A cortina e o fim do casamento

Entenda a relação entre a estética de uma casa e o divórcio. Não há coisa mais certeira para começar uma briga do que as cortinas da sala de sua casa.

O pobre coitado está na sala, num domingo daqueles em que, por exemplo, o Ayrton Senna ganhava tudo e ainda esfregava a bandeira brasileira nas fuças dos gringos.

cortinadecorativa

Do nada sua mulher surge e, postada à sua frente, usando bobs na cabeça já que o domingo é dia de faxina completa, diz:

– Amor, tira as cortinas? É para lavar…

Você olha com cara de espanto e surpresa igual a aquela do guri que recebe a notícia informando que seu cachorrinho de estimação morrera enquanto estava na casa da vovó passando as férias. Não dá para acreditar. O Brasil – tanto faz se é sobre quatro rodas ou calçando chuteiras – está a ponto de ganhar novamente e ela pede para tirar as cortinas? Ninguém merece.

Você como bom entendedor do pacto feito no altar – na doença e na fartura…blá blá blá… – levanta do sofá e vai pegar algumas ferramentas que, dependendo do uso, ou não uso, podem estar enferrujadas ou ainda reluzentes como novas, procura a escada que deveria ficar atrás da porta da cozinha, encosta a escada na parede como se fosse tomar de assalto algum castelo medieval e, por também estar no contexto, está morrendo de medo que óleo fervente caia sobre sua cabeça, sobe alguns degraus e se depara com uma das mais incompreensíveis invenções humanas: a trava das micro-rodinhas que fazem a cortina correr pra lá e pra cá. Quem inventou isso certamente o fez sem qualquer planejamento ergonômico, métrico, estético, ético e sei lá mais o quê. Muito provavelmente, o inventor é desprovido de genitora, assim como o desnaturado que inventou as tais micro-rodinhas imaginava que girariam livremente nos RAIOS! COBRAS! LAGARTOS! TORNADO! TACHINHA! CAVEIRA COM FACA ESPETADA! dos trilhos. Apenas um detalhe: não escrevi palavras de baixo calão, visto o artigo poder ser lido por senhoras de fino trato e moças pudicas, ok?

Então, você se equilibrando mais precariamente que bêbado em meio-fio (guia, pra paulistada), encosta a chave de fenda na fenda do tal parafuso que trava a trava e… o danado não gira! Tenta uma segunda vez e… nada! Mais uma vez, já xingando os antepassados de todos os inventores de araque que criaram essas porcarias, consegue destravar o parafuso que trava a trava. Um longo suspiro vem do fundo de seus pulmões devido a tamanho esforço e alguma gotas de suor escorrem sobre suas têmporas. Tá pensando que é fácil? Experimente. Cansa mais que puxar ferro em academia de ginástica.

Vencida a primeira batalha, a guerra continua. Chega o momento de puxar a cortina que, em tese, deveria fluir suavemente devido aos tais carrinhos com micro-rodinhas. Você, já antevendo o desastre de proporções bíblicas, puxa a cortina com tanto cuidado que parece uma bailarina dando aqueles passinhos de gazela no tablado. Qualé, meu camarada? É só uma figura de retórica. Não estou dizendo que você sonhava dançar o Lago dos Cisnes, ok? Mas, se o teu subconsciente te traiu… Bom, voltando ao embate cortinesco, a suavidade de nada adiantou. Você, agora, usa um pouquinho mais de força. Digamos que a força equivalente a de um elefante se coçando no tronco de uma árvore e toda a armação que segura aquele pedaço de pano estampado, que mais parece o teto da Capela Cistina, tal a quantidade de detalhes, estremece e range como porta de casa mal-assombrada.

Seu coração dispara, seus olhos esbugalham e os dentes começam a ranger. Mas como você é o cara mais cordial do mundo, fecha os olhos e invoca os poderes e forças dos maiores monges budistas do cinema mundial, a saber: Charles Bronson, Chuck Norris, Steven Seagal, Arnold Schwarzenegger e… Sylvester (Rocky, Rambo) Stallone. Já quase em estado de nirvana ao contrário, você puxa a RAIOS! COBRAS! LAGARTOS! TORNADO! TACHINHA! CAVEIRA COM FACA ESPETADA! da cortina e ela… vem! Mas junto vêm também os trilhos, os carrinhos de micro-rodinhas, o suporte, os parafusos, buchas e parte do reboco da parede. Tudo junto e você começa a cair da escada igualzinho a um navio que afunda tendo a bandeira do mastro ainda tremulando, isto é, durinho para trás, proferindo palavras mântricas… RAIOS! COBRAS! LAGARTOS! TORNADO! TACHINHA! CAVEIRA COM FACA ESPETADA!

Ela te vê no chão, com a flor do jarro sobre a cabeça, água do mesmo jarro escorrendo, o abajur que voou e ficou pendurado no ventilador de teto, os bibelôs – canequinhas com os dizeres “Lembrança de Caxambu”- aos caquinhos, uma de suas pernas presa entre os degraus da escada e você fatalmente ferido em seu orgulho – pátrio e de macho – a segurar aquela RAIOS! COBRAS! LAGARTOS! TORNADO! TACHINHA! CAVEIRA COM FACA ESPETADA! de cortina numa das mãos e diz:

– Amor, olha só o que você fez!

Você começa a xingar tudo e todos e ela diz…

– Eu não fui criada para ouvir isso!

Qual é o final da história? Procurar advogado para tratar do divórcio.

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7 comentários sobre “A cortina e o fim do casamento

  1. a munhe não e escrava do homem portanto
    eli também tem que fazer alguma coisa
    só foi uma cortina era para eli arruma a mesa e lava a louça.isso não e nhem uma ofensa .

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  2. Caracas, por causa de uma cortina, um divorcio?
    Que amor é esse?..rsss
    Adorei,,Parabens Jorginho!
    Beijinhos na testa,,rsss
    RO!

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  3. Penso que um divórcio por causa desse motivo, deve-se levar em conta o tempo do casamento. rs

    Adorei. Ri muito!

    Aconteceu com vc? Descrição perfeita e minuciosa..rs

    bjss

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  4. Você, como boa observadora que é, percebeu logo que o mote do artigo foi vivido e vivenciado por este pobre escriba virtual. Porém, como a crueza da realidade nem sempre permite que façamos algo melhor, sempre são criados floreios e acrescidos por um tanto de ficção para contar uma história que pode parecer banal. Um dia eu ainda conto como foi que consegui criar uma quase réplica da bacia hidrográfica do Amazonas no teto da minha casa.

    Imagino que já tenha lido o artigo “Ei! Psiu! Você aí”, que escrevi há um bom tempo. 🙂

    bjs

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  5. Adoreiiiii, me causou boas gargalhadas. Gente nao deixarei as cortinas para serem lavadas aos domingos…Nao quero um final assim.. Ah!!! nao estou pensando no final do casamento e sim na labusera que deve ter ficado na sala…

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