Um livro dos mais notáveis e fascinantes do Renascimento

Acaba de ser lançada uma nova edição de um dos mais notáveis e fascinantes livros do Renascimento, e por qual motivo não dizer, de todos os tempos, que é o Civitates Orbis Terrarum (As Cidades do Mundo), a edição iniciada por Georg Braun, um clérigo católico e pelo gravador[1] holandês Franz Hogenberg, em 1572, sendo que a obra só seria terminada com a edição do sexto volume, em 1617.

Esse livro traz as plantas e os mapas de todas as cidades conhecidas no mundo até então: Europa, África, Ásia e América Central e do Sul. Se constitui, portanto, em um colírio e fonte de pesquisas para artistas, historiadores, urbanistas e arquitetos até hoje. São 564 cidades retratadas ao todo, o que se mostra ser um trabalho de fôlego e determinação.

A história desse livro é interessante, sendo uma quase saga até que um livro inteiro, dos que foram editados há mais de quinhentos anos, fosse encontrado. A maioria deles foi desmembrada e suas gravuras foram vendidas separadamente no mercado; afinal, as gravuras são verdadeiras obras de arte, já que a visão das cidades é feita a partir de um plano superior, isto é, são vistas do alto, a partir de uma perspectiva conhecida como olho de pássaro, conforme se percebe a cidade de Zurique abaixo.

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Zurique. Século XVI
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As gravuras recebiam textos em latim escritos por Georg Braun (Brunus, conforme seu nome latinizado). As pranchas com as gravuras chegavam de todas as partes. Muitas delas foram trazidas, antes de a idéia tomar corpo, pelo filho de Hogenberg, também chamado Georg, que era comerciante de jóias e viajava para diversos países como Itália, França, Espanha e Inglaterra. 

Milagrosamente, um exemplar completo – os seis volumes – foi encontrado num museu de Frankfurt. As principais características das cidades retratadas, principalmente as européias são as fortificações ao redor da área construída e também a suntuosidade e proeminência dos prédios relativos a religião. Basicamente, as igrejas estão em destaque e cada cidade teve uma espécie de santo padroeiro a quem as cidades foram dedicadas. A título de exemplo, Estácio de Sá, ao fundar a cidade do Rio de Janeiro, a denominou “Muy Leal e Heróica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro”.

Algumas das cidades retratadas têm visões mantendo um olhar um tanto exótico por parte dos europeus, quando se tratam de cidades coloniais que forneciam mão-de-obra escrava e riquezas como Mombasa (Quênia), Elmina (Gana), Calicut (Índia), Cuzco (Peru) e Cidade do México (México). Aparecem leões, elefantes, europeus carregados em liteiras por nativos; ao contrário das cidades européias como Hamburgo, a qual tem retratados seus aspectos econômicos e comerciais como, por exemplo, o efervescente porto e os diversos barcos e navios responsáveis pelo transporte das mercadorias. Porém, nunca deixaram, os gravuristas, de retratar fielmente a arquitetura e o urbanismo destas cidades.

cuzco2Cuzco, Peru. Século XVI 

Uma parte interessante do livro são os textos de de Braun, um cristão fervoroso que advertia os leitores para que não dessem muita atenção às pirâmides que, segundo suas palavras, eram “templos construídos para idolatria de bestas coroadas (faraós)”. Também são apresentadas cidades invadidas pelos turcos otomanos que transformaram muitas igrejas em mesquitas e, em vez da cruz ao alto, aparecia o crescente, o símbolo do islamismo. Ao mesmo tempo, são mostradas cidades como Budapeste (Hungria) em cenas de batalhas nas quais esses mesmo turcos empalam e barbarizam suas vítimas cristãs.

Das principais cidades-estado da Antiguidade, Roma recebe duas pranchas. Atenas, porém, por estar em mãos dos ditos infiéis muçulmanos do Império Otomano à época, não é retratada por temores políticos de Braun, que não queria ser atormentado por espiões e agentes ávidos em descobrir os planos e mapas da cidade.

Lisboa, em 1572. Clique sobre a imagem.  Lisboa (Lisbona/Olisipo), em 1572
Clique sobre a imagem para ver várias pranchas de outras cidades.

Não se trata de um guia de viagem, mas sim, de um trabalho voltado para aqueles que pretendiam conhecer o mundo sem correr os perigos de viajar pelos mares e caminhos da Idade Moderna, sem a “segurança” de hoje. É um livro para se deliciar observando cada cidade nos mínimos detalhes, até mesmo usando uma lupa e passar horas fazendo isso. Enfim, uma obra de arte em seis volumes.

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[1] Artista que faz gravuras por meio de matriz em madeira, metal, pedra etc.
(Aulete | Dicionário Digital)

* Este artigo foi escrito a partir da livre tradução feita por mim, do artigo/resenha Cities of the World: Complete Edition of the Colour Plates of 1572-1617 edited by Stephan Fussel, de John Carey para o jornal Times Online, de 21/12/2008.

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