Um pouco de Amália Rodrigues

Minha casa, a casa em que cresci, foi um ambiente extremamente musical. Os dias, durante muito tempo, eram permeados por trilhas sonoras que variavam do Baião ao Swing das Big Bands; de árias de ópera a Waldir Calmon “feito para dançar”; de Billie Holiday a Ângela Maria, passando por Ademilde Fonseca cantando chorinho; Orlando Silva, Cauby Peixoto, Chico Alves, Nat King Cole, Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Sara Vaughan sempre estavam cantando alguma coisa na antiga vitrola Gründig que meu pai comprara bem antes de eu nascer. Beatles e Rolling Stones também apareciam por lá. Meu pai tinha um móvel gigantesco em que cabiam dezenas e dezenas de discos. Acredite: havia discos em 78rpm!

Neste exato momento, ouço o CD com as gravações de várias composições dos Beatles, mas em ritmo de chorinho – em sua maioria –, que comprei faz algum tempo. E, lembrando, retomando os tais escaninhos da memória fiz essa pequena retrospectiva apenas para dizer que muito tempo depois dessa época, quando comecei a trabalhar mantive o saudável hábito de comprar LPs e depois CDs para me deliciar com as músicas que ouvia e as que passei a gostar nos anos seguintes.

O engraçado de tudo isso é que essas lembranças remeteram a uma cantora portuguesa, a Amália Rodrigues. Sim, lá em casa também se ouvia “De quem eu gosto nem às paredes confesso”, ou “Foi por vontade de Deus que eu vivo nesta ansiedade”, com o jeito inconfundível da poderosa e belíssima voz da Amália Rodrigues. E foi numa dessas navegadas por mares nunca d´antes navegados – Pô, não foi bem assim, mas que fica bacana colocar no texto você não pode negar, certo? –, que me deparei com o vídeo abaixo. Por favor, ao ver e ouvir, faça-o com a devida reverência, pois você está diante de uma das maiores cantoras que já passaram por este mundo.

Anos depois dessa gravação, Caetano Veloso a interpretou de forma muito interessante. Tanto que, ao assistir um documentário sobre a cantora, uma das cenas mais emocionantes ocorre durante um show. Ela, no palco, identificou a presença do Caetano Veloso na plateia e o convidou para cantarem juntos. E ali, de uma forma ou de outra, mais uma vez, não apenas a, desculpem a falta de modéstia, linda Língua Portuguesa uniu duas culturas que, se não são gêmeas, são similares nas estruturas de pensamento e, principalmente, no sentimento e também na melancolia disfarçada em alegria que trazemos e eles, os portugueses, explicitam em seus versos pessoanos. As entonações, as articulações e até mesmo a forma de pronunciar certas palavras podem não ser tão parecidas, mas, não podemos negar que nem o Atlântico é capaz de separar o óbvio: a sonoridade melódica dessa língua neolatina.

Ouvir essa música e outras mais, me remetem à infância, à rua em que cresci. Havia uma pequena colônia portuguesa não apenas nessa rua, mas também nas transversais e paralelas. Uma das imagens mais marcantes e, que sintetizam a dor e a melancolia que os portugueses trazem em seus genes era a imagem das viúvas. Sim, as viúvas portuguesas guardavam luto eterno. Quando da morte de seus maridos, ouviam-se gritos de lamento e também um murmuroso carpir da parentada. Nós crescíamos na rua e víamos as viúvas sempre de luto, vestidas de preto dos pés à cabeça, pranteando em silêncio, em seu caminhar e à sua maneira a ideia de que, talvez, assim como acontece com D. Sebastião, o Joaquim ou o Manoel voltassem algum dia. E, assim, anos depois, quando comecei a tomar conhecimento da obra de Fernando Pessoa, li em “Mar Português”, a seguinte frase: Ó mar salgado quanto do teu sal são lágrimas de Portugal?

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3 comentários sobre “Um pouco de Amália Rodrigues

  1. Legal! Conhecia de ouvir falar da música e dessa cantora. Muito boa sua homenagem, é bom reconhecer quem faz mágica nesse mundo!

    Estou lhe seguindo no Twitter!

    Bjão!

    Curtir

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