Somos parte do sonho alheio?

Fazer parte do sonho alheio é algo que não se pode deixar de estar livre, mas, certamente, nem sempre este sonho pode se concretizar e, por esse motivo, é muito provável que o sonho vire pesadelo. Esta pretensa conjectura surgiu após refletir sobre uma conversa por telefone, que não tinha nada de pessoal, mas descambou do profissional para o pessoal devido a infinidade de assuntos que foram sendo propostos e continuados.

Falamos sobre as coisas do mundo, da Wieslaw Rosocha © Images.com/Corbisimpaciência das pessoas, da tsunâmica crise econômica e, lá pelas tantas, surgiu a questão do “atingir os objetivos pessoais”. E não é que concluímos que muitos desses objetivos são sonhos geralmente inalcançáveis? Não lembro o nome de pensador ou intelectual citado por minha amiga que estava do outro lado da linha. Lembro, apenas, que ela citou uma frase parecida com “ao ser humano não foi dado o direito à felicidade”. Ah, sim! Agora, enquanto escrevia lembrei quem proferiu a frase. Foi Slavoj Zizek, sociólogo e filósofo esloveno que tem sido uma das vozes mais racionais dos últimos tempos. Qualquer dia desses eu conto como tomei contato com sua obra.

Portanto, muitas das vezes, por não sabermos como atingir este sonho que é a felicidade eternamente perseguida, acabamos por fazer do outro, no sentido de individualidade que talvez “complete”, o fiel depositário desse objetivo. O que realmente não temos consciência em um momento, digamos, em que usamos antolhos é não observamos todo campo de visão que nosso pensamento pode nos permitir e, assim, procuramos e explicitamos essa necessidade colocando a outra pessoa na situação já citada de fiel depositária. Também inconscientemente, não somos capazes de mensurar o quanto esta condição “imposta” ao outro pode vir a ferir ou desestabilizar qualquer ordem ou padrão anterior, quando, quem nos vê assim, de alguma forma ou de outra, coloca os pés no chão. Geralmente, surgem palavras pedindo perdão e, o pior de tudo, o silêncio, porém, nos observando como se estivesse à espreita.

E o que essa amiga me disse foi: “Jorge Alberto, nós precisamos ser delicados para lidar com os sonhos alheios. Não podemos ser rudes, por mais que aquilo venha a ferir nossa alma.” Eu confesso que fiquei um tempo pensando e até em silêncio durante essa parte do telefonema e essa amiga Dread and Dream by Asger Jorn © Christie's Images/CORBISpareceu entender. Desviei do assunto com alguma brincadeira que não lembro mais. Sim, foi uma espécie de fuga naquele momento.  Acho  que falei algo bobo como “Ah, ariano é cabeça dura, malcriado, manhoso…”, como se fosse para explicar – a mim mesmo – sem que ela, amiga, soubesse que eu procurava uma desculpa para alguns atos impulsivos meus. Sinceramente, eu prefiro muito mais me manter tranquilo do que explodir e depois ter que rever o que fiz ou expus. Não vejo mal algum em pedir desculpas, mas há certas coisas que realmente nos fazem ultrapassar o limite que lutamos tanto para conseguir manter e, se possível, ampliar cada vez em termos de tolerância, entendimento e compreensão.

Realmente devemos ser delicados e não falar algo que venha a magoar quem está nos pondo nesta posição de fiel depositário de sua (dela) felicidade. O silêncio, neste momento, é de bom-tom. Devemos, sim, deixar que tudo flua naturalmente e a pessoa que nos quer assim ou assado, entenda que nosso mundo foi abalado e que uma atitude intempestiva pode estar a caminho se não souber, o que nem sempre se sabe, como lidar com o que estão sentindo ou pretendendo.

Não é a todo momento que conseguimos manter o silêncio e explodimos em palavras que podem magoar. Entretanto,  esperamos que entendam o motivo dessa cataclísmica explosão em forma de palavras, pois o abalo sísmico foi provocado por quem nos levou a ultrapassar o limite da tolerância, do entendimento e da compreensão.

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Um comentário sobre “Somos parte do sonho alheio?

  1. O engraçado Jorge é que tento ter essa posição tranquila, como se eu tivesse algum controle sobre tudo, mas aí vem a explosão, e perco em algumas situações a razão e para refazer os ”cacos” é um pouco difícil.

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