Salvem os escritores!

Um escritor foi abordado na rua, sem que a mulher que o abordara soubesse em que ele trabalhava. Segue-se o diálogo:

Mulher: Em que você trabalha, então?
Homem: Eu? Ah, eu escrevo livros.
Mulher: Que interessante! Você já vendeu alguma coisa recentemente?
Homem: Sim, vendi: O meu sofá, meu carro e minha TV de tela plana.

Deprimente, não? Mas parece que pouquíssimos escritores e escritoras conseguem realmente sobreviver fazendo aquilo que mais gostam, ou supostamente sabem fazer, que é escrever livros. No Brasil, conta-se nos dedos de uma das mãos quantos conseguem esse tipo de proeza.

Bocaccio foi um escritor que enfrentou uma das piores crises da humanidade, a peste negra.
Bocaccio foi um escritor que enfrentou uma das piores crises da humanidade: a peste negra. E nos brindou com o Decameron.

Mas, e nos Estados Unidos, o maior mercado consumidor de livros do mundo? É essa a história que Paul Greenberg, que atualmente escreve um livro sobre peixes, relata no artigo intitulado Bail Out the Writers! (algo como Sumiram os escritores!), no New York Book Review.

Ele começa o artigo falando sobre as agruras dos tempos atuais e acaba fazendo um paralelo com o período do New Deal, de Franklin Roosevelt que, ao contrário do que muitos pensam, não fez a desta sua política de reerguimento da economia norte-americana, apenas um fato industrial. Roosevelt criou um programa literário chamado Federal Writer´s Project (Projeto Federal Para Escritores), em que aproximadamente 6 mil escritores desempregados foram incumbidos de escrever guias, histórias orais, cultura e etnografia cujo objetivo era “descrever a América para os americanos”. Este projeto manteve escritores norte-americanos vivos e recebendo uma renda mensal durante anos, na década de 1930. Este programa foi responsável, também, pelo surgimento de milhares de novos escritores e, atualmente, cerca de 185 mil pessoas dizem sobreviver do ato de escrever – livros, peças de teatro, poesia, palestras e outras obras literárias -, segundo os dados da última pesquisa feita pelo National Endowment for the Arts.

A situação é tão interessante que muitos estão mais interessados em ser escritores do que propriamente na literatura em si. A grita geral tem até um nome, a “cegueira da neve”. Os olhos ficam ofuscados pelo brilho emitido pelos flocos de neve acumulados e o que tem de autor que “se vende” na internet em sites de e-books é uma festa. Isto parece ter criado um novo mercado, que nem sempre conjuga qualidade à quantidade do que é escrito e está à venda.

Greenberg chegou mesmo a fazer um cálculo envolvendo quantidade de autores, livros editados por ano e o quanto o governo gastaria para manter um programa aos moldes do que foi criado na época da Grande Depressão. Vejamos:

Todos os anos, cerca de 275 mil títulos novos são lançados nos Estados Unidos. Caso metade deles sejam eliminada e supondo que, em média, um livro leve dois anos para ser escrito, aos escritores seriam oferecidos dois anos de salário somando um rendimento médio anual de 38 mil dólares. Somando tudo isso, se chegaria a 10,5 bilhões de dólares.

Dependendo do ponto de vista, pode ser muito ou pouco dinheiro. Eu, particularmente, considero que seja uma quantia pra lá de razoável para manter cerca de 137 mil escritores ocupados por dois anos.

Parece uma boa idéia, mas para isso dar certo também é necessário que os leitores estejam aptos a ler, o que parece não ser o caso de países como o Brasil, imaginando que desejassem implantar um programa nesses moldes. O brasileiro pouco lê. Entretanto, se este programa se desdobrar em doações para escolas ou se os livros forem postos à venda com preços baixos, quem sabe a coisa dê certo.

Leia os artigos:

Este artigo foi criado a partir da livre tradução feita por mim, da matéria Bail Out the Writers!, de Paul Greenberg para o New York Times Books Review, em 9 de dezembro de 2008.

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2 comentários sobre “Salvem os escritores!

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