Heleno de Freitas, o Gilda: 50 anos de sua morte.

Poucos jogadores de futebol tiveram a aura e proeminência de Heleno de Freitas, que encantou nos gramados e na alta sociedade do Rio de Janeiro, a então capital federal, nas décadas de 1930 e 1940.

Heleno de Freitas Morreu aos 39 anos, em 1959 (8 de novembro), em um sanatório em Barbacena (MG). Foi astro do Botafogo – sua história se confunde com a do clube –. Nasceu em berço de ouro, formou-se em Direito. Gostava de Dostoievski, jazz, blues, Cole Porter, Billie Holiday. Frequentava boates e cassinos.

Em novembro serão completados 50 anos da morte de Heleno de Freitas, o primeiro jogador de futebol a fazer a ponte entre o futebol e a alta sociedade e que foi um dos maiores ídolos do período considerado o mais romântico do futebol brasileiro.

Perto dele, Edmundo, alcunhado de O Animal, não passava de um bichinho de estimação. É essa a constatação que eu, botafoguense, que nem em sonho viu o Heleno jogar, soube de algumas de suas histórias através do meu pai, de quem herdei o sangue alvinegro.

Outros jogadores temperamentais passaram pelos gramados brasileiros, sendo que, além do Animal havia também o Almir Pernambuquinho, que aprontou o maior bafafá na final do campeonato carioca de 1966 contra o Bangu. Este, assim como alguns dos temperamentais, morreu assassinado. Em seu caso numa briga de bar.

Em 2004, a ESPN Brasil produziu o documentário 300 anos de futebol, contando a história de três clubes cariocas fundados em 1904 – Botafogo, Bangu e América –. No programa sobre Botafogo há uma parte especial dedicada a Heleno. Clique sobre a imagem para assistir.

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Clique sobre a imagem

Quando do lançamento do livro Nunca houve um homem como Heleno, de Marcos Eduardo Neves, o autor concedeu várias entrevistas e achei muito interessante resgatar a sua ida ao programa do Jô e também um podcast, o Bom de Bola, que foi criado em homenagem a Heleno de Freitas. Clique no link para ouvir. Vale a pena.

Entrevista de Marcos Eduardo Neves no Programa do Jô.

O Gilda

 gilda2Além de sua sabida doença, um outro fato que marcou Heleno foi o seu temperamento, que levou os torcedores adversários a apelidá-lo de Gilda, o personagem de Rita Hayworth, no filme homônimo. Daí em diante, em todos os jogos, além das confusões já tidas como normais, Heleno tinha que enfrentar a torcida adversária chamando-o de Gilda! Gilda! Gilda!. A provocação parece que era mútua. O recentemente falecido compositor Zé Rodrix, juntamente com Miguel Paiva, escreveram o musical Heleno, um homem chamando Gilda, em que contavam a vida e a obra desse grande jogador de futebol que viveu no limite da razão no campo e na vida. Há uma outra versão para o apelido. Este teria sido dado por seus companheiros do Clube dos Cafajestes, um grupo de rapazes ricos da Zona Sul, que promoviam reuniões.

Em um comentário ao artigo do jornalista botafoguense Roberto Porto em seu blog, o leitor João Almeida, citou a seguinte passagem do livro "O Homem que Sonhou com a Copa do Mundo", de Carlos Rangel:

"Em um asilo em Barbacena, num campinho de terra Heleno corria, gordo e sem dentes, imaginando-se num jogo imaginário, onde ele com a camisa do Botafogo fazia o gol do campeonato. Saía comemorando como um criança. Para ele era realidade. (…) Poucos dias antes de morrer Heleno tira do bolso um amassado pedaço de jornal, onde dizia que o Botafogo precisava do Heleno. Louco, doente e quase moribundo ele dizia eu preciso salvar o Botafogo".

 

Os extremos de uma mesma paixão e tragédia

Posso pecar por omissão ou por desconhecimento, porém, posso falar que dos casos trágicos ou como quiserem, românticos, do futebol brasileiro, o Botafogo teve dois representantes, se não os maiores, certamente os mais significantes: Heleno de Freitas e Garrincha. Não são anti-heróis. Pelo contrário. Foram, sim, dois apaixonados pelo que faziam levando ao extremo seu amor pela bola. Um, o perfeito fisicamente e economicamente, Heleno. O outro, o mestiço pobre, descendente de índios e com um defeito físico, as pernas tortas. O primeiro foi levado pela sífilis à loucura e morte. O outro foi levado pelo álcool à morte. O que emociona, acredito que mesmo aos que não torcem pelo Botafogo, é saber da paixão de ambos pela estrela solitária. Heleno foi jogador do Botafogo antes da fusão, quando o escudo ainda era formado pelas letras B, F e C entrelaçadas. A estrela só veio quando da fusão com o Botafogo de Regatas, pois este era o seu símbolo.

Ainda seguindo pelo caminho paralelo entre vida e arte, muitos consideravam Garrincha como uma espécie de Carlitos, o personagem mais famoso de Charles Chaplin. Quanto a Heleno, segundo, os cronistas esportivos e da crônica social, davam-lhe a fama de um verdadeiro galã de Hollywood. Sempre bem vestido, andando em carros importados, namorando belas mulheres e convivendo com a alta sociedade do Rio de Janeiro, a Capital Federal. Por essas e por outras é que o futebol realmente é um esporte democrático. Entre as quatro linhas todos são iguais não importando a origem social.

heleno04 Mas, por qual motivo falar de um jogador de futebol que morreu louco há 50 anos? Não se espantem. O ser humano é ávido por conhecer os dramas da vida e, em especial, as tragédias. Estão aí até hoje sendo encenadas as peças de Ésquilo, Sófocles e Eurípides. E a história de Heleno tem todos os elementos de uma perfeita tragédia. O tipo apolíneo, o deus da perfeição da beleza, o artista da bola. Amado pelas mulheres e invejado pelos homens. Filho de boa família e nascido em berço de ouro, que terminou seus dias louco em um sanatório. É esse o fascínio que arrebata quem o viu, quem não o viu e quem soube de suas histórias por ouvir contar. Seu futebol foi decantado por escritores do porte de Eduardo Galeano e Gabriel Garcia Marques que o viram jogar. A ele, como presente de casamento com a filha de um diplomata, Vinícius de Moraes dedicou o “Poema dos Olhos da Amada”.

O Botafogo talvez seja o clube de futebol, pelo menos do Brasil, que teve a história mais cercada de glamour. As histórias de seus craques se confundem com a do futebol brasileiro. Da seleção de todos os tempos da Fifa lá estão três jogadores do Botafogo, a saber: Didi, Nilton Santos e Garrincha. De todos os clubes brasileiros foi o que mais cedeu jogadores para a Seleção Brasileira até hoje. Acredito que só um clube, ou melhor, só o Botafogo seria capaz de ter a história que tem. Assim como os dois personagens mais famosos citados aqui, ser botafoguense é algo que requer extrema paixão e abnegação. É preciso muito amor para enfrentar períodos de seca de títulos. Por isso que ser botafoguense é, antes de tudo, conhecer a sua história e reverenciar seus ídolos. Ou vocês pensam que, por exemplo, naquele esquisito esporte norte-americano chamado baseball, não se reverenciam jogadores de décadas para lá de passadas? Há um caso interessantíssimo que bem exemplifica o amor ao esporte, não importa qual, antes de qualquer coisa. É o caso de uma espécie de Garrincha do baseball chamado Shoeless Joe. A sua história também tem contornos de tragédia e foi contada em parte no filme Eight Men Out. Aqui recebeu o título de Fora da Jogada.

 

O ocaso do ídolo

Toda sua carreira foi construída na era pré-Maracanã, exceto por exatos 35 minutos. Com a doença bastante avançada, em 1951, foi contratado pelo América e, em sua estreia no Maracanã  foi expulso de campo.

Heleno de Freitas jogou vários anos no Botafogo e jamais foi campeão pelo clube de seu coração. Quando foi vendido ao Boca Juniors, em 1948, o Botafogo foi campeão vencendo o Vasco pelo placar de 3 x 1.

Atuou pelos seguintes clubes: Botafogo, Vasco, Boca Juniors, Atlético de Barranquilla (Colômbia), Santos e América (RJ).

 

Sobre Heleno de Freitas

Artigo acadêmico intitulado A marca da elegância no ídolo esportivo Heleno de Freitas.

A vida de Heleno de Freitas. Excelente artigo de Marcio Sabones.

Artigo de Ivan Lessa, intitulado “Minhas botinadas com a fama”,  sobre uma passagem sua, quando garoto em Copacabana ao encontrar Heleno de Freitas.

Artigo El “Gran Gitano” Heleno de Freitas no blog do Atlético Junior de Barranquilla (Colômbia)

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Um comentário sobre “Heleno de Freitas, o Gilda: 50 anos de sua morte.

  1. Oi amigos. Fiquei muito feliz de ter colaborado para as pesquisas de vcs e extremamente emocionado em ver meu artigo classificado com excelente.
    Grande abraço!

    Márcio Sabones
    São João Nepomuceno MG

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