Os Árabes inventaram o Ocidente: a Casa da Sabedoria

Nos dias de hoje, principalmente após os atentados de 11 de setembro, a nossa compreensão do mundo muçulmano ficou um pouco mais distorcida do que já era desde os tempos das Cruzadas. Infelizmente, algumas pessoas que professam uma religião a fazem de base ideológica para suas pretensões pessoais e, em muitas vezes, percebe-se um desvio psicológico por uma sede de vingança infundada. A visão do outro nunca foi bem compreendida. Nem sempre se entende que há apenas diferenças e não conceitos qualitativos inferiores ou superiores. Foi isso que o Ocidente também fez, ainda nas Cruzadas, ao combater o suposto infiel e, ao mesmo tempo, negar que boa parte da evolução cultural e científica do Ocidente se deve ao mundo árabe. Um erro, ou uma omissão direcionada, na melhor das hipóteses.

The Expansion of the Muslim Empire under Muhammad and the Four Rashidun Caliphs

Império abássida (₢ ocw.nd.edu)
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Há muito tempo, ainda durante a graduação, comprei um livro sobre documentos medievais num sebo e desde então, de vez em quando, eu o folheio. Por isso, posso dizer que algumas passagens da Idade Média são tão atuais que parecem ter sido escritas ontem em algum jornal, ou, também, encontro em seus vários documentos boa parte das fundações do mundo ocidental da atualidade como, por exemplo, a divulgação do conhecimento e a sua necessária preservação para as gerações futuras.

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Por um desses felizes acasos da vida, eu acabei me deparando com um interessante artigo, uma resenha para ser mais claro, a respeito de um livro sobre a “Casa da Sabedoria”, ou em sua língua original, Bait al-Hikma, fundada em Bagdá (dádiva de Alá), no atual Iraque (antiga Pérsia), no século VIII pelo califa Haroun al-Shid, da dinastia abássida, que governou o mundo árabe islâmico por vários séculos, até meados do século XIII, quando a cidade foi conquistada pelo império Mongol. Estes quase 500 anos são conhecidos como a Idade do Ouro do mundo islâmico.

Em termos de referência, guardando todas as proporções, era uma espécie de biblioteca de Alexandria, na qual, também, o principal objetivo será a tradução de documentos vindos de todas as partes do mundo conhecido e centro de estudos envolvendo a ciência conhecida à época. Para suas dependência, a Casa da Sabedoria, convergiam sábios e eruditos de todo o mundo islamizado, principalmente oriundos da Pérsia. Se hoje estudamos a filosofia grega e outras fontes de conhecimento, devemos tudo a esses estudiosos que traduziram e escreveram livros sobre medicina, astronomia, química, literatura. Por exemplo, Platão, Euclides, Hipócrates e Pitágoras chegaram até nós através da Casa da Sabedoria. Dentre estes sábios estava Al-Khawarizmi (origem da palavra algarismo), tido como o pai da álgebra devido a seu livro Kitab al-Jabr e também Al-Masudi, o geógrafo.

“Ao ocupar regiões tão diferentes e culturalmente ricas como a Pérsia, a Síria e o Egito, o Árabe vencedor pouco podia oferecer no plano civilizacional. (…) Pouco numerosos, os Árabes foram étnica e culturalmente assimilados pelos povos vencidos. Mas foi na língua árabe que se exprimiu a maior parte dos cientistas, pensadores e poetas que souberam fundir e mesclar a heterogeneidade cultural do vasto Império Muçulmano” (In: ESPINOSA, Fernanda. Antologia de textos históricos medievais. p. 101/2. Livraria Sá da Costa Editora).

A importância da Casa do Saber foi tamanha que, segundo Jonathan Lyons, autor do livro The House of Wisdom: How the Arabs Transformed Western Civilization, o ocidente é uma invenção árabe, pois não foram poucos os europeus, entre eles reis e príncipes, que estudaram a língua árabe, ao ponto de alguns filósofos ocidentais traduzirem as obras de  Ibn Rushd e Ibn Sina (Avicena) que, em muito, ajudaram a construir o pensamento ocidental e dar início, juntamente com a cultura bizantina, ao Renascimento. A título de exemplo, Roger Bacon, o filósofo e cientista britânico, viajou pelo mundo árabe da Espanha vestindo e se comportando como um muçulmano para aprender e entender tudo aquilo que os árabes sabiam. Sobre Avicena há um artigo aqui no Recanto das citacaoPalavras, em que ele relata a sua relação com o livro A Metafísica de Aristóteles. Neste mesmo artigo, você encontrará uma pequena biografia de um outro filósofo árabe, Abu Nasr al-Fàràbi.

A grande questão que se levanta é: como os árabes, que tiveram cinco séculos de domínio da cultura e da ciência, hoje, estão estagnados em um pensamento retrógrado e diametralmente oposto ao progresso científico-tecnológico da atualidade? Um especialista, Ehsan Masood, arrisca uma resposta em seu livro Science and Islam: A History. Segundo sua proposta, a concentração do poder na mão de governantes que se assemelham a ditadores, uma característica da cultura árabe dos séculos passados, fazia com que os mesmos também concentrassem em si as diretrizes do conhecimento e da ciência. Eram, digamos, déspotas-mecenas. Portanto, a conclusão se coloca em termos de que a ciência na cultura muçulmana carecia de uma base social e institucional.

Se você pensa que Romeu e Julieta é uma história original, pode ir tirando o cavalinho da chuva. Sugiro que tome conhecimento da história de Layla e Majnun. Ah, quer dizer que já viu este nome feminino em algum lugar? É isso mesmo: Layla é a personagem que inspirou Eric Clapton a compor a música.

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2 comentários sobre “Os Árabes inventaram o Ocidente: a Casa da Sabedoria

  1. Artigo excelente! Gostaria de transcrevê-lo para constar em um livro didático, poderia me autorizar?

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  2. Sou professor de filosofia, fiquei muito feliz em ler este artigo sobre esta filósofa da antiguidade e praticamente esquecida até memso pelos filósofos, poucos a conhecem. NAs minhas aulas faço questão de resrvar algumas allgumas aulas para essa filósofa de uma beleza sem igual e inteligência como poucos a desenvolvem.Uma abbraço e que todos estejamos caminhando em direção ao “Uno” (expressão de Hipácia).

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