O Mal e a Mulher

Por mais estranho que pareça há uma corrente científica (?) que se propõe a estudar o mal a partir da perspectiva da mulher, isto é, a mulher seria a encarnação do mal. Em linhas gerais é misoginia, o que já é um tanto incompreensível, visto se tratar, de acordo com o conceito psiquiátrico da coisa, a aversão mórbida do homem ao contato sexual com as mulheres. Entretanto, devemos nos lembrar que alguns gênios da humanidade como Da Vinci e Michelangelo foram, para não dizer outra coisa, misóginos.

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Bruxas firmando aliança com o Diabo © Stapleton Collection/Corbis. Xilogravura
Bruxas firmando aliança com o Diabo © Stapleton Collection/Corbis. Xilogravura

Em maio de 2009, ocorrerá em Budapeste (Hungria) a primeira conferência sobre o tema cujo o título é: O mal, as mulheres e o feminino (Evil, Women and the Feminine). Os temas abordados, acredite, são os mais bizarros possíveis e que, segundo os estudiosos, acompanham a humanidade desde tempos imemoriais como, por exemplo, maternidade monstruosa, menstruação e castração, bruxas, vampiras, sereias e cadelas – essas não sei se são estranhas; pois, hoje, pelo menos no Brasil é sinônimo de mulher esperta – e, para finalizar, a vagina dentata (hein?). Que o homem sempre temeu e nunca compreendeu a mulher é fato e todos nós já sabemos, agora, esse negócio de que há perseguidas com arcada dentária e que mordem é pra lá de bizarro. Isso está me parecendo desculpa extrema para aqueles que não são chegados ao suposto sexo frágil. Aqui você encontra uma excelente análise desse mito.

Imagino que essa conferência seja um prato cheio e transbordante para os psicanalistas estudarem coisas que o Doidão de Viena, digo, Freud, constatou como, a histeria, a mãe castradora, o complexo de Édipo – e por que não citar também o complexo de Electra?–, entre outras maluquices da caixinha de surpresas que é a mente humana.

Brincadeiras à parte, permanece no inconsciente coletivo masculino que a mulher é um ser difícil de compreender, pois ela sangra a cada 28 dias e não morre, de dentro dela surge uma nova vida e que, em resumo, todos nós, querendo ou não, devemos às mulheres o fato de estarmos aqui e agora. Todas as sociedades relacionaram as mulheres com os ciclos de fertilidade e vida, até mesmo o calendário lunar tem relação com o feminino de cada sociedade e, das profundezas de nossas mentes, criamos mitos como o da mulher que perturba o homem em todos os sentidos. Exemplos na antiguidade não faltam. Talvez os mais conhecidos sejam os mitos de Lilith e das sereias que, em linhas gerais, impediriam que o homem seguisse seu caminho de retidão e trabalho. A coisa é tão profunda que até hoje a representação iconográfica vai da extrema feiúra à beleza sem par. Como no exemplo abaixo em que Lilith é representada como uma harpia, que também é uma das representações das sereias que, tanto podiam ser metade peixe e metade mulher ou metade ave e metade mulher; e como uma mulher sensual.

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Lilith
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Lilith

A iconografia do inconsciente é reveladora. A mulher sensual e lasciva é o que todo homem deseja, mas ela pode ser um monstro que o perturba e, em alguns casos, o devora. Vide o exemplo das sereias na Odisséia, que por seu canto convidativo, fazia os marinheiros perderem o rumo e se chocarem contra os arrecifes. Por esse motivo Ulisses ordenou que todos os argonautas colocassem cera de abelha nos ouvidos e que todos se amarrassem ao mastro e demais partes do navio, para não cederem às tentações. Eles não conheceram Oscar Wilde (misógino, que foi preso por declarar que há um amor que não ousa dizer o nome), que, sobre as tentações disse o seguinte: “A melhor maneira de acabar com um tentação é cedendo a ela”. Bom, o lance dele era outro. Tanto cedeu que se ajoelhava à frente de um lorde inglês efeminado. Vai entender?

Gregos e Romanos tinham visões diferentes das mulheres, digamos. Para os primeiros, elas seriam apenas para procriar e gerar herdeiros; não que em Roma fosse muito diferente, mas, para os habitantes do Lácio, ter uma casta de sacerdotisas virgens, as vestais, era uma forma de segurança para manter o padrão moral da sociedade. Pois é…

Na Idade Média, as bruxas foram a personificação do mal em forma de mulher. Aqueles monges carolas e… bem, vocês podem imaginar, incitavam o povo a delatar e perseguir mulheres que, de uma forma ou de outra, não se encaixavam naquilo que eles, a partir de uma visão reacionária religiosa impunham como padrão de comportamento; isto para não falar que perseguiam todos que tivessem uma relação mais próxima com a Natureza e seus mistérios.

E, hoje, apesar de estarmos no século XXI, um grupo de intelectuais fará uma conferência para estudar o mal e o relacionando com a mulher? Que coisa mais retrógrada!

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3 comentários sobre “O Mal e a Mulher

  1. Caramba Jorge,

    E lá vem mais mudanças hein?
    Quando a gente começa a se acostumar com as regras “atuais” tudo muda…
    Seria algum acordo capitalista maquiavélico para publicação de novas Gramáticas intermináveis e livros de Língua Portuguesa para estudantes do primário?
    Sem falar nos incontáveis cursinhos pré-vestibular e pré-concurso que surgem aos montes todos os dias…
    Será que, no fundo, quem ganha com isso?
    Deixo a pergunta aí.

    Abraços pra você!!

    Neo

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  2. E põe retrógrado nisso!!!

    Mas acrdito que esta idéia ainda esteja contextualizada desde a antiguidade numa maioria de mentes masculinas.
    Principamente num mundo tão globalizado e cheio de informações acredito que este “preconceito” de mulheres ainda exista.
    Fato é que há dentro de empresas homens que não gostam de mulheres trabalhando com eles.

    Sei lá, acho isso um absurdo.

    Mas amo ser mulher.

    Abraço,

    Camila – Acayrã.

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