Intolerância religiosa – Casa de editor é alvo de atentado

Uma bomba do tipo coquetel molotov foi jogada, hoje, 28 de setembro, em Londres, na casa do editor Martin Rynja, que editou na Inglaterra o livro, The Jewel of Medina ( A Jóia de Medina), da escritora e jornalista norte-americana Sherry Jones. O livro é um romance baseado em Maomé e sua segunda mulher, Aisha, que se tornou sua esposa por volta dos 9 anos de idade. É isso que está gerando toda polêmica. Pois, junta-se o medo das represálias político-religiosas com uma suspeita de pedofilia.

Esse livro foi cercado de polêmicas desde seu lançamento, que acabou não acontecendo por que a editora Random House, temerosa de sofrer represálias por parte de fanáticos religiosos, cancelou o lançamento. Isto só demonstra que, mais uma vez, não importando qual religião, um livro é colocado num index, isto é, sofre censura interna e todos envolvidos em sua elaboração passam a viver com medo.

“Eu tinha esperança de encontrar uma editora independente com a presença de espírito e verve que ia me tratar como um parceiro no processo de edição”

Não faz muito tempo, o autor anglo-indiano, Salman Rushidie, foi condenado à morte, pelo fanatismo religioso islâmico e, por isso, passou anos vivendo escondido e só saindo à rua cercado de seguranças.

Há pouco tempo também, um cartunista dinamarquês foi ameaçado de morte por ter feito um cartun que, segundo seus “juízes”, ofendia a religião islâmica.

Representação de Aisha e Maomé
Representação de Aisha e Maomé

A polêmica a respeito do livro envolve, como se disse, o medo de represálias por parte de grupos radicais, tudo isso motivado pelo fato de haver um caráter liberalizante da mulher em suas páginas, já que a autora considera Aisha uma das grandes heroínas do Oriente Médio. Isso levou a uma crítica arrevesada, escrita pela professora Denise Spellberg, especialista em assuntos do Oriente Médio da Universidade do Texas que, segundo afirmou, “há uma cena de sexo que pode ser considerada pornografia leve”. O mais chato de tudo foi o vazamento de um e-mail seu, a uma consulta feita pela editora Random House, que a procurou para comentar – de modo favorável – o livro e recebeu em resposta as seguintes palavras: “muito feio e mal acabado”. E ainda completou, afirmando que “não vejo problema com a ficção histórica (leia-se romance histórico), o que eu não gosto é de ver uma interpretação, em que você não pode jogar com um história sagrada e transforma-la em suave pornografia”. Um jornal alemão já acha o contrário, ao informar que “quem ler o livro verá que é uma homenagem ao profeta Maomé e sua esposa favorita”.

Aisha foi a segunda esposa de Maomé e sua favorita. Quando o profeta recebeu a maioria dos versículos, ela estava ao seu lado. Após a morte de Maomé, Aisha levantou um exército para combater sua rival Ali. Foi aprisionada e devolvida a Medina, quando se tornou uma das maiores estudiosas do Corão, vindo a falecer aos 65 anos de idade.

Sherry Jones

A autora vê com preocupação as conseqüências políticas da decisão da Random House em não lançar seu livro, pelo qual recebeu 100 mil dólares como adiantamento. “Essa é uma das maiores editoras do mundo e que recusa-se a publicar um livro por medo de represálias, mostra que a liberdade de expressão nos Estados Unidos pode estar comprometida”.

Livre tradução do artigo Firebomb attack on book publisher, do jornal The Guardian.

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2 comentários sobre “Intolerância religiosa – Casa de editor é alvo de atentado

  1. Dizem, não posso afirmar, que há mais de 100 milhões de mulheres com vaginas costuradas ou clitóris extirpados. Mulheres que, ao morrerem, são deixadas no deserto, e suas filhas retiram-se sem que possam sequer olhar para trás. Mulheres que passam meses e meses prisioneiras num cômodo por desavenças domésticas simples. O que espanta é constatar que os únicos meios capazes de divulgar e levantar questões que poderiam, ainda que em longo prazo, representar alguma alguma mudança para a situação em que vivem essas mulheres, preocupem-se em “costurar bocas”, extirpar palavras, ou abandoná-las ao deserto da censura. Política, religião, medo… poder. É triste!… É óbvio que não li o romance, não sei se, ou até que ponto expõe a vida dessas mulheres através de suas personagens posto que para uns é “pornografia leve” e para outros é “homenagem a Maomé”, mas já gostei dele.

    Gostaria de pensar que a editora em questão está apenas construindo um “teaser”, – que trata-se de uma jogada de marketing e que, breve, o livro estará nas prateleiras. Excelente o post! Bjs e inté!

    PS: Pô, desculpe-me Jorge! Este comentário ficou muito grande…

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  2. De forma alguma você escreveu demais. Seus comentários são sempre pertinentes e racionais.

    Realmente, em determinadas culturas, a situação da mulher não difere do que podemos chamar de sub-humanidade. Acho que já comentei contigo sobre essa coisa medonha que é extirpar o clitóris, quando assisti algumas palestras de um respeitado antropólogo. Confesso que, naquela época, quando eu devia ter uns 19 anos, a coisa me pareceu meio estranha. Hoje, então, é algo que não consigo conceber.

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