Um pedacinho do céu

Muito já se falou ou especulou sobre o acidente do avião mais moderno que existe e vitimou mais de 200 pessoas nesta semana. Não se sabe se foi falha técnica ou humana e, acredito que acabarão culpando o piloto como geralmente se faz. Porém, o que ninguém saberá, a não ser que tenha algum grau de parentesco, é como se sente uma família quando não se tem um corpo para enterrar.

Lembrei, ao escrever, de uma antiga canção do Chico Buarque, que se chama Angélica, (veja o vídeo no Youtube) uma homenagem a Zuzu Angel, uma brasileira que teve um filho dado como desaparecido durante a época da Ditadura militar no Brasil. Em duas partes a letra diz:

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar

(…) só queria agasalhar meu anjo e deixar seu corpo descansar.

A escuridão do mar é aonde estão os corpos dos tripulantes e passageiros desse malfadado voo da Air France. Assim como foi sepultado meu irmão mais velho que, ao se dirigir em voo de helicóptero para uma plataforma de petróleo na Bacia de Campos, nunca mais voltou. O aparelho, com apenas 500 horas de voo, perdeu uma das pás do rotor e caiu no mar, matando as 11 pessoas entre tripulantes e passageiros.

Isso ocorreu em 1983, eu tinha 20 anos e ele, 29, prestes a completar 30 anos de idade quando foi sepultado no mar. Oficial da Marinha Mercante, primeiro colocado em sua turma, viajou o mundo inteiro e nos trazia coisas lá de fora que nem imaginávamos existir. Casado, um filho. Minha cunhada estava grávida de minha sobrinha que acabou nascendo no dia do aniversário dele, em 11 de maio. Até hoje sinto saudades desse meu irmão que me ensinou tantas coisas. Várias vezes eu já tentei escrever sobre ele e essa saudade. Confesso que, uma noite dessas, eu até comecei, e o faria ouvindo uma das músicas que mais gostávamos, um chorinho, o Pedacinho do Céu. Parei logo nas primeiras primeiras frases. Não pude continuar.

pedacinhoClique sobre a imagem e uma nova janela abrirá. Ouça a música

O que não se compara e não se deseja a ninguém, foi o que aconteceu a meu pai. Ver um filho ir antes dele e não ter um corpo para enterrar. Eu vi meu pai morrer aos poucos nos 18 anos seguintes. Durante um bom tempo, ele – assim como todos nós – imaginávamos que tudo fosse apenas um sonho ruim e que ele voltaria a qualquer momento. E é essa sensação de perda sem confirmação que mais atormenta quem perde um parente ou ente querido numa situação como essa.

Desejo apenas que o tempo sirva para confortar aqueles que terão que tocar suas vidas sem ter a esperança de saber o que aconteceu e aonde estão as pessoas que se foram. Não sou lá muito ligado em certas coisas, mas desejo que todos estejam num pedacinho do céu.

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