Menestrel sem camisa da Lapa

Não sei se poderia chamar de polifonia. Seria mais uma cacofonia, pois mais me parece uma “algaravia” musical devido a quantidade de sons díspares que são emitidos por músicos e seus instrumentos bem debaixo de minha janela. Estou a poucos metros da Escola Nacional de Música e também da Escola Nacional de Dança, ambas da UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Dan Emmett and the Rise of Early Negro Minstrelsy
Dan Emmett and the Rise of Early Negro Minstrelsy

Todos os dias, sempre a partir das 9 horas, eles começam a ensaiar, ensinar e aprender. Eu não posso reclamar, pois nem mesmo me incomoda. Talvez por eu gostar bastante de música, excetuando aquelas aberrações que atendem pelo nome breganejo, pagode mauricinho, proibidão,  Axé e congêneres; eu realmente não possa reclamar. Hoje, por exemplo, na escola de música, a aula foi de flauta doce, mas lá no fundo era possível ouvir uma tuba subindo e descendo escalas musicais à exaustão. Agora mesmo, ouço uma soprano emitir agudos com algumas árias do bel canto. É acompanhada por um piano. Ela está cantando em italiano, pois ópera que se preza é cantada em italiano, francês ou alemão. Ao ir até a janela, vejo que algumas meninas estão ensaiando balé na escola de dança e algumas vezes ensaiam, durante um bom tempo, ao som dos primeiros movimentos da ópera Carmem, de Bizet. Imagino que estejam preparando alguma apresentação. Quem sabe?

Outro dia, eu me senti como se estivesse nos anos 40. Um naipe de metais ensaiava músicas das Big Bands. Parei o que estava fazendo e fiquei apreciando. Acho que não era ensaio, era diversão mesmo. Eu não sei se em sisudas escolas de música o popular é tão bem apreciado.

Mas, vez ou outra, voltam as flautas doces, clarinetas, fagotes, oboés e, numa dia, em vez de flauta doce, dois músicos, ou seriam alunos, resolveram tocar escalas bem no pátio. Eu, como disse anteriormente, não me incomodo. Então, vindo de uma outra janela, já que o pátio é cercado de prédios, ouço a frase em tom elevado… “CHATO PRA C*.*RALHO, P*.*RRA!”. Nós, aqui, caímos na gargalhada, visto o inusitado. O mais engraçado é que outro dia, na semana passada para ser mais preciso, alguém instalou uma caixa de som e começaram a tocar uns rocks do tipo Heavy Metal e, acredite, a mesma voz bradou… “ROCK AND ROLL!!!”. Pelo menos já deu pra perceber o gosto musical dessa misteriosa voz.

 

Agora, o que ninguém consegue mais agüentar, inclusive esse que vos escreve, é um cara que apelidei de menestrel sem camisa. Ele resolveu se estabelecer, ou melhor, fazer ponto na Rua do Passeio, bem na esquina com o Largo da Lapa e do outro lado da rua  fica um outro prédio, o principal, da Escola Nacional de Música da UFRJ.

O infeliz do menestrel sem camisa tem voz de taquara rachada e um amplificador potentíssimo. Mesmo que remeta aos griots, os menestréis que percorriam os rincões africanos transmitindo a história, colocando as pessoas a par dos acontecimentos e usando instrumentos característicos, ainda assim é chato. 

Eu estou a uns 200 metros e consigo ouvir perfeitamente tudo que ele canta. Já faz uns três meses que ele tortura nossos ouvidos. Ele tem um repertório fixo com praticamente tudo do MPBRock, as músicas das bandas brasileiras desde os anos 80. A preferência dele são duas músicas, a saber: Na moral, do JQuest, cujo refrão ele repete de forma infindável “Na moral! Na moral! Na moral!”, e uma gravada pelo Cidade Negra, que é uma versão do Nando Reis para um reggae do Jimmi Cliff,  que diz assim: “Pois se eles querem meu sangue/Terão o meu sangue só no fim./E se eles querem meu corpo/Só se eu estiver morto, só assim.”

Nada contra o que ele canta, mas uma coisa me parece bem característica. Ele toca seu violão amplificado em frente à Escola Nacional de Música, sempre sem camisa. Até mesmo em dias de chuva fina, lá está ele a desfiar o repertório. Imagino que ele esteja querendo entrar para essa Escola ou foi expulso da mesma. Um grande mistério.

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4 comentários sobre “Menestrel sem camisa da Lapa

  1. Um dos meus vizinhos pertence a uma determinada igreja (melhor não mencionar). E aqui em casa somos obrigados a ouvir, em som altíssimo, hinos e pregações praticamente o dia inteiro.
    Fico revoltada! E quando as começam as discussões entre vizinhos, para tentar colocar as coisas em seus devidos lugares, parecem não ter fim…
    Isso tudo pra te dizer o quanto eu te invejo…
    Bjs e inté!

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  2. Oi Ju,

    Eu também já tive um problema parecido com o seu. As manhãs de Domingo começavam da mesma forma que você relatou. A única diferença é que eu tinha uma guitarra. Então, eu pegava o amplificador e colocava no parapeito. Ligava no volume “AOS BERROS” e atacava de Johnny B. Goode. Rapidinho paravam com aquela coisa. 🙂

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  3. Olá meu estimado amigo.
    Passei para conhecer seu blog.
    Uma semana repleta de muita paz e amor.
    Recheada de muita luz e fé.
    beijos amigo.
    Voltarei mais vezes.
    Regina Coeli.

    Te aguardo em meu cantimnho.

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