História de uma cor: vermelho

Dizem que a amante do Luís XIV, Madame de Pompadour, se apaixonou perdidamente por ele ao vê-lo usando sapatos cujo salto alto era da cor vermelha.

Luís XIV Segundo o pensamento popular, vermelha é a cor da paixão. E acho até que não poderia ser diferente, pois, afinal, nós somos levados a associar cores a estados de espírito. Aí mesmo está a cromoterapia. O coração que, ainda segundo o pensamento popular, é o repositório das emoções e, em especial, do amor, é representado sempre na cor vermelha.

O que não imaginávamos é que as cores e, no caso específico, a cor vermelha como preferencial remonta aos tempos das cavernas. Arqueólogos encontraram em cavernas da Geórgia, um país do leste europeu, vestígios de tecidos datando de 30 mil anos tingidos em tons de cores que não pensavam haver traços nesta época. O que sugere o uso de tecidos nessa época é que os vestígios demonstram ter sido torcidos, numa clara mostra de que havia uma tecnologia de fabricação de vestimentas, mesmo que rudimentares. Segundo o arqueólogo de Harvard (EUA), Ofer Bar-Yosef, “as fibras (veja a feita a partir de um microscópio)encontradas na caverna foram, provavelmente, trançadas em conjunto como uma espécie de macramé.1” O fato comprova que nossos antepassados sabiam como se proteger do frio intenso da última era glacial. Além do mais, a técnica de trançar fibras levava a produção de outros artefatos como cestos, por exemplo, o que permitia a mobilidade das populações. Também podemos imaginar que havia um componente estético, mas com fins sociais (proteger o corpo), visto as fibras apresentarem, como dito acima, traços de cores como “preto, azul turquesa, cinza e até rosa”, afirma Bar Yosef. Isto levou a uma constatação por parte da professora Elizabeth Barber, do Ocidental College, de Los Angeles (EUA), que estuda os tecidos pré-históricos ao afirmar que “Nós amamos as cores – o nosso cérebro ‘dá um estalo’ quando percebe a cor”.

E o que a cor vermelha tem com tudo isso?

Vejamos um caso interessante, a nobreza europeia e a sua cor preferida. Antes, porém, precisamos voltar mais um tanto no tempo e falar sobre a Conquista da América pelos espanhois que chegaram aqui ávidos por riquezas.

cochonilha Os astecas e os maias, seus predecessores, cultivavam plantas (cactos) em que um inseto se instalava para extrair a seiva. Descobriram que esse inseto, a cochonilha (Dactylopius coccus), era capaz de produzir, como proteção contra predadores, uma substância de cor vermelha e que é conhecida cientificamente como ácido carmínico. Logo, esses povos tidos como “primitivos” por seus conquistadores perceberam que não apenas era possível tingir tecidos, mas também preparar cosméticos, tintas e um aditivo alimentar2. A cochonilha tornou-se, então, o segundo produto mais valioso que os espanhois encontraram no México. Perdia apenas para a prata. Os espanhois guardaram o segredo o quanto puderam até que os corantes artificiais começaram a chegar ao mercado, em meados do século XVIII.

Então, ali por volta do século XVII, quando a França era o modelo de nobreza para toda a Europa, Luís XIV, o Rei-Sol, praticamente instituiu o vermelho como a cor do poder, que segundo a historiadora Joan DeJean “Sempre foi a cor associada com palácios, com Versalhes”. Ainda de acordo com a historiadora, Luís XIV “colocou um pouco de vermelho em tudo que tocava”. Associando, então, a vaidade do rei que julgava ter as pernas mais bonitas da França, e ao usar os famosos culotes, deixava à mostra seus sapatos cujos saltos vermelhos, ou melhor, escarlate, indicavam a sua nobreza e realeza.

A força e o status conferido a essa cor em países como o Japão e a Itália conferiam alta condição social. Em alguns casos era proibido o uso da cor vermelha para quem não fosse realmente poderoso.

As conotações da cor vermelha na história social

Além do símbolo de status, o passar do tempo fez com que as associações a esta cor fossem mudando de conotação como as famosas “casa da luz vermelha”, ou bordeis e zonas de prostituição. É a cor que representa Satanás e, ironicamente, a cor da Igreja Católica. A afirmação é de Rebecca Stevens, curadora da mostra Red, no Textille Museum em Washington (EUA), que diz que a cor vermelha pode ser, também, ligada ao sexo. Ela também nota que era uma cor ligada a divindade, tanto que Jesus e a Virgem Maria em pinturas renascentistas são representados usando vestes vermelhas. Na china, a cor vermelha tinge os ovos servidos na comemoração dos meses de nascimento de um bebê após o parto. Na Índia, as noivas usam vermelho. Logo, a cor vermelha também é ligada a felicidade. Como podemos notar, cada época e cada cultura dão um significado para essa cor.

Para aprender um pouco mais sobre a cor vermelha e muitas outras, visite o site Color in Motion, da designer Claudia Cortés que é “uma experiência animada e interativa da comunicação e simbolismo da cor”. Clique sobre a imagem para iniciar.

colorinmotion

* Este artigo foi escrito a partir da tradução e adaptação , feitas por mim, Jorge Alberto, dos artigos These Vintage Threads Are 30,000 Years Old, de Richard Harris, para o NPR, em 10/09/2009; The Color Red: A History in Textiles, de Susan Stamber, também para o NPR, em 13/02/2007.

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1Técnica de tecer fios sem uso de máquinas. A palavra significa “nó” em francês, mesmo que a origem seja do árabe migramah. Fonte: Wikipédia.
2 Hoje se sabe que o produto natural não é tóxico ou cancerígeno, ao contrário dos corantes industrializados.

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Um comentário sobre “História de uma cor: vermelho

  1. Eu simplesmente amo vermelho! É uma das cores que mais gosto juntamente com o preto o branco, que além de ser as cores do meu Fogão, minha estrela solitária, me vestem muiot bem! rss

    Mas sabia mesmo sobre toda essa história do vermelho. Gostei de saber!

    bjs

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