Fé: uma questão de marketing e capitalismo

Em duas resenhas de um mesmo livro que trata sobre o avanço do Pentecostalismo, o Brasil é citado com certo destaque. Nomes como Marcelo Rossi e Edir Macedo são apresentados como exemplos da disputa pela fé dos brasileiros.

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Man Preaching (Homem pregando) IMAGEM: © Gary Houlder/CORBIS

O Brasil e Coreia são os grandes mercados da fé. Digo isso por acabar de ler dois artigos sobre o mesmo livro, em dois jornais estrangeiros, em que a Terra Brasilis é citada. E, ao que parece, aqui se dará a batalha final ou é o palco da grande disputa entre as diversas seitas evangélicas.

Segundo o artigo do Telegraph.com, sobre o livro God is back: how the global rise of faith is changing the world (algo como Deus está de volta: como o crescimento global da fé está mudando o mundo), cita a vida de uma evangelista canadense chamada Aimeé Semple McPherson, fundadora da Igreja do Evangelho Quadrangular (1890-1944), um pastor dessa igreja, em São Paulo, declara que “o sucesso está nos exorcismos e numa certa agressividade” (mercadológica, imagino).

Esta senhora era dada ao marketing pessoal, pois adorava ser fotografada ao lado de estrelas do cinema como Charles Chaplin, ou ao lado de leões. O interessante de sua história é que ela sumiu durante um tempo e, ao retornar, quando reapareceu em pleno deserto mexicano, disse ter sido sequestrada. Muitos acreditavam que ela teve uma aventura amorosa e foi largada pelo amante durante o idílio. Uma canção foi composta na época, contando o caso de forma bem jocosa. Morreu em 1944 de overdose ao ingerir diversas pílulas de remédios para dormir.

Os autores, John Micklethwait e Adrian Wooldrige propõem a tese de que, o exemplo de Aimee McPherson é um dos grandes marcos da criatividade da igreja americana. E é neste ponto que entram o Brasil e a Coreia, como os maiores seguidores de um padrão religioso baseado em modelos norte-americanos de evangelização.

Você deve estar se perguntando por qual motivo esses dois países são os mais promissores campos para o encantamento de almas ávidas pela salvação. Comecemos pela Coreia, pois parece ser um caso muito interessante. Segundo o artigo do Times, God is back: Taking on Satan, US-Style (algo como “Deus está de volta: Tratando Satã ao estilo norte-americano”), que fala sobre David Cho, um ministro evangélico coreano, ligado à Assembleia de Deus, fundador da Igreja do Evangelho Pleno de Yoido, que até os 19 anos era budista e teve sua revelação após ser curado de uma tuberculose, abraçando o cristianismo. Diz ter tido visões de Jesus. No início de sua carreira foi intérprete de missionários norte-americanos, de quem aprendeu as técnicas e modos de fazer sua igreja crescer. Também visitou o Brasil e teve a brilhante idéia de reunir as pessoas como fazem algumas empresas que utilizam essa técnica para vender seus produtos de lar em lar ao evangelizar, isto é, criar células familiares e fazer delas suas bases para a pregação. Veja os princípios desta forma de evangelizar:

Os objetivos de suas células são:

  • células familiares

  • crescimento biológico, natural, por progressão geométrica

  • grupos de 1 até 30 (40) pessoas e aluga-se um templo

  • líderes designados

  • líderes formandos por meios tradicionais como seminários, escolas bíblicas e discipulado

  • estrutura de células heterogêneas no estilo de Escola Bíblica Dominical a domicílio

  • igreja permanece com o mesmo sistema de cultos, com serviços de oração, para jovens, doutrina,etc.

  • trabalha o caráter do discipulado (e)

(Fonte: Wikipedia)

A sua força de sedução é tamanha que, em Seul, capital da Coreia do Sul, uma em cada 20 pessoas é considerada membro de sua igreja – São aproximadamente 830 mil seguidores em todo o mundo –. O santuário central é capaz de abrigar 12 mil pessoas e nos andares acima, outras 20 mil se unem para assistir os cultos através de telões. David Cho cita constantemente o pastor Ted Haggard – Pastor Ted – como o homem que fez os demônios fugirem através de exorcismos via telefone. O jornal lembra que esse mesmo Pastor Ted é aquele que foi pego num escândalo de prostituição masculina, quando contratava, via telefone, serviços de um prostituto para atender às suas necessidades sexuais.

O êxito de Pentecostalismo é uma mistura estranha da crença inflexível e pragmatismo, emoção crua e aperfeiçoamento, improvisação e organização: como todos os êxitos de marketing, o Pentecostalismo deve um pouco do seu êxito à sua capacidade de adaptar-se a tradições locais, mas é sem embargo um produto muito americano." (Timesonline.com.uk)

A forma norte-americana de evangelizar é seguida à risca, como no quadro acima e, além disso, a Igreja Yoido envia cerca de 600 missionários aos quatro cantos do mundo. Ao contrário da Igreja Católica, o american way of religion chega às comunidades mais pobres (indígenas) de diversos países como, por exemplo, a Guatemala – A América Latina é o grande celeiro de almas ávidas por este tipo de salvação – e falam a língua dos locais, mesmo que seja uma língua ou dialeto nativos. Ainda neste tipo de “salvação”, meios de comunicação e cargos eletivos não estão fora do contexto. É uma forma de, como se diz no jogo do bicho, “cercar pelos sete lados”.

Os autores dão uma explicação para o sucesso desse formato, tendo a filosofia econômica do Capitalismo como o cerne dessa “busca pela salvação”, para explicar por que o Pentecostalismo é o grande sucesso religioso do século XX:

“ (…) o capitalismo faz com que as pessoas “sintam-se sem raízes e vulneráveis”, e assim busquem um refúgio na religião. Líderes religiosos ainda podem usar o capitalismo para aumentar a sua ação numa espécie de mercado. Assim, a América exporta o capitalismo e a religião simultaneamente (…).” (Telegraph.com.uk)

Um termo bastante interessante utilizado é o "igreja de resultados", quando o artigo do Times se refere ao bispo Edir Macedo, quando diz que a salvação será neste mundo e não no outro, desde que faça "investimentos", mais conhecidos como dízimo, os famosos 10% que todo fiel deve ceder para a sua igreja. Além disso, há uma gama variada de livrarias e livros escritos por gurus da autoajuda, todos com títulos religiosamente edificantes, que ensinam como gerenciar suas vidas e espíritos de uma maneira bastante eficaz.

A concorrência nesse tipo de mercado levou a um dos pequenos empreendedores (pastores de pequenas igrejas) a declarar: "Temos que trabalhar contra a concorrência, assim como lutamos contra o Diabo". Interessante este ponto de vista, não?

O uso de modernidades não está restrito apenas ao pentecostalismo. Até mesmo o islamismo faz uso desses recursos, que vão adaptando uma visão de mercado (da fé) utilizando a tecnologia e o Catolicismo também não quer perder o bonde da história, mais do que já perdeu em número de fiéis – cerca de 1% de seus fiéis a cada ano desde 1991. E, por isso, Roma aposta todas suas fichas em padres jovens e boas-pintas, como Marcelo Rossi, que é citado como um ex-professor de educação física, que transformas suas missas em seções de ginástica aeróbica.

*Este artigo foi escrito a partir da tradução e adaptação feitas por mim, dos artigos God is back: Taking on Satan, US-Style, do Timesonline e God is back: how the global rise of faith is changing the world que saiu no Telegraphonline.

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