Quarentinha, o Buster Keaton do Botafogo e dos gramados

Se Garrincha foi a alegria do povo, Quarentinha foi o artilheiro que não sorria.

A vida nos prega peças constantemente. Não que eu seja um homem que não tenha e nem demonstre emoções. Sim, eu sou e as demonstro. A maioria de nós é assim. Estranho mesmo é que isso aconteça lendo um livro sobre um antigo artilheiro do Botafogo, o Quarentinha. Quer saber como isso aconteceu?

Faz algumas semanas, um amigo que é editor, mostrou os originais do livro O Artilheiro que não sorriaQuarentinha, o maior goleador da História do Botafogo, que conta a história do paraense Waldir Lebrego, mais conhecido por desportistas e amantes do futebol em todo o mundo como Quarentinha. Ao retirar as folhas impressas de sua mochila, esse meu amigo me mostrou o braço. Estava arrepiado. Não é preciso dizer que ele também é botafoguense assim como este que vos escreve.

Eu não o vi jogar, mas pude perceber pelas coisas que este amigo foi me contando sobre como pensou o livro e as pesquisas feitas pelo Parte da capa do livro ₢ livrosdefutebol.comautor, o Rafael Casé, também botafoguense, como não poderia deixar de ser, e que conheci há poucos dias.

E hoje, recebo o livro que comecei a folhear. Ao ler as primeiras páginas, justamente aquelas que contam sobre um AVC, que levou o maior artilheiro do Botafogo em todos os tempos ao hospital e daí para a morte, meus olhos começam a marejar. O relato escrito pelo Rafael a partir das palavras de um dos médicos que atenderam o Quarentinha é emocionante mesmo. A princípio ele, o médico, não reconheceu aquele senhor de 60 e poucos anos que estava com o lado esquerdo do corpo paralisado e mal podia pronunciar palavras, mas que mantinha a memória viva e ativa. Somente, ao chegar em casa e comentar com os familiares foi que o médico ficou sabendo de quem se tratava e confirmou suas suspeitas que aquele senhor fora um jogador de futebol. Ele só não conseguia ligar uma coisa à outra. O detalhe inusitado é que o médico, jovem à época, início dos anos 90, já vira aquele rosto em algum lugar mas não lembrava onde e como.

Daí em diante, passou a dar assistência diária ao artilheiro que não sorria, pois, Quarentinha, não comemorava os próprios gols. Hoje, por conta dessa pesquisa feita com método e tarimba, descobriram que ele havia feito mais cinco gols além do que oficialmente fora determinado. Portanto, Quarentinha, em sua passagem pelo Botafogo; não era um Botafogo qualquer, visto se tratar do time que tinha Nilton Santos, Didi, Garrincha, Amarildo e Zagallo, foi o maior artilheiro da história do clube da estrela solitária, marcando 313 gols em cerca de 450 partidas; além de, pela Seleção Brasileira, marcar quase um gol por jogo que participou.

Mas por qual motivo meus olhos ficaram marejados ao ler o relato do médico que atendeu Quarentinha? Muito simples: meu pai me contava as histórias do Botafogo, dos jogadores, superstições, alegrias e até mesmo as derrotas. E, hoje, dia de seu aniversário, lá do céu, eu tenho certeza que ele ainda continua botafoguense e sabedor que a tradição foi mantida: Eu sou botafoguense e meu filho, seu neto, também torce pelo Glorioso.

É impossível ser botafoguense sem saber as histórias desse clube e aproveito para citar uma frase dita pelo André, meu filho: “Pai, eu sou botafogo não apenas por sua causa e do meu avô, mas sou botafogo, também, por causa da história do Botafogo”.

E aí fiquei pensando comigo mesmo: Qual clube do mundo tem três de seus jogadores na seleção de maiores jogadores da Fifa? A saber: Garrincha, Didi e Nilton Santos. Qual clube teve em seu elenco jogadores que fizeram história como os citados, mas que marcaram profundamente o futebol como Heleno de Freitas? Não deixem de ler a sua biografia. Foi o primeiro jogador a fazer a ponte entre os campos de futebol e o jet-set. Qual o clube de futebol até hoje foi o que mais jogadores cedeu à Seleção Brasileira? Que clube do Brasil, afora o Santos, teve metade de seu elenco trazendo Copas do Mundo para o Brasil?

Lembrei-me, agora, de uma crônica do Sergio Augusto, jornalista e colunista do Estado de São Paulo, explicando os motivos pelos quais é botafoguense e também colocando como torcedores da estrela solitária, personalidades como Orson Welles, por exemplo, analisando sua vida e talento.

Não, eu não estou vivendo do passado. Estou, apenas, informando que dentre o elenco estelar do Botafogo, um homem que fazia gols e não os comemorava, foi o seu maior artilheiro. Esse seu jeito remete a Buster Keaton, o comediante que não sorria. Fazia platéias darem gargalhadas mas não sorria. Quarentinha deu diversas alegrias aos botafoguenses e aos brasileiros, e também não sorria.

Leia os artigos

* A imagem que ilustra este artigo é parte da capa do livro O Artilheiro que não sorriaQuarentinha, o maior goleador da História do Botafogo, da editora Livros de Futebol.

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10 comentários sobre “Quarentinha, o Buster Keaton do Botafogo e dos gramados

  1. vc é uma graça e o seu blog maravilhoso. não se preocupe, sou a mãe da distração, por isso fico em cima daqueles que, percebo, são como eu. bj. rê.

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  2. tenho uma divisão da minha sidebar dedicada a distribuir jabá. ela é divida em jabá com música e jabá com menos música. estava meio indecisa onde colocar vc. mas, depois do mcferrin e do bpreston, já decide … bj.

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  3. Jorge,
    o autor, enternecido, agradece suas palavras.
    Um abraço em preto e branco.
    Rafael Casé

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  4. Bacana, RÊ.

    Eu não faço do meu blog um blog monocórdico, isto é, tratando apenas de um assunto. Assim como está no about, eu escrevo sobre qualquer coisa que achar interessante para compartilhar com os amigos.

    Fico feliz por você ter selecionado o Recanto das Palavras para constar do seu jabá.
    bjs

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