Coveiro inglês tem medo dos vivos

Eu tenho medo é dos que estão lá fora, disse o coveiro inglês Dave Miller numa entrevista que concedeu no dia 31 de outubro. Desculpem, mas não adianta que não vou falar sobre essa festa pagã de contorno anglo-saxão, que desceu o Equador por conta da influência cultural do cinema norte-americano e alguns tupiniquins cismam em macaquear. Por falar nisso, aqui no Rio de Janeiro, vi muitos panfletos e cartazes dizendo que essa festa é demoníaca. Digamos que é um pouco demais também, pois radicalismos não são lá muito bons de seguir. Mesmo assim, é uma coisa que percebemos que chegou e, temo, veio para ficar. Afinal, boboca tem em todo lado mesmo.

O coveiro, Viktor Vasnetsov (1871).

Pois bem, voltando ao nosso entrevistado, ele vive numa casa construída na década de 1930, cujo terreno total, aí compreendendo o seu local de trabalho, tem 12,5 acres. Suficientemente grande o seu jardim, digamos. O lugar é tranqüilo como um túmulo. Então ele diz que o Haloween é o único dia em que deixa os portões do cemitério abertos à noite. Sarcasticamente fica esperando que alguém entre lá e vá até sua casa para pedir doces, caso contrário será ameaçado por terríveis travessuras. Ele também não tem parentesco com um diretor de cinema trash brasileiro, chamado Zé do Caixão. Se bem que o título cairia muito bem. Parece que o Dave é um cara tranqüilo e não têm pendores ligados a Sétima Arte.

Certa vez, um adolescente destemido foi até lá e disse que odiava o lugar em que ele, coveiro, morava. A resposta foi: “Não é o povo daqui quem vai te amedrontar. São os lá de fora que farão isso”. Ainda afirma que o local é pouco visado por quem pretende cometer algum ato de vandalismo — Parece que o Dr. Frankenstein, o Conde Drácula e outros do mesmo time não sabem o endereço —, visto haver até seguranças que percorrem as cercanias do cemitério. Segundo Dave, é possível ouvir qualquer barulhinho vindo do lado de fora de sua casa. Diz ele que sai calmamente para ver o que é. Não tem medo mesmo.

Hamlet et Horatio, Eugène Delacroix (1839).
Hamlet e Horácio, Eugène Delacroix (1839).

O seu salário não é ruim. São cerca de £ 16.000 por ano. Sua jornada de trabalho é de 37 horas semanais, menor que a jornada da maioria dos trabalhadores brasileiros. O ponto alto de seu emprego, segundo suas palavras, é poder corta a grama num dia ensolarado de verão. Como se diz jocosamente, o verão na Inglaterra, invariavelmente, cai apenas num único domingo entre julho e setembro.

Mas em compensação, o ponto baixo desse emprego é “ter que afundar os calcanhares na lama, fustigado pelos pingos gelados em um dia chuvoso”.

Pode parecer um trabalho assustador, mas as únicas reclamações de Dave são quanto ao terreno e algumas peculiaridades. Por exemplo, a área mais dura para escavar é a reservada aos católicos – cabe lembrar que a Inglaterra é um país protestante – e, também, quando é preciso enterrar alguém que seja judeu, é preciso cavar o túmulo bem cedo, pois não se pode enterrar judeus depois do pôr do Sol do dia seguinte ao falecimento.

A equipe de coveiros é formada por 4 homens, sendo que três se chamam Dave. Tanto que há uma brincadeira com o nome deles, que podem ser conhecidos pelo apelido “Dave the grave”.

Quando não estão enterrando alguém, se ocupam em cuidar do gramado e outras coisas; e numa dessas andanças foi abordado por uma mulher que estava preocupada com o afundamento do túmulo de seus pais. Ela até queria pagar pelo serviço de assentamento do solo. Dave explicou que não era preciso pagar, pois fazia parte das incumbências deles, coveiros. E isso sempre acontece quando os verões são muito chuvosos. A terra demora a assentar. Leia o diálogo:

– “Gostaria de pagar por isso”, diz ela.

– “Não se preocupe, meu amor. Não há nenhuma cobrança. Daremos um jeito.”

Seu sonho é poder andar de motocicleta pela Europa e disse que o fará tão logo os filhos – três – cresçam e saiam de casa.

Parece que há um gostinho de, digamos, prazer ao afirmar que, hoje, vem enterrando aquelas pessoas que ele costumava ter que olhar para cima para poder falar.

“Não, eu não quero ser cremado. É demais para mim. Quero ser enterrado”. Foram suas últimas palavras. Na entrevista, é claro.

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* Este artigo foi escrito baseado no artigo Graveyard Shift, do jornal The Guardian.

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