Entenda o poder da televisão em menos de 5 minutos

“Porque menos de 3% de vocês leem livros. Porque menos de 15% de vocês leem jornais. Porque a única verdade que você sabem é a que sai dessa caixa preta*. Nesse exato momento há uma geração inteira que nunca aprendeu nada que não tivesse saído dessa caixa preta. Essa caixa preta é seu evangelho. É a revelação máxima. Essa caixa preta pode fazer ou tirar presidentes, papas e primeiros ministros. Essa caixa preta é a maior força que existe em todo o mundo de Deus”.

Esse discurso foi proferido por Howard Beale,um âncora de televisão que tem um colapso nervos,  interpretado por Peter Finch no filme “Rede de Intrigas” (1976). Qualquer semelhança não é mera coincidência com a atualade.

*Na tradução a palavra “tube“, o mesmo que tubo ou tela de televisão é traduzida como “essa caixa preta”.

O Brasil bem brasileiro do Sr. Brasil

Ali pelo início dos anos 1980, nas manhãs de domingo, na tevê Globo, havia um programa chamado Som Brasil, que era apresentado pelo ator/cantor Rolando Boldrin. O grande barato desse programa era apresentar aos brasileiros das áreas urbanas, principalmente dos grandes centros, como o Rio de Janeiro, que havia – como há – um outro Brasil riquíssimo em termos culturais, não só mestiço de negros com brancos, mas que surgiu da mestiçagem entre brancos, índios e negros que se embrenharam nos sertões desde os tempos coloniais.

Sr Brasil imagem₢SESCTV

É um Brasil delicioso em termos culturais, formado antes da industrialização que só chegou por aqui nas primeiras décadas do século XX. É, portanto,  a cultura do caboclo, do caipira, do cafuzo e do mameluco.

Essa memória, nos centros urbanos de grandes proporções foi se perdendo. Eu diria que, em especial, essa cultura desapareceu, ou nem mesmo existiu com a força e pujança que sempre existiu nos estados de São Paulo e Minas Gerais, por exemplo.

O Rio de Janeiro, por ter sido capital do Brasil durante aproximadamente 200 anos (1763-1960), e que está de frente para o mar, seria muito mais cosmopolita; mais ligado às coisas do exterior. E, acredito, nesse processo foi perdendo a memória desse Brasil citado anteriormente.

Hoje, agora, zapeando com o controle remoto, ao chegar na SescTV – excelente! –,  ouço aquela música, o prefixo do programa, que me fez viajar no tempo e deixei-a tocar. O programa estava começando e, agora, se chama Sr. Brasil. Nome pra lá de apropriado.

O programa é produzido pela TV Cultura, com apoio do SESC-SP, e é apresentado pelo Rolando Boldrin, que apresenta, segundo o texto do site “ritmos e temas regionais brasileiros”.

Se você quer conhecer esse Brasil que não é só litoral, que é mais que muita Zona Sul e saber que há gente boa espalhada por esse Brasil e que faz desse lugar um bom país, não deixe de assistir. O programa vai ao ar todos os sábados entre 20h30min e 21h30min, para você poder conhecer um pouco mais o nosso país.

Samba-enredo são vírgulas separando palavras soltas

Os sambas-enredo contavam o enredo numa história com melodia. O que eles, os sambas-enredo de hoje, são? São uma série de vírgulas separando idéias soltas e palavras também soltas como se fossem colocadas ali para que, filosoficamente, os espectadores e ouvintes decifrem o mistério sobre o que representam no enredo. Compare a letra do samba-enredo do Império Serrano reeditado e qualquer outra letra de qualquer outro samba-enredo deste ano. A diferença é impressionante.

imperioserrano09₢ODiaOnline Assim como a maioria fiquei surpreso com a quantidade de notas baixas dadas ao Império Serrano. Deixo claro que sou portelense, mas jamais desprezaria um desfile de uma escola tradicional que levou para a avenida um samba que foi cantado por todos, até mesmo quando, em casa, vendo o desfile pela televisão.

Os critérios para avaliação foram apresentados pelos organizadores e você pode baixar para tentar entender os motivos pelos quais uma escola é avaliada. Talvez, assim, seja possível compreender qual a diferença de notas dadas por três jurados e um quarto jurado que tirou 0,1 da nota máxima de uma bateria, pois, imagino que achou que, quem sabe, a baqueta de tamborim na terceira fila do naipe desse instrumento era curta demais visto lá da cabine. Ou será que não gostou da volta do naipe de frigideiras entre os instrumentos?

Eu sou do tempo em que os desfiles eram muito mais a apresentação de uma comunidade e raros elementos de fora participavam. A elite pouco participava. Havia uma grã-fina que saía na Portela, uma cantora da Jovem Guarda que saía na Mangueira ao lado do passista Gargalhada e mais uma meia dúzia de gatos pingados de origem diversa. Hoje, ao contrário, a tevê que detém o direito de transmissão preocupa-se muito mais em mostrar seus funcionários do departamento de dramaturgia e bijuterias tidas como efeitos especiais do que o samba no pé.

Também sou do tempo em que cada escola trazia em todas as fantasias as cores de sua bandeira e havia mais passistas sambistas do que rainhas de bateria que sambam ao estilo gringo, só faltando apontar os dedinhos para o alto. Por falar nisso, lembrei da crônica do Dapieve – botafoguense de quatro costados –, no Segundo Caderno do O Globo, ao citar seu amigo Tárik (de Souza), ao falar sobre as “rainhas de bateria” que, hoje, desfilam tendo em mente a estética do travesti. Parecem homens de tão marombadas que são. Salvo raríssimas exceções, algumas trazem o corpo com as curvas femininas que, nós homens, tanto apreciamos desde que começamos a perder quase todos os pelos do corpo ao descermos das árvores.

Também me pergunto: em que lugares se escondem aquelas deusas de ébano e mulatas nos outros 361 dias do ano? Só pode ser em viveiros. Elas não são vistas durante o resto do ano andando nas ruas indo ao banco pagar conta, indo ao cinema e bares, supermercado… Este mistério é mais bem guardado que o terceiro segredo de Fátima que até já foi revelado.

Recebi uma resposta do Michell Niero, da revista eletrônica O Patifúndio, que trata de temas sobre o mundo lusófono, no artigo sobre a apuração das escolas de samba dos grupos B, C, D e E que transcrevo abaixo:

Assim como no futebol, hoje em dia eu valorizo muito mais as divisões de acesso que a elite. A elite é uma indústria, recebe verba de tudo quando é lugar (inclusive, alguns bem suspeitos), é penduricalho de globais e tudo mais. Nas divisões de acesso é a comunidade mesmo suando a camisa e sendo os protagonistas do seu próprio carnaval. É muito mais bonito e humano que essa grande máquina que virou o carnaval televisado.

O pensamento é o mesmo que motivou este artigo: a essência do carnaval de escolas de samba. Esta essência não deixa de ser encontrada no grupo que congrega a chamada elite, só que em menor intensidade do que nos grupos de acesso. Não é uma apresentação para a televisão e muito menos para os turistas. É, antes disso, a consolidação de um sentido de comunidade que cada escola de samba concretiza nesses grupos de acesso. Lógico que todas almejam chegar à elite, mesmo que seja para subir e descer logo em seguida. Diria que há muito mais emoção e paixão. Não que deixe de haver na elite, mas me parece mais sincera quando lá em baixo.

ps. Mais um ano de fila para a Portela.

Carnaval 2009 – Desfile das Campeãs

A Rede Bandeirantes transmitirá a partir das 21h de sábado, dia 28 de fevereiro, o desfile das campeãs do Carnaval do Rio de Janeiro. Abaixo a ordem do desfile. A previsão para o término é por volta das 3h, já na madrugada de domingo.

Mangueira
Grande Rio
Vila Isabel
Portela
Beija-Flor
Salgueiro 

Carnaval x Oscar

 oscarxcarnaval2

Vi que alguns blogues e blogueiros que se dizem cinéfilos e, para meu espanto, a relação cinema x carnaval é uma questão passional, em que os cinéfilos (os supostos, é claro), devido ao fato de que o canal de tevê aberta que detém os direitos de transmissão da entrega do Oscar ter decidido não transmitir a mesma. Que absurdo, não? Deram preferência a essa festa de gente pobre e favelada e, horror dos horrores, brasileiros, chamada carnaval, né?

Pessoal, acorda! Ainda não fomos incorporados. Na fila, à nossa frente, estão Porto Rico, Cuba, México e algumas repúblicas de banana da América Central. Até lá, querendo ou não, vocês terão que engolir o carnaval. Deu ziquizira só de ter consciência que são brasileiros? Então nem adianta ir em centro espírita para tirar encosto. Sugiro, portanto, contatar algum guru que more na Califórnia para ajudá-los. Twitten o guru.

Afinal, gosto não se discute. Gosto se lamenta. Chatice por chatice, eu sou mais de ver o povo cantando e feliz do que algumas pessoas falando uma língua que não é a minha e agradecendo, durante longos minutos, ao cachorro, galinha, papagaio, sogra, motorista e o Ricardão por terem vencido o Oscar na categoria “buraquinhos num manto preto, iluminado por trás, que faz parecer o espaço profundo”. Os prêmios que importam são aqueles que realmente interessam, a saber: Melhor filme, Melhor diretor, Melhor ator, Melhor atriz, Melhor ator coadjuvante e Melhor atriz coadjuvante. O resto é balela.

Será que preferem aquele antigo slogan? “Programação normal e o melhor do carnaval”. Lembrem-se que, caso não fosse a tevê Manchete, não haveria carnaval na televisão na década de 1980, pois a mesma rede que detém os direitos de transmissão, hoje, preferia passar novelas enquanto o couro comia solto na Avenida.

Você é cinéfilo de verdade? Vá assistir Os Sete Samurais, Amarcord, Ran, ou algum filme do Buñuel, Costa Gavras, Andrei Wajda, Fassbinder, Visconti, Truffaut e outros do mesmo quilate. Dito isso…

Ô esquindô lê-lê, esquindô lá-lá… Segura a marimba! Chora cavaco! Olha o carnaval aí, gente!

Acordo Ortográfico 2009: Guia para não esquecer

Baixe um guia em formato .pdf com as novas regras ortográficas no portal G1. Há um link no artigo “Confira o guia rápido das mudanças da reforma ortográfica”.

A partir do dia 1º de janeiro de 2009 passa a valer o novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa. Todos nós sabemos que algumas modificações sutis, porém, importantes deverão ser feitas e, como todo blogueiro que se preza, a primeira preocupação para que seu blog possa ter qualidade é o bom uso do idioma.

Mesmo que a ortografia atual possa ser usada até 2012, já é bacana começar a se acostumar em escrever “leem” em vez de “lêem”, por exemplo, para indicar quantas pessoas leram artigos em seus blogs.

Repórter fotográfico-cidadão ou Paparazzo?

Com as facilidades que os equipamentos eletrônicos pessoais proporcionam, na maioria das vezes, os jornais, por exemplo, recebem material fotográfico de pessoas comuns que por um motivo ou outro estavam na hora e no lugar certo, quando do acontecimento de algum fato. Isto se deu durante três momentos específicos recentes: os atentados à bomba no metrô de Londres, a tsunami no pacífico e, mais recentemente ainda, os atentados em Bombaim, na Índia.

₢ Le Monde Nem sempre os repórteres fotográficos profissionais, a soldo de algum meio de comunicação, conseguem chegar a tempo ou captam alguma sutileza que pode render uma boa notícia. A quantidade de imagens e vídeos enviadas para os jornais tem motivado alguns deles, que geralmente pagam quando do uso dessas imagens, a inverter o fluxo de dinheiro.

O Bild Zeitung, da Alemanha, colocou no mercado uma câmera digital (acima) específica para quem deseja enviar material para a redação. Lógico que o repórter-cidadão terá que comprar a câmera, que custa € 70; prometendo pagar entre €100 e €500 caso as imagens venham a ser utilizadas na versão digital do jornal ou €1000, caso o vídeo seja escolhido como “o vídeo da semana”. Detalhe: as imagens da câmera são de baixa qualidade.

O mesmo princípio tem motivado outros jornais e sites como o Voici e Citizenside, ambos franceses, a proporem o mesmo, só que pagamentos mais modestos aos reportes fotográficos-cidadãos. A quantia varia dos €10 para a publicação da foto na internet ou €100 caso seja veiculada na versão impressa. O Citizenside ainda se propõe a ser uma espécie de intermediário entre o cidadão e os grandes jornais, cobrando uma comissão que varia entre 25 a 50% do valor pago pelos jornais. No início de 2008, conseguiram fazer uma venda de €100 mil para o jornal Paris Match das fotos feitas por um repórter-cidadão retratando Jérome Kerviel na prisão. Ele foi responsável por uma maracutaia de €4,9 milhões contra o banco Société Generale. O curioso da história é que o valor pago é similar ao salário recebido pelo fraudador, isto sem contar os bônus.

A questão ética também passa por aí. Quantos não poderão armar situações para ganhar uns caraminguás enganando os jornais? Por esse motivo os jornais estão contratando fotógrafos que serão responsáveis pela apuração da veracidade das imagens. Segundo Aurélien Viers, da Citizenside, chegam a redação entre 400 e 500 fotos por dia, mas nem todas são aproveitadas. A quantidade é mínima.

Na Inglaterra também há um sistema de agenciamento parecido, o Demotix, que pede 30% de comissão sobre as vendas das fotos dos repórteres fotográficos-cidadãos. O objetivo do site é fornecer imagens de lugares distantes, os quais não são cobertos por fotógrafos profissionais dos jornais, como por exemplo, países em que há censura e bloqueio à entrada da impressa internacional.

Apesar de parecer um mercado promissor, já existem histórias de falências, como a do site holandês Skoeps, que mesmo tendo sucesso e grande audiência foi obrigado a fechar em Maio por não saber como encontrar um meio lucrativo para esta atividade.

* Artigo criado a partir da livre tradução feita por mim, do artigo Les clichés des journalistes citoyens convoités sur le Web, de Jean-Baptiste Chastand, para o Le Monde.

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