Blogando no Twitter durante acidente de avião

No sábado, 20 de dezembro, um Boeing 737 da empresa aérea norte-americana Continental derrapa por causa da neve e sai da pista do aeroporto de Denver e, em seguida, começa a pegar fogo. Então, o engenheiro de software Mike Wilson, em vez de se preocupar em sair dali o mais rápido possível, como faziam as outras 154 pessoas, contando passageiros e tripulação, preferiu informar aos seus seguidores do Twitter o que estava acontecendo. Durante várias horas, primeiramente direto do local do acidente e depois, em casa, ele enviou mensagens (twittou), o que só serviu para que as ações da empresa aérea despencassem mais ainda e, também, afagar o próprio ego antes de pensar em se salvar, pois reclamou até da falta de uma bebida para esquentar os ossos, devido o frio, que a companhia deveria ter servido aos passageiros. Abaixo está uma seleção das mensagens feita pelo jornal inglês The Guardian.

 

14 de Dezembro, 4:06 Legal! Feitas as compras de Natal. 100% on-line, exceto dois presentinhos. 

20 de Dezembro, 5:25 Puta merda, eu estava em um acidente de avião! 

5:58 Este foi o meu 2º acidente. Talvez eu deva começar tomar o ônibus. 

8:22 Se você tem juízo, tire sua bunda de um monte de destroços flamejantes e o chato é que você não pode sequer tomar uma birita. (vaia!). 

11:22 [de computador, em casa] Desculpem pelo silêncio. A bateria acabou. 

11:57 Extremamente esgotado. Vou para a cama. Boa-noite! 

21 de Dezembro, 8h29 Aguardo novo vôo. Estou todo dolorido. 

5:25 Desta vez sentei o mais perto possível da saída de emergência.

7:57 Ufa! Até que enfim o embarque!

 

©Preston Gannaway/Rocky Mountain News/AP
Boeing da Continetal acidentado no aeroporto de Denver. 20/12/2008. ©Preston Gannaway/Rocky Mountain News/AP

Até que ponto uma pessoa pode deixar de pensar em se salvar diante do perigo iminente e prefere informar a respeito de um acidente de avião?  Detalhe: o usuário do Twitter, a rede de comunicação instantânea que muitos consideram um microblog, estava no avião acidentado.

Fico a pensar em duas coisas distintas:

  • A necessidade de informar, de se comunicar ou mandar uma mensagem de socorro.
  • A vontade incontida de aparecer.

Hoje, como andam dizendo por aí, o jornalista-cidadão vem se tornando parte importante da ciência da comunicação. Ainda não se sabe ao certo como dimensionar, perante os meios acadêmicos pensantes, qual é o real papel deste repórter que dispõe de meios de comunicação instantâneos como celular, notebook e redes wireless para enviar suas notícias.

Lembrei de dois fatos marcantes, dentre os inúmeros que ocorreram, em que a noticia foi dada no exato momento em que aconteciam, ambas significando tragédias. A primeira foi o incêndio, um balão contendo gás, genericamente conhecido como Zepelin, mas cujo real nome era Hindenburg, em 1937, no qual o repórter transmitiu pelo rádio, aos prantos, o horror que seus olhos presenciavam.

 O outro incidente foi a morte de um cinegrafista sueco que filmava as ruas de Santiago do Chile, em 1973, cobrindo o golpe de estado que derrubou Allende. Eu era guri, tinha 10 anos, e lembro vivamente da cena que correu mundo. Um caminhão carregando soldados foi enquadrado pela câmera que acompanha o trajeto. De repente, um soldado aponta sua arma em direção ao cinegrafista e, em seguida, a lente vai captando imagens sem foco ou ponto de enquadramento até o chão e ali permanece ainda registrando, agora, ao nível do asfalto o que passava à sua frente. Atrás, jazia um cinegrafista que, mesmo sabendo do perigo que corria, não imaginou que um desmiolado soldado, talvez imbuído de um ódio profundo por tudo aquilo que ele imaginava representar de mal e que lhe foi incutido na cabeça por seus superiores, apontaria uma arma em sua direção e apertaria o gatilho.

Como se viu, eram dois profissionais de imprensa exercendo seu ofício, que é informar. Um foi pego de surpresa pela emoção e mostrou o lado humano, a emoção, lutando contra a razão. Foi aos prantos ao presenciar a tragédia que vitimou dezenas de pessoas, mas não deixou de relatar o que presenciava. O outro manteve o foco até que a bala o atingisse, sabendo que isto poderia acontecer. Foi uma decisão racional e profissional que infelizmente o matou.

Você salvaria sua própria vida e a de quem mais pudesse, ou pensaria em se tornar celebridade, pelo menos para seus leitores de blog/twitter, e, possivelmente morrer por causa disso?

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6 comentários sobre “Blogando no Twitter durante acidente de avião

  1. Se fosse pra salvar alguém, a emoção provavelmente falaria mais alto. Mas em outro caso, eu não me arriscaria não. Sou adepta do “covarde vivo”, e não do “herói morto”, principalmente se o objetivo do risco for somente aparecer…

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  2. Não existe outra palavra para descrever a atitude de Mike Wilson a não ser “insanidade”. Acredito que há limite para tudo nessa vida! Pensar em salvar a própria vida e, consequentemente, a vida de outros seria o mais correto no caso. Depois que dizem que blogar vicia, não é por acaso.

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  3. Oi Jorge,

    Eu diria que a vontade de aparecer é muita! E também nos deve fazer pensar que talvez este indivíduo não tenha amor à vida.
    Isto está uma loucura!

    Bem, vim para lhe desejar Festas Felizes e um Ano Novo fantástico :D!

    Um abraço!

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  4. Jorge:

    Quantos minutos de glória será que isso rendeu? Coisa de maluco, mesmo, e de maluco eu entendo..risos
    Moço.. um super Natal para você e sua família e um 2009 do tamanho da sua alegria, capacidade e ética. Muita luz para você. Te gosto muito.
    Beijos

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