Obama é pop

Vejo e percorro jornais físicos e virtuais e, em todos, do mundo inteiro,  há um clima de enorme euforia pela vitória de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos. Ainda de forma invariável, a cor de sua pele é mencionada na primeira linha de cada uma das matérias, quando não, é componente da manchete.

obampainel

Sim, o fato é extraordinário. Até pouco mais de 40 anos, um negro não poderia beber água no mesmo bebedouro em que um branco beberia o precioso líquido no mais poderoso país do planeta. Lembrei-me, então, de algumas histórias sobre a segregação racial nesse mesmo país. A música que poderia permear esse artigo é “Strange fruit”, na voz Bilie Holliday, que contava que essas estranhas frutas eram os corpos dos negros enforcados em árvores. Também lembrei da cantora de blues, Bessie Smith, que, após um acidente de trânsito numa estrada, morreu esvaindo em sangue por que o hospital mais próximo só atendia brancos. Lembrei também de Martin Luther King que dizia ter um sonho e, pelo que podemos constatar, o sonho se realizou.

Eu confesso que nunca vi tamanha comemoração por uma eleição presidencial nos EUA. Até mesmo quando o Al Gore foi garfado, a comoção não se compara em intensidade ao que estamos vendo desde ontem. Agora mesmo, ao passear pela edição online da L´Express, vejo um slide show mostrando cenas do mundo inteiro, em que as pessoas vão às ruas para cantar a vitória: Berlim, Viena, Jakarta, Tóquio, Londres, Paris e sei lá mais aonde, Obama é apresentado como um ícone pop. Um jornal do Rio de Janeiro trouxe um caderno especial hoje em que falava de catarse coletiva. Sim, houve, digamos um resgate desde que o primeiro negro escravizado pisou nos EUA. Um famoso jornalista o classificou como o “César negro”. Outro, um cronista, antigo cineasta, que fala em rádios e televisões brasileiras, até cantou parte da música Brasil pandeiro, do Assis Valente, para enaltecer a vitória de Barack Obama. A estrofe cantada foi: “Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor…”

Há promessa de mudança no ar. Mas, cara pálida, mudança no ar para quem? Nós, latino-cucarachas, continuaremos sendo latino-cucarachas para eles, mesmo que um negro tenha sido eleito presidente. Se algum tiranete, aonde quer que seja, botar as manguinhas de fora, a 7ª Cavalaria estará lá com Rin-tin-tin e o escambau usando a boa e velha, para eles, política do Big Stick.

E, em referência ao personagem da história universal, Júlio César; repito, aqui, uma frase famosa dita por ele e que pode muito bem servir para apresentar este momento e os próximos 4 ou 8 anos do mundo:

Alea jacta est / A sorte está lançada

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4 comentários sobre “Obama é pop

  1. Elegeu-se Martin Luther King. Lá, o voto não é obrigatório, mas nunca se viu tantos negros, e descendentes indo às urnas. Parecia que todos haviam saído às ruas para votar. Havia uma grande expectativa, um grande desejo de que o tiro saísse pela culatra, ainda que quarenta anos depois. Além dos negros, os parentes de soldados americanos espalhados pelo mundo, entre guerras e guerrilhas que só agravam a crise na qual o país está mergulhado. E, num terceiro grupo, o medo de aumentar o rombo e os últimos trocados saírem pelo buraco.

    Realmente, Jorge, um movimento catártico jamais visto. E ainda que façamos força para manter a razão na ativa, toca-nos, a todos, emocionalmente, poeticamente. Vamos deixar o tempo exercer seu principal papel…

    Bjs e inté!

    Muito bem lembrada “Strange fruit”. Eu amo a atormentada voz da Billie, que sempre nos leva muito além de qualquer melodia ou letra que interprete…

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  2. Jorge:

    Não podemos ser ingenuos a ponto de imaginar que ascenderemos da posição de latino-cucarachas. No entanto, penso que a mensagem dada foi clara: a figura prepotente e arrogante do presidente que se “esvai” não é mais tolerada pelos habitantes do planeta. Acho que dessa eleição fica uma lição para todos nós: mesmo dentro de nossa própria casa, se esticarmos demais a corda da intransigência o rompimento será inevitável.
    A escolha da “nova cara” do país mais poderoso do mundo nos leva a pensar que, talvez, ser latino-cucaracha deixe de ser algo tão ruim e possa passar a ser uma condição a se exibir com orgulho. Afinal, passamos a ter em comum com o futuro presidente nosso “belissimo bronzeado”.
    Beijos, moço

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