A última do papagaio: os psitacídeos na literatura

Não há brasileiro, mesmo que na mais tenra idade, não saiba contar pelo menos uma piada de papagaio. Também não há quem fique sem ao menos sorrir quando ouve uma piada de papagaio. Eu próprio sei algumas, desde as mais pesadas às mais leves. O que eu não sabia é que o danado do psitacídeo é uma figura literária que desde a Idade Média, freqüenta páginas de livros de grandes autores e, ao que parece, o anedotário referente ao dito animal falante vem de longa data também. Lembro apenas de um livro que citava um papagaio. O livro em questão, lido há mais de vinte anos, chama-se “A Vida Sexual de Robinson Crusoé”, no qual o autor, Michael Grall, bagunça de vez com o  clássico da literatura mundial, num passeio por todos os vícios sexuais permitidos a um cara perdido numa ilha deserta, que encontra um outro cara chamado Sexta-Feira e andou “comendo” cabras, outros animais e até um papagaio. O livro era uma grande piada. Divertidíssimo mesmo.

Lendo o artigo My Parrot, My Self (algo como Meu Papagaio sou eu mesmo), de Anthonyalex Gottlieb, para o New York Times Books, fiquei sabendo isso aí de cima e um pouco mais. Por exemplo, é comum a seção de obituários do New York Times trazer a “vida” de um papagaio que passou dessa para a melhor. Donos saudosos se debulham em letras lacrimosas, como foi o caso da morte por causas naturais de Alex, um papagaio africano cinza que foi encontrado morto em sua gaiola na Brandeis University, em Massachusetts. Ele fora personagem de um livro chamado “Oryx and Crake”; portanto, deixando sua marca para sempre na literatura. Em breve sairá uma biografia de Alex, no livro Alex and Me, da psicóloga Irene Pappenberg, sua dona e que estudava a inteligência nas aves, e teve uma idílica convivência com o finado papagaio por três décadas.

Leia o que disse sobre ele o New York Times

Ele conhecia as cores e formas. Ele aprendeu mais de 100 palavras em Inglês, e com sua personalidade original estabeleceu um padrão para programas de TV, relatórios científicos, artigos e notícias como talvez a mais famosa de todas as aves falantes.

O início desse obituário até me lembrou as primeiras estrofes do Funeral Blues, de W.H. Auden. Poético pra caramba.

John Skelton, o poeta preferido de Henrique VIII, cometeu umas mal traçadas sobre um papagaio que sabia declamar poemas, chegando mesmo a repetir versos como: “Com as senhoras eu aprendi e ia ao vilarejo com elas”. Profundo, não? Só faltou o currupaco.

Contam, também, e quem conta é o cronista romano Plínio, o velho, em sua História Natural, que o imperador Tibério mandou enterrar com honras de Estado um corvo que o saudava todas as manhãs. O cortejo percorreu as ruas de Roma em grande estilo, com toda pompa e circunstancia que só os patrícios romanos mereciam.

rumontilla Na Inglaterra, os papagaios sempre estiveram em alta conta pelos jornais e a literatura em geral. Também, né? Não há pirata inglês que não tenha em sua parede um quadro com seu retrato tendo um desses tagarelas emplumados pendurados em seu ombro. Vide a garrafa do rum Montilla. Há uns dois anos, os jornais noticiaram a história de Ziggy, um papagaio que à época contava 8 anos de idade e dedurou a sua dona, que dava umas voltas no namorado com um tal de Gary. Ziggy, zeloso de suas atribuições parlantes, toda as vezes que ouvia o nome “Gary” vindo de um programa de televisão, danava a imitar beijinhos estaladinhos e, para jogar de vez as cinco letras que não cheiram bem no ventilador, quando o telefone celular da sapeca tocava, ele dizia languidamente…  “Oh… Gary”. Está pensando que parou por aí? Nada disso! O dedo duro completou com a frase que incriminou de vez a cachorra: “Gary, eu te amo”, imitando a voz da dona, que ficou sem o namorado, agora sabedor de todas as chifradas que andou levando.

Um conto medieval francês relata a história de três papagaios comprados por um marido desconfiado, para espionar a esposa. Apenas um sobrou, pois fez um acordo para manter um pacto de silêncio com a traidora. Em tempos modernos, esse mesmo conto foi adaptado por Robert Olen Butler, quando um marido temeroso de estar levando umas boladas nas costas, sobe numa árvore para ver através da janela o que a mulher andava fazendo. Deu azar e caiu, vindo a falecer. Porém, o azar dos azares foi que ele reencarnou como papagaio e a mulher acabou comprando-o, sem saber, numa loja de animais. Agora, como papagaio, ele assistia de camarote, digo, de poleiro, as traições da esposa, sua viúva.

papagaiopr Casanova, o maior de todos os amantes, certa vez comprou um papagaio e o ensinou a dizer “Miss Charpillon é tão puta quanto sua mãe”, tentando, assim, vingar-se de duas mulheres que tentaram passá-lo para trás. Logo, fazer uso de papagaios para levantar falso testemunho não é nenhuma novidade. Muita gente faz isso até hoje. Até em romance policial esse fato deu título, como no livro, “The Case of the Perjured Parrot.” (algo como O Caso do Papagaio Que Cometeu Perjúrio).

Num conto, Apsethos da Líbia ensinou um bando de papagaios a falar “Apsethos é Deus”, imaginando que essa papagaiada fizesse o povo acreditar em suas palavras. Deu com os burros n’água. Uns gregos capturaram alguns desses papagaios e os ensinaram a falar "Apsethos nos obrigou a dizer que ele é um deus".

Você pensa que o Papagaio de Flaubert é ficção? Não é! Flaubert se inspirou numa história real para escrever o conto “Um Coração Simples”, quando Felicité, quem possuía o papagaio e o imaginava sagrado, vivia de forma solitária, nutrindo um amor platônico e em seu desespero de solidão, pensava que o papagaio fazia conexão direta com o espírito santo. Quando estava em seu leito de morte, Felicité, vê uma gigantesca figura de Loulou, que a leva até o paraíso.

Ali pela metade para o fim da Idade Média, o prestígio dos papagaios era tamanho que até eram cativos em conventos. Os bichos eram adorados pelas freiras. Conta-se a história de um papagaio, por volta do século XVIII, que parecia pio e carola. Rezava tudo quanto é missa. Sabia o terço de cor e o escambau. Ver-Vert, era mais versado em ora pro nobis e ave dominus tecum, que muito padre. Porém, um belo dia, ele foi emprestado para um outro convento devido a sua fama. Lá chegando no novo poleiro, começaram a duvidar de suas capacidades parlantes e viviam tirando onda com ele. Veio a revolta e quando ele saiu de lá, estava mais rebelde que metaleiro que só se veste de preto e emite sons guturais, mas que adora pagode mauricinho. Isso é a rebeldia das rebeldias. Logo, por esse motivo, Ver-Vert se tornou o modelo para todos os papagaios literários que surgiram. Vários autores se utilizaram desse novo perfil da personalidade do Ver-Vert para poder falar umas sacanagens em seus livros, como passaram a fazer Mark Twain e Robert Louis Stevenson, por exemplo. Em vários livros de Gabriel García Márquez, sempre aparece um papagaio.

A coisa é tão séria que os teóricos e críticos literários acreditam que a figura do papagaio na literatura seja carregada de simbolismo, tanto que na literatura francesa, segundo esses estudiosos, o papagaio é sempre identificado com a linguagem em si e que subvertem o conceito de verdade absoluta.

Para finalizar, parece que pelo menos um papagaio com viés filosófico surgiu num romance francês de 1959, chamado “Zazie in the Metro”, cuja menina que dá nome ao livro é acompanhada pelo papagaio Laverdure, em seu périplo por Paris e, todas as vezes que é questionado diz a seguinte frase: “Quem ousa dizer que é imitação? Falar, falar, isso é tudo que você pode fazer”.

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2 comentários sobre “A última do papagaio: os psitacídeos na literatura

  1. Olá, Jorge.

    Caramba! Fiquei craque em psitacídeos agora. hahahaha

    Muito bom seu post sobre essas aves maravilhosas. Nota 10!

    Abraço

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  2. Aprendemos mais sobre esse bixanu,,,rssss
    No sitio de minha mãe tem um deles, mas nao fala bobagi não..rsssss
    Parabéns querido, aqui estamos sempre bem informados!
    Linda semana!
    Carinho de RO!

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