Caminha e a vergonha das índias

A visão que os gringos têm do Brasil e em especial das mulheres daqui deste pedaço de mundo abaixo do Equador é mais antiga do que possamos imaginar.

09_india Várias e várias vezes, aqui mesmo no WordPress, eu li relatos de brasileiras que foram estudar ou trabalhar na Europa, por exemplo, e os gringos, antes de qualquer coisa, as encaravam como “deusas do amor” em potencial. Lógico que não usei termos que li e outros que soube, mas parece que as imagens do Carnaval que exportamos para os frios países do hemisfério norte ativam a lascívia e a libido e eles ficam mais atiçados que o macaco da piada.

Houve época que até mesmo órgãos públicos, como a Embratur, vendiam o Brasil lá fora como o país da bunda. Nos cartazes e propagandas para incentivar o turismo, dentre as várias imagens idílicas da exuberância tropical, lá se destacava uma bunda feminina. Nada contra a bunda, mas, caramba, que falta de sensibilidade. Sabe o que isso originou? A ideia de que todas as brasileiras são aquilo mesmo que vocês estão pensando.

Para corroborar o dito popular de que o que fica é a primeira impressão, abaixo transcrevo um trecho da Carta de Pero Vaz de Caminha, o primeiro relato oficial do achamento do Brasil:

 

nativasbrasil 

(…) Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha. (…) E uma daquelas moças (…) era tão bem feita e tão redonda, sua vergonha (que ela não tinha) tão graciosa, que a muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhe tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela (…)

(Caminha. In: A fundação do Brasil – Darcy Ribeiro e Carlos de Araújo Moreira Neto. 2.ed. Ed. Vozes: Petrópolis,1993).

 

india_01 O que podemos depreender e aprender neste pequeno relato? Primeiro que a marujada andava precisada depois de tanto tempo vendo água e céu. Segundo, que Caminha era um voyeur de marca maior, excelente marketeiro e um observador arguto, que deve ter ficado com os olhos vidrados vendo as vergonhas das índias. Bem, dizem que ele era humanista, no sentido renascentista do termo. Por isso que citou que uma delas era “tão redonda”. Logo, as vergonhas fofinhas eram as “tais” na visão do escriba lusitano. A visão deve ter sido tão paradisíaca para os gajos, que o Caminha até se mostra muito sacana ao usar palavras no diminutivo, como “cerradinhas”. Dá para visualizar o escriba como aqueles lobos de desenho animado que assoviam e uivam ao verem uma mulher? Pois é. É assim que deve ter ficado a cara do Caminha. Ah, Pero Vaz, aonde tu fostes nos pensamentos, hein?

Leia um artigo sobre a pedofilia empreendida por norte-americanos com nossas índias.

 

* Infelizmente não pude dar o crédito para as imagens, pois não foram indicados nos sites em que foram recolhidas.

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4 comentários sobre “Caminha e a vergonha das índias

  1. Salve Jorge!!

    A coisa vem de muito tempo né?
    Infelizmente…
    E isso muda? Acredito que não!!
    Infelizmente de novo..

    Grande abraço

    Neo

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  2. Jorge, eu acho que a imagem que os gringos sempre tiveram das mulheres brasileiras é justamente aquela que passamos. Aqui em Balneário Camboriú a mulherada anda pelada mesmo no inverno. Frequente a noite daqui e verá. Faz tempo que a sensualidade perdeu espaço para a sexualidade. Não quero generalizar, mas um país em que o tamanho da bunda é motivo para sucesso, não pode passar uma boa imagem nem mesmo pra nós que vivemos aqui. Não sou puritana, mas parece que delicadeza e romantismo estão fora de moda. Abraços.

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  3. Ola Jorge,
    Parabens pela materia! Moro no Canada a mais de 7 anos e o que venho fazendo deste entao e’ mostrar pros Canadenses que mulher brasileira nao e’ o que eles pensam. A maioria das mulheres brasileiras sao independentes, tem curso superior e muitas delas assumem cargos importantes em empresas. Carnaval como eles veem no Rio nao e’ a realidade do Brasil. Muitas vezes voltei pra casa chorando quando estava em festas da empresa do meu marido com os comentarios absurdos destes homens sem informacoes.
    O que adimiro muito do meu marido e’ que ele sempre fala para estas pessoas para ler mais sobre a cultura brasileira antes de fazer qualquer comentario.
    abracos
    kelly

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  4. Kelly, eu bem sei sobre o que você está falando. Tenho amigas que relataram a mesma coisa quando foram estudar fora do Brasil. Até mesmo em meios acadêmicos essa visão preconceituosa é observada. Tenho certeza que somente o tempo passará uma borracha nessa visão, à medida em que o Brasil e as brasileiras, em especial, conquistarem o verdadeiro lugar, isto é, o respeito por nossa cultura e nosso povo.

    Obrigado pela visita e pelas palavras.

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