O Ocidente, a China e a Ciência

Acabo de ler dois artigos sobre ciência que, a princípio, parecem antagônicos, mas que na verdade se completam. O primeiro trata da ciência e sua evolução na China milenar (What the West makes of Chinese science. Algo como O que o Ocidente fez com a ciência chinesa) e o segundo fala de como a ciência foi estimulada em fins do século XVIII (The Age of Wonder: How the Romantic Generation Discovered the Beauty and Terror of Science. Algo como A Era da Maravilha: Como a geração do romantismo descobriu a beleza e o terror da ciência). E uma pergunta ficou no ar: De que forma a ciência e o mundo ocidental suplantaram e negaram a ciência milenar de outras culturas? ₢Jorge Alberto – Recanto das Palavras

Talvez a resposta esteja no campo econômico, pois com o advento do capitalismo, o Ocidente se expandiu para todos os cantos do planeta e encontrou culturas e outros povos em vários estágios evolutivos. Por exemplo, quando os espanhóis chegaram na América, Sui_Yangdi_Tang os Maias, também conhecidos como Os gregos do Novo Mundo, já estavam em franca derrocada cultural e social. Conheciam a roda e conheciam o conceito do Zero, que só chegou na Europa no século XI. Então, como entender que uma civilização como a da China milenar não tenha perpetuado suas invenções e tirado partido disso, ou ainda mais, não tenham sido reconhecidos como inventores e descobridores de muito mais além do que já sabemos (pólvora e bússola)? A gravura que ilustra esse parágrafo representa o imperador Yang Sui, da dinastia Ming, que mandou instalar portas automáticas (iguais as da Enterprise) em seus aposentos e biblioteca. ₢Jorge Alberto – Recanto das Palavras

Essa é a preocupação de pessoas como Joseph Needham, que se tornou uma espécie de advogado da tradição científica chinesa. Por outro lado, o grande incentivador da ciência moderna, em seu momento inicial foi Sir Joseph Banks (1743-1820), um naturalista, que pode ser considerado o primeiro deles, e que esteve na primeira viagem Endeavour₢Australian National Maritime Museum de volta ao mundo empreendida pelo capitão Cook no Endeavour. Era amigo particular do Rei George III (sobre esse rei, que perdeu a maior colônia inglesa até então, os Estados Unidos, há um excelente filme chamado As Loucuras do Rei George), tornando-se, assim, aquele que incentivava cientistas a serem patrocinados pelo rei, como o astrônomo de origem alemã William Herschel, que acabou por descobrir o planeta Urano, constituindo-se no primeiro planeta descoberto através da observação feita por telescópio. A curiosidade é que o próprio Herschell construía seus telescópios, com a ajuda de sua irmã, que também emigrou da Alemanha, e foi sua assistente tanto científica quanto gastronômica. Certa vez, o polimento de um espelho de um telescópio, que já consumia 16 horas seguidas, era feito de forma frenética por Herschell, enquanto Caroline colocava comida em sua boca. ₢Jorge Alberto – Recanto das Palavras

Ainda na linha em que o Romantismo e a Ciência estavam lado a lado, Sir Joseph Banks indicou outro cientista para o rei. Dessa vez foi o químico autodidata Humphry Davy, que acreditava poder reanimar corpos humanos utilizando a eletricidade e o fato, também curioso, é que era amigo de Lord Byron e da família de Mary Shelley, a autora que escreveu Frankenstein ou o moderno Prometeu (veja artigo Frankenstein a quatro mãos). Logo, podemos perceber o quanto a ciência influencia a literatura. Outro detalhe curioso é o fato de Mary Shelley ser tão entusiasmada com a ciência, que adorava balões de ar quente, que nessa época eram ainda raros e seus pilotos poderiam ser considerados heróis, como o francês Pilâtre de Rozier, o primeiro a empreender um vôo nesse tipo de artefato ou o italiano Vincenzo Lunardi; que ela imaginou usar balões para fazer as primeiras propagandas panfletárias soltando panfletos ateístas sobre algumas cidades e também voar sobre a África promovendo o fim da escravidão. Romantismo puro associado à ciência. Jorge Alberto – Recanto das Palavras

Segundo o resenhista do The Times, John Carey, sobre o livro The Age of Wonder: How the Romantic Generation Discovered the Beauty and Terror of Science, de Richard Holmes, uma das melhores formas de divulgar a ciência é contar a história e escrever biografias sobre os incentivadores da ciência e suas descobertas. Podemos dizer que essa visão do particular também é importantíssima para a divulgação científica quando se faz necessário aquele famoso Corte epistemológico, isto é, aprofundar-se num determinado assunto. ₢Jorge Alberto – Recanto das Palavras

Quando também tivermos condições de ver e analisar o todo é possível se ter um complemento da visão, até mesmo de forma crítica como na percepção a respeito da tradição científica chinesa, que até uns cinqüenta anos não era levada em consideração, visto não ter, como no mundo ocidental, uma função industrial. A ciência da China milenar não tinha objetivos industriais e econômicos em linhas gerais, como foi dito acima. Mas não é possível ficar sem saber que a precocidade – uma visão ocidental um tanto fleumática, não? – se deu em vários campos científicos como a medicina, metalurgia, cerâmica, mecânica, química, física e matemática, por exemplo. The Age of Wonder: How the Romantic Generation Discovered the Beauty and Terror of Science. O arauto dessa mudança de percepção é o Dr. Joseph Needham (1900-1995), um bioquímico que dedicou sua vida a mostrar que nós, ocidentais, não conhecíamos e até arrogantemente desprezávamos o conhecimento científico da China milenar.

SCCvol1 Em 1954, ele deu início ao projeto Science and Civilisation in China, que contava (e conta) com colaboradores internacionais. São diversos livros que esmiúçam a China em todos os aspectos sociais e científicos, e que acaba de ter seu 24º volume lançado, sob o título de Bomb, Book and Compass (Pólvora, Livro e Bússola). Needham morreu ainda quando fora lançado o 13º volume da série. ₢Jorge Alberto – Recanto das Palavras

O interessante notar é que apesar de todo esse esforço de divulgação e estudo de um caso, não foi conseguido explicar como uma cultura com tamanha tradição científica não tenha conseguido gerar a sua própria Revolução Industrial. A isto se deu o nome de “a questão Needham”. Ele fundou um instituto que leva seu nome e teve passagens atribuladas, tudo ao sabor das ondas políticas chinesas como a Revolução Cultural. Entretanto, jamais deixou de anotar e apresentar fatos científicos que falam da primazia chinesa como a invenção do alto-forno, no século III a.C., o livro impresso, em 868, ou seiscentos anos antes de Gutemberg ter impresso o primeiro livro no Ocidente. ₢Jorge Alberto – Recanto das Palavras

Sendo assim, a divulgação científica pode tomar vários caminhos, o particular, ou a biografia de um cientista ou incentivador e também o sentido amplo, como o estudo de uma civilização com tradições científicas. Os caminhos se completam e convergem para uma única e ampla estrada, a Ciência e sua compreensão. ₢Jorge Alberto – Recanto das Palavras

Links biográficos

₢Jorge Alberto – Recanto das Palavras
Sobre a ciência chinesa

Links Correlatos no Recanto das Palavras

Esse artigo foi escrito a partir da leitura dos artigos The Age of Wonder: How the Romantic Generation Discovered the Beauty and Terror of Science  e What the West makes of Chinese science, que estão no Jornal The Times.

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