouvir eu percebi que ali estava uma real jóia, uma pedra preciosa. A qualidade das músicas deste grupo é tamanha que, agora, passados 16 anos, ainda ouço o CD e o faço enquanto escrevo este artigo.

saffirejadc01 O grupo é formado por uma ex-bioquímica (Gaye Odegbalola), uma pianista originária de uma família de músicos (Ann Rabson) e uma ex-enfermeira (Andra Faye). Elas são excelentes. Tocam vários instrumentos e suas vozes são muito bonitas, principalmente a de Gaye Odegbalola.

Então, como não havia e nem se sonhava com a existência do mp3, eu e alguns amigos tínhamos o saudável hábito de trocar e emprestar CDs e depois comentarmos sobre o que ouvíramos. Uma das pessoas com quem eu mantinha esse hábito é uma das proprietárias de uma livraria infantil aqui do Rio de Janeiro, a livraria Malasartes. Ela gostou tanto deste CD que acabou comprando e também deu de presente para várias pessoas.₢ cd_saffire_uppity_blues_women_med

O CD começa com a música Middle Aged Blues Boogie, quando elas querem afastar o sentimento blues (melancolia) da meia-idade das mulheres ao terem um homem mais jovem. (I need a young man, to drive away my middle-age blues) e a música termina com as seguintes palavras: “Idade não é nada mais que um número. E como um vinho raro, você não vai envelhecendo, você só  fica melhor. Me dê um homem mais jovem…”.

No site oficial do Saffire, você pode ouvir várias músicas em .mp3, mas como eu estou falando apenas deste CD, The Uppity Blues Women, eu indico duas músicas disponíveis, uma é Annie’s Blues e  a outra é School Teacher Blues, o blues da professora.

Elas cantam a vida das mulheres modernas; seus erros, acertos e visões de mundo como, por exemplo, na canção abaixo, Too Much Butt (algo como Uma Bunda Muito Grande), em que relatam as dificuldades em vestir uma calça jeans.

Todos nós sabemos que o blues é aquela coisa próxima da melancolia, só que é mais profunda; muito mais profunda e não há como explicar. Guardando as proporções seria o mesmo que tentarmos explicar para os gringos o que é e o que exprime a palavra “saudade”. É indefinível. É apenas sensível. Muito sensível.

Em caso de dúvida, leia o artigo As 20 regras do Blues, aqui no Recanto das Palavras.

A Igreja Católica sempre aperta a tecla REW

Até que ela evoluiu: absolveu Galileu após 500 anos de condenação. Mas, de vez em quando, sente uns pruridos e volta a rosnar como o fazia durante a Idade Média. O caso mais atual é sobre a excomunhão da mãe e do médico que atendeu a menina que foi estuprada pelo padrasto e engravidou de gêmeos aos 9 anos.

© Massimo Listri/CORBISDetalhe do painel “As Tentações de Santo Antonio”, de Hyeronimus Bosch.
Foto © Massimo Listri/CORBIS

Antigamente, lá pelos idos da já citada Idade Média, a coisa se dava assim: Escreveu, não leu: fogueira! Adoravam fazer um churrasquinho de gente para expiar os pecados. Também ameaçavam com a ira divina todo aquele que fosse contra seus dogmas e interesses políticos e econômicos. Guarda seu tesouro e seus segredos como Cérbero fazia na porta do Hades. Mais parece a Hidra de Lerna, dona de inúmeras cabeças, a se meter em tudo, tanto que o tal arcebispo disse que as leis de Deus estão acima das leis dos homens. Caramba. aonde é que nós estamos? Alguém apertou o botão REW e a fita voltou para a Idade das Trevas? Então quer dizer que um monstro seduz, ameaça, sevicia e engravida uma menina de 9 anos e ela não tem direito à sua própria vida, visto o aborto ser a única salvação para ela, que não teria condições de dar à luz a uma criança, imagine duas?

Ah, entendi. Tudo isso por que uma pré-adolescente judia, há cerca de pouco mais de 2000 anos, engravidou e deu à luz a uma criança numa manjedoura? Não dá para entender uma coisa dessas. Sinceramente que não dá. A menina só tem 9 anos e não tem noção do que aconteceu. Deixa eu ver se entendi. O cara faz e acontece e pela lei do lá de cima, ele passa em brancas nuvens?

LX008802 Detalhe do painel “As Tentações de Santo Antonio”, de Hyeronimus Bosch.
Foto © Massimo Listri/CORBIS

Olha que a instituição teve uns caras bem bacanas como o Francisco, lá de Assis. E o que fizeram quando perceberam que ele, o Francisco, reformaria a instituição por dentro voltando àquilo que o homi falou? Sorrateiramente e, com mãos de ferro, deu um chega-pra-lá nos franciscanos. Coitado do Toninho Vieira… do Bartô de las Casas e outros mais.

Peraí, deixa eu ver outra coisa: Ah, sim. A escravidão era “consentida” pois os africanos que para cá vieram não tinham direito a ter alma e os índios sim? Engraçado, né? Até santo de pele escura ela tem, mas fez vistas grossas para a escravidão africana. As Missões e as Reduções dos tempos coloniais foram duas das formas mais aviltantes de aculturar uma civilização e ainda serviam para amansar os índios que os bandeirantes adoravam capturar e escravizar também. Pois é, o bispo Sardinha não foi devorado à toa. Os nativos já sabiam o que viria pela frente.

Depois, ficam reclamando do Lutero, Calvino, Henrique VIII, Zwinglio que deram uma banana para o bispo de Roma, que recebe a alcunha de Papa, e criaram novas correntes religiosas. Isso para não falar da picuinha com os ortodoxos lá da outra margem do Bósforo em diante. E não adianta reclamar dos pastores do Evangelho Financeiro que arrebanham cada vez mais contribuintes, digo, seguidores, digo, fiéis, para suas hostes.

E o jornal oficial do Vaticano diz que a culpa disso tudo é da máquina de lavar que emancipou a mulher. Com um declaração dessa, e pior de tudo, escrita por uma jornalista, décadas e décadas de luta pela igualdade de direito das mulheres vão por água abaixo. Mas não é de se espantar, pois até já existiu Papa que não via com olhos feios as atrocidades dos fascistas e nazistas. Tá tudo errado!

E nos tempos da Redentora, quando a ala progressista da instituição botou pra frente as comunidades eclesiais de base, o que aconteceu? Foram perseguidos não pelos milicos, mas pelos que usavam batina! Coitado do D. Helder Câmara…

Eu nem vou falar das Cruzadas, uma das mais insanas coisas que já se fez em nome de uma religião.