Saudades do Brasil: cheiros, comida e calor

Recentemente, ou melhor, nas últimas horas, li dois artigos que falam das saudades do Brasil mesmo que as cidades em que foram escritos estejam separadas por milhares de quilômetros.

© Solus-Veer/Corbis Em ambos, a saudade tem nome de cheiro e sabores da terra natal, da rua em que moravam. Os sons também são memórias para a saudade. Então, mas por qual motivo os autores, um jornalista morando em Paris e a outra, uma atriz que foi fazer um curso de teatro em Moscou, escreveram sobre isso? É muito simples: a saudade é, antes de tudo, uma palavra inexplicável para quem não fala Português. Também podemos dizer, já num nível antropológico que se dá pela sensação de perda dos referencias culturais.

O que nos faz brasileiros, ou o que faz os gringos serem franceses, russos, norte-americanos, por exemplo, são os tais referenciais culturais, e esses mudam de região para região. Até mesmo dentro de um país há referenciais culturais mais regionais, diria, paroquianos, que identificam e nos dão certeza que pertencemos a um grupo específico.

Eu posso dar um exemplo clássico aqui mesmo do Brasil: os gaúchos. Antes de serem brasileiros são gaúchos, como gostam de afirmar. É um sentimento diferente do carioquismo, que é um estado de espírito antes de ser a nomenclatura dos nativos da Muy Leal e Heróica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Agora, imagine dois brasileiros cujos referenciais culturais são similares no paladar e no clima; os famosos “feijãozinho com torresmo” e “o verão”, tendo que enfrentar temperaturas que vão para algo próximo ao zero absoluto e suspiram pelo calor das ruas dos verões ensolarados.

A atriz Martha Nowill, paulistana, em seu artigo na revista Piauí, conta que passou um mês em Moscou e relata as agruras do frio – O inverno russo venceu Napoleão. E venceu Hitler!, dizia seu pai em tom de alerta antes do embarque –, de pedir errado a comida – em vez de presunto, pedira toucinho; em russo –, fala também do cheiro de vodca amanhecida no metrô e as dificuldades para se comunicar com um paquera russo.

42-21315664 Em Paris, Daniel Carriello, que imagino também ser paulistano, em suas colunas no Le Monde Diplomatique, nos apresenta sua visão peculiar da Cidade Luz e das engraçadas confusões que os franceses cometem em relação a língua que falamos que, para eles, franceses, é brasileiro – já dizia Noel Rosa que tudo aquilo que o malandro pronuncia em voz macia é Brasileiro, já passou de Português –. Como a revista é eletrônica, posso indicar duas crônicas muito humoradas sobre o fato em questão: Procura-se pão francês , ao descobrir que na França não existe pão francês e Alô, Hugo!, quando é confundido com um mexicano. E por falar em pão francês, em minha opinião, o melhor é feito em São Paulo. Não há padaria por lá que faça deste pãozinho uma massa emborrachada como fazem as padarias cariocas que certamente colocam a seiva da seringueira, o látex, na receita. É sempre crocante em Sampa, não importando o horário.

Mas, por outro lado, ir a botequim em Sampa é uma surpresa. Primeiro, pelo fato de não haver botequins como os daqui, nem mesmo um pé sujo que se preze; segundo por não existir feijão preto, mas sim, um feijão que posso classificar como feijão manteiga. Feijão preto, explicava-me uma amiga que me levou a um “autêntico botequim carioca” de Sampa, é só na feijoada. É o avesso do avesso do avesso concretamente na gastronomia.

Em termos históricos, a perda dos referenciais culturais era um dos piores castigos que um meteco poderia receber ao ser posto em ostracismo.– não, não estou xingando quem quer que seja, mas apenas indicando a forma pela qual um cidadão ateniense era conhecido –.  O exílio era o destino e, lá longe, além de saber que perdera os direitos políticos, também chorava as mágoas por não saborear aquela maza,  tomar uns goles de ceyceon e vinho, e muito menos ter um azeite de primeira para temperar sua comida.

E o que os modernos regimes políticos ditatoriais fizeram quando não matavam seus inimigos? Apontavam o dedo indicador em direção ao oceano, e diziam: Vá para o exílio! Em resumo: Vá para bem longe de sua cultura e morra de saudades!

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