Nosso poeta maior

Alguns poderão dizer que foi o Vinícius, outros dirão que foi Bandeira. Também há quem buscará num passado mais distante, digamos, Gregório de Mattos, Castro Alves, Casimiro de Abreu, Olavo Bilac. Tem aquele do “Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá”. Como é mesmo o nome… Já sei! Gonçalves Dias. Lá do fundo, alguém com as roupas um tanto rotas e os cabelos desgrenhados gritará com voz rouca… Qorpo Santo! Os mais modernos poderão citar Cacaso e Carpinejar, por exemplo. Ah, não… É o Ferreira Gullar com toda certeza. alguém afirmará.

Não desmereçamos ninguém que se aventure no burilar das palavras. Pois, as mesmas são entidades vivas e, mais do que poetas, são domadores. Não é fácil domar uma palavra, o que dirá vê-las soltas em suas mentes e ir juntando-as, colocando-as na ordem em que podem significar isso ou aquilo, para este ou aquele. Somente os corações e mentes dos domadores de palavras e sua assistência saberão o valor de cada uma delas, soltas ou encadeadas. Pode, às vezes, surgir aquele “Oh!” de espanto, tal qual a patada da fera que passa a milímetros da face daquele que a doma. Mas, ao final, um longo trovejar de palmas explode em nós ao terminarmos a compreensão daquele ato em palavras, que tanto podem rimar ou concretizar.

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O nosso poeta maior foi (é) Drummond. Pareceu difícil? De forma alguma. A sua poesia atravessou as décadas e atravessará os séculos até o fim dos tempos. E o motivo  é bem simples: ele foi cronista e de suas crônicas fazia poesias contando a vida cotidiana, mundana, elitizada ou suburbana. Darei um exemplo que parece medíocre, mas que para mim, durante anos, foi algo parecido com a descoberta do graal ao tentar recuperar a memória contida num antigo livro escolar de literatura e língua portuguesa que pedirei perdão por não lembrar o título. Falo da crônica “O Recalcitrante”. Esta palavra tem como significado teimoso, obstinado, que reincide em alguma conduta negativa ou inconveniente.

Antes, um pequeno exemplo da grandiosidade da poesia de Drummond. Leia, ouça e sinta o poema Aparição Amorosa.

 

Contarei, agora, uma historinha antes de mostrar a crônica: O Rio de Janeiro, como até os ETs sabem, é uma cidade litorânea e algumas de suas praias são das mais famosas do mundo, se bem que algumas consigam reunir hordas de novos-ricos tão chatos quanto qualquer nobreza decadente, mas isto não vem ao caso. Pelo motivo hídrico apresentado, os coletivos, os ônibus urbanos, traziam na lateral do teto um aviso informando que “é proibido sentar nos bancos com roupas de banho molhadas”. Em resumo: não se pode sentar com a sunga, calção ou biquíni molhados, justamente para não causar desconforto ao próximo passageiro que, inadvertidamente, viesse a sentar-se quando o banco ficasse vago. E a placa completava-se com a frase: “O recalcitrante será retirado do veículo”. O sujeito seria posto para fora do transporte, pois neste momento, investia-se ao motorista e ao cobrador, poderes de capitão e imediatos de longo curso, que deveriam zelar pelo bem de suas passageiros ou cargas.

Durante anos, após a leitura – e a perda do livro em questão – procurei a crônica que tanto chamou minha atenção; não apenas pelo conteúdo muito humorado, mas também pela palavra que, até então, eu jamais vira. Tudo bem que eu deveria ter uns 11 anos quando a vi no livro, mas já havia visto nos ônibus. Ainda bem que inventarem essa tal de internet e hoje posso ler, guardar e mostrar para todas as pessoas essa descoberta, redescoberta pela curiosidade infinda. Pode parecer bobagem, e é, mas para mim não representava. Eu sempre gostei das palavras, seus significados e significantes.

E como diria nosso poeta maior… Vai (escreva aqui seu nome)! Ser gauche na vida.

RECALCITRANTE

O trocador olhou, viu, não aprovou. Daquele passageiro, escanchado placidamente no banco lateral, escorria um fio de água que ia compondo, no piso do ônibus, a microfigura de uma piscina.

– Ei, moço, quer fazer o favor de levantar?

O moço (pois ostentava barba e cabeleira amazônica, sinais indiscutíveis de mocidade), nem-te-ligo.

O trocador esfregou as mãos no rosto, em gesto de enfado e desânimo, diante de situação tantas vezes enfrentada, e murmurou:

– Estes caras são de morte.

Devia estar pensando: todo ano a mesma coisa. Chegando o verão, chegam os problemas. Bem disse o Dario, quando fazia gol no Atlético: problemática demais. Estava cansado de advertir passageiros que não aprendem viajar no coletivo. Não aprendem e não querem aprender. Tendo comprado passagem por 65 centavos, acham que compraram o ônibus e podem fazer dele casa-da-peste. Mas insistiu:

– Moço! O moço!

Nada. Dormia? Olhos abertos, pernas cabeludas, ocupando cada vez mais espaço, ouvia e não respondia. Era preciso tomar providência.

– O senhor aí, cavalheiro, quer cutucar o braço do distinto, pra ele me prestar atenção?

O cavalheiro, vê lá se ia se meter numa dessas. Ignorou, olímpico, a marcha do caso terrestre.

Embora sem surpresa, o cobrador coçou a cabeça. Sabia de experiência própria que passageiro nenhum quer entrar numa fria. Ficam de camarote, espiando o circo pegar fogo. Teve pois que sair de seu trono, pobre trono de trocador, fazendo a difícil ginástica de sempre.

Bateu no ombro do rapaz:

– Vamos levantar?

O outro mal olhou para ele, do longe de sua distância espiritual. Insistiu:

– Como é, não levanta?

– Estou bem aqui.

– Eu sei, mas é preciso levantar.

– Levantar pra quê?

– Pra que, não. Por quê. Seu calção está molhado de água do mar.

– Tem certeza que é água do mar?

– Tá na cara.

– Como tá na cara? Analisou?

Ferrou-se de paciência para responder:

– Olha, o senhor está de calção de banho, o senhor veio da praia, que água pode essa que está pingando se não for água do mar? Só se…

– Se o quê?

– Nada.

– Vamos, diz o que pensou.

– Não pensei nada. Digo que o senhor tem que levantar porque seu calção está ensopado e vai fazendo uma lagoa aí embaixo.

– E daí?

– Daí, que é proibido.

– Proibido suar?

– Claro que não.

– Pois eu estou suando, sabe? Não posso suar sentado, com esse calorão de janeiro? Tenho que suar de pé?

– Nunca vi suar tanto na minha vida. Desculpe, mas a portaria não permite.

– Que portaria?

– Aquela pregada ali, não está vendo? "O passageiro, ainda que com roupa sobre as vestes de banho molhadas, somente poderá viajar de pé."

– Portaria nenhuma diz que passageiro suado tem que viajar de pé. Papo findo, tá bom?

– O senhor está desrespeitando a portaria e eu tenho que convidar o senhor a descer do ônibus.

– Eu, descer porque estou suado? Sem essa.

– O ônibus vai parar e eu chamo a polícia.

– A polícia vai me prender porque estou suando?

– Vai botar o senhor pra fora porque é um… recalcitrante.

O passageiro pulou, transfigurado:

– O quê? Repita, se for capaz.

– Re… calcitrante.

– Te quebro a cara, ouviu? Não admito que ninguém me insulte!

– Eu? Não insultei.

– Insultou, sim. Me chamou de réu. Réu não sei o quê, calcitrante, sei lá o que é isso. Retira a expressão, ou lá vai bolacha.

– Mas é a portaria! A portaria é que diz que o recalcitrante…

– Não tenho nada com a portaria. Tenho é com você, seu cretino. Retira já a expressão, ou…

Retira, não retira, o ônibus chegou ao meu destino e eu paro infalivelmente no meu destino. Fiquei sem saber que conseqüências físicas e outras teve o emprego da palavra "recalcitrante".

(CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE – De Notícias & Não-Notícias Faz-se a Crônica – 2a. edição – Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1975)

O “Recalcitrante” foi encontrado em dois blogs, o do Cláudio Fagundes e no Singrando Horizontes.

Sobre Carlos Drummond de Andrade

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3 comentários sobre “Nosso poeta maior

  1. Jorge

    Vou concordar que Drummond seja O poeta da vez!!!
    Maravilhoso como sempre!!!
    Querido amigo Jorge, deixei uma surpresa em meu blog em reconhecimento do seu trabalho.
    Gostaria que visitasse este link: http://acayra.wordpress.com/selos/ e desse uma olhada na supresinha.

    Super abraço e fique bem!

    Camila

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  2. Concordo com seu amigo.
    Comentar sobre Drummond
    ou qualquer outro poeta é extremamente dificil,
    pois cada um tem sua escencia natural,
    uma beleza inigualavel..
    Parabens mais uma vez, arrazou,,,
    Obrigada por nos proporcionar
    essa belas leituras querido!
    Carinho de RO!

    Curtir

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