A vida de Brian e o portal do Monty Python

Historiadora inglesa utiliza o filme A Vida de Brian, do Monty Python, para nos mostrar como era  a vida durante o século I na Judéia e indica que, mesmo assim, devemos sempre olhar para o lado bom da vida. Esta é uma maneira engraçada de aprender história.

Você também pode se inscrever no canal do Monty Python no Youtube (Em inglês).

A gente sabe que há filmes que realmente marcam uma época e se tornam cults. Este é o caso de A Vida de Brian (Life of Brian), a história de um cara que nasceu em um estábulo bem próximo daquele em que nasceu Jesus e acabou sendo confundido com o messias, até que se torna um ativista político contra o domínio romano. Se você não está ligando o filme ao que falo, basta lembra da música Always look out the bright side of life, que é cantada no final do filme quanto todos estão pregados nas várias cruzes encravadas no Gólgota.

cartazvidadebrian

A história contada é hilariante. A princípio a confusão já começa por ele, Brian Cohen, ser meio romano e meio judeu. A sua mãe, que é interpretada por Terry Jones, que assim com os outros atores do grupo, interpretam diversos personagens na sucessão de esquetes que compõe o filme, só muito tempo depois de nascido, conta que o pai dele fora um centurião.

A historiadora e escritora Alex von Tuzelman, fez uma releitura bastante interessante do filme, no artigo Life of Brian: birth, blessings and blasphemy (Vida de Brian: nascimento, bênçãos e blasfêmias), em que ela explica como a comédia do Monty Python sobre um homem comum ser confundido com o messias nos faz olhar para o lado positivo da vida e nós dá um retrato bastante preciso do primeiro século Judéia, dividindo-a em 5 partes, a saber: Pessoas, Justiça, Educação, Imperialismo e Veredito. Para cada uma dessas partes, eu pesquisei no Youtube para ilustrar este artigo. Todas são legendadas, exceto uma, a que fala da justiça, que está em inglês. Basta clicar sobre a imagem e uma nova janela abrirá. Você lê e vê. Depois retorna para ler o restante.

Logo de cara, a autora do artigo questiona o evangelho de Mateus, no qual é contada a história dos 3 reis magos. Será que eles entregaram os presentes para o menino certo? Quem foram esses reis magos na verdade? Seguiram uma estrela, um sinal, uma intuição ou foi tudo invenção? Ninguém fala da relação do zoroastrismo com os reis magos, né?

reismagos1

Em seguida, tratando da justiça na Judéia, há uma cena hilariante em que um velhinho foi condenado a ser apedrejado só porque falou que o jantar era digno de Jeová. Como todos sabem era (é) proibido falar o nome Dele em vão, mesmo que você agradeça por um peixe muito bem preparado para o jantar. Nesse ponto, a autora levanta questões sobre as formas de punição por blasfêmia ou as formas pelas quais eram aplicadas a pena de morte. Nem gregos e muito menos romanos previam o apedrejamento como pena de morte. Isto só existia na região da Judéia e havia mais três outras penas capitais: decapitação por espada, estrangulamento e ingestão de chumbo derretido. Um detalhe curioso é que os apedrejadores, na verdade são apedrejadoras, o que constitui um fato sobre a condição da mulher na região. Ela sempre fora relegada a um segundo plano e, por isso, de forma bem-humorada, o diretor Terry Gillian, as coloca como quem vai executar a pena. É muito engraçado. A cena está em inglês, mas dá pra entender o significa da ironia.

justica Apedrejamento (em inglês)

Quanto à educação, já naquela época, havia sérios problemas educacionais, principalmente quando se tratava de uso correto do Latim. Engraçado como num país que fica abaixo da linha do Equador e se fala uma língua que é tida como a última flor do Lácio, logo, derivada do Latim, a situação é a mesma. O que se lê e se vê o pronome você ser escrito com cedilha e um proto-dialeto medonho denominado Internetês é uma festa (macabra). Pelo visto, nem o acordo ortográfico que entrará em vigor no dia 1º de janeiro de 2009 conseguirá acabar com essas atrocidades.

Mas, voltando ao tema educação, Brian, que agora pertence a um grupo subversivo, a Frente dos Povos da Judéia, que rachou como todo grupo revolucionário e tem como inimiga figadal a Frente dos Povos Judeus, foi levado a escrever grafites (uma invenção romana), com uma famosa frase que todos latino-americanos diziam em décadas passadas Yankees go home. Só que agora, quer dizer, no século I, deveria escrever Romani ite domum. Infelizmente ocorre um imprevisto. Surge um centurião que o obriga a escrever a frase corretamente em todos os muros até o amanhecer; pois ele, Brian, foi pego escrevendo errado.

auladelatim

No campo do domínio imperialista, a Frente Popular da Judéia começa uma daquelas reuniões de ordem para determinar como e quando expulsarão os romanos. De repente começam a questionar se vale a pena ou não, perguntando o que o domínio romano fez por eles. Timidamente, um dos participantes fala “aqueduto”. Os outros começam a enumerar outras contribuições romanas como “saneamento”, “estradas”, “irrigação”, “escolas”, “vinhos”, “banhos públicos”, “ordem pública” e “paz”. Mesmo assim resolvem que vão expulsar os romanos. Só não sabem como faze-lo e Brian é condenado à morte por crucificação.

imperialismo

Quando os romanos dominavam uma região eles também levavam seu modus vivendi e cultura junto. Acabavam por impor sua cultura, língua, leis e até mesmo sua religião. Ao mesmo tempo, também absorviam partes da cultura local como, por exemplo, do Egito, de onde levaram o culto a Isis. A questão da paz é fundamental para entender o período, devido o imperador Augusto (Otávio César), sobrinho e sucessor de Júlio César, em 29 a.C., ter determinado a Pax Romana, que durou até 180, com imperador Marco Aurélio, aquele mesmo interpretado por Richard Harris, no filme O Gladiador.

E para finalizar, o veredito é que mesmo que hoje não se tenha ódio do Império Romano, como naquela época, nada impede que deixemos de querer olhar para o lado positivo da vida.

ps. Eles ainda fazem uma brincadeira muito legal. Brian foi abduzido por alienígenas. Afinal, eram os deuses astronautas?

Sempre veja o lado bom da vida.

ladopositivo

 

Outros esquetes bacanas com legendas em Português

* Este artigo foi escrito a partir da livre tradução feita por mim, do artigo citado, que saiu no jornal inglês The Guardian.

Anúncios

6 comentários sobre “A vida de Brian e o portal do Monty Python

  1. Olá Jorge,
    Estou passando pra agradecer sua visita aos meus arquivos – siceramente, o melhor que tenho pra escrever já foi escrito!! KKkkkkk!!! Nunca assisti Monty Phyton, pór isso fui obrigada a buscar no google por informações que me ajudassem a escrever um comentário sutilmente inteligente sobre o assunto e estou impressionada com os resultados!!! Tiveram mesmo um impacto na comédia comparável ao dos Beatles na música?!!! Como é q eu não conheço esse pessoal??? Estou indo agora mesmo para o youtube pra assisti-los. Beijoca com carinha de minhoca e sucesso sempre!

    Curtir

  2. Kenia,

    Eu fico agradecido por sua visita e por suas palavras. Você tocou num ponto importante, o conhecimento. Nem sempre sabemos tudo que imaginamos ou gostaríamos, por isso, a cada visita que faço a um blog, como o seu, por exemplo, eu aprendo um pouco mais. Este é o grande barato da internet a meu ver, a difusão de conhecimento e experiências de vida por parte de todos nós. Tenho certeza que você gostará do Monty Python.

    bjs e obrigado. 🙂

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s