Última Tempestade: um filme em 24 livros

O filme Prospero´s Book, de Peter Greenway foi baseado em The Tempest (A Tempestade), considerada a última peça escrita por Shakespeare, e se trata de uma festa para os olhos, mesmo que alguns críticos, à época do lançamento (1991), tenham-no considerado surrealista por demais – será possível haver limite para o Surrealismo? Perguntem para André Breton, ok? –. Esse filme foi um tanto pioneiro por utilizar técnicas e tecnologias que, hoje, são comuns em qualquer filme B que se preze.

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George Romney – The Tempest. Ato:1; Cena:1

O mote da peça – e do filme – são os livros que criam uma atmosfera de mitologia, humanismo, magia, vingança e redenção. Próspero, no filme, é representado por John Gielgud, um daqueles excelentes atores shakespearianos que Hollywood importa para dar peso às suas produções, o que é ótimo para quem gosta de cinema. Os elementos mitológicos da cultura Clássica, que bem exprimem uma época ainda marcada pelo Renascimento (séculos XVI e XVII), conduz-nos ao conhecimento de Caliban, um ser mitológico misto de humano e besta. Próspero é, ao mesmo tempo, escritor e personagem dos livros que vai escrevendo para dar prosseguimento à vingança imaginada contra aqueles que tomaram o poder e o exilaram.

Assista a uma apresentação reunindo os 24 livros de Próspero.

Por obra de sua magia, consegue reunir vários deles na ilha após um naufrágio engendrado com o auxílio de Ariel, uma figura mitológica que pode se transmutar em água, ar e demais elementos para atender aos caprichos do mago. Assim como Caliban – meio homem meio animal –, que mantém uma relação de ódio e obediência com ele, Próspero.

As imagens desse filme sempre foram marcantes para mim, que vi, assim, uma quase materialização de uma época em que os autores usavam e abusavam da sua genialidade ao remeterem à Cultura Clássica. Quem gostar de Arte, História, Filosofia, Ciência, Literatura etc, terá neste filme, já com quase duas décadas desde a estreia, um motivo para se deliciar e compreender um momento prolífico da humanidade.

Para compor a cena introdutória, Greenaway utilizou-se de vários recursos de HDTV (high definition television) e técnicas sofisticadas de montagem. O efeito foi uma atmosfera de conflito e tempestade, não apenas como fenômeno natural, mas como tempestade de imagens, palavras, pensamentos, sons e ruídos. O que possibilitou a tradução da cena dramática para o cinema, através do uso de imagens e sons eloquentes, foi a reunião de variados recursos que a montagem e que o HDTV oferecem, os quais foram empregados não só nesta cena, mas ao longo de todo o filme. Estes recursos podem ser enumerados como: os enquadramentos inusitados e sobreposições na tela, a mesclagem de vozes e o uso da palavra escrita.”

(Costa, Erika V; Diniz, Thais F. N. A Última Tempestade de Peter Greenway como tradução Intersemiótica de “A Tempestade” de William Shakespeare)

Voltando aos livros, sempre eles, vemos que são eles, os livros, que constroem toda nossa cultura e a perpetuam. “O Livro das Águas” , “Livro dos Espelhos, “Livro do Amor”, “Livro das Cores” etc. Hoje, estamos vivendo o início de uma nova era para a difusão e divulgação do conhecimento. Os livros como os conhecemos, feitos de papel já começam a ser vistos como peças de museu. A cultura será difundida por meios eletrônicos através de máquinas que conterão uma biblioteca inteira e que, talvez, levemos uma vida para ler. Próspero, em seu exílio, tinha apenas 24 livros de sua vasta biblioteca e eles seguiram para o exílio, por sorte quando Gonzalo, seu antigo e fiel conselheiro os coloca no bote em que os condenados estavam rumo ao navio que os levaria para o exílio.

E, para finalizar, cito um trecho do artigo já mencionado acima, situando esse filme num momento de transição e adaptação das técnicas e tecnologias que, hoje, são tão comuns:

“(…) ele realizou uma adaptação/transposição/tradução de sistemas nos quais considerou não só o público atual como utilizou os recursos tecnológicos disponíveis da atualidade.”

 

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