Sem Tempero Não Dá! A Globalização por causa da pimenta

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Já deu pra imaginar comida sem tempero? Só há uma palavra para definir o sabor de algo tão ruim assim: BLEARGH! Temos cinco sentidos e um deles é o paladar, então porque não aproveitar ao máximo? Como a natureza sempre foi nossa amiga, nossos antepassados foram experimentando comer tudo que aparecia pela frente. Não duvido nada que muitos dos macacos que desceram das árvores e começaram a caminhar eretos tenham passado por maus momentos ao experimentar carnes e plantas desagradáveis e que causavam desarranjos. Algumas vezes levando até a morte. Se bem que, de vez em quando, nossos antepassados tenham sido o prato principal de algum predador. Por isso que sabemos que determinadas plantas e animais não são comestíveis. Basta lembrar que no Japão, vira e mexe alguém cai durinho no chão depois de comer fugu mal preparado.

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Da Conservação à Gastronomia

Hoje, nós temos geladeiras e refrigeradores para guardar a comida. Imagine, então, lá pelos idos da Idade Média, quando as pessoas não se alimentavam muito bem, não obtendo boas taxas de calorias e proteínas e quase sempre não tinham como conservar os alimentos. O que elas faziam para manter o sabor e o paladar agradáveis, antes, porém, rezando para que não apodrecessem?  Nos tempos das cavernas já se sabia das propriedades antimicrobianas de algumas plantas que foram denominadas Species pelos romanos, os mesmos que coroavam seus generais vitoriosos com folhas de louro. Alguém já viu busto de Júlio César sem coroa de louros? Até os egípcios conservavam suas múmias usando especiarias. Sinal que a sabedoria humana e a natureza caminhavam de mãos dadas no que se refere à conservação e paladar dos alimentos.  Desde a Antiguidade Clássica que as especiarias e ervas aromáticas são usadas, também, na medicina. Os gregos, aqueles que pensavam o mundo, já sabiam das propriedades terapêuticas e medicinais das plantas. Fazendo um corte e viajando no tempo, dá para imaginar porque os gringos têm tanto olho grande na floresta amazônica. Lá, de repente, se encontram plantas que podem curar os males que afligem a humanidade como o câncer e a aids, por exemplo.

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As Especiarias e a Economia

Por causa das especiarias, as rotas comerciais mudaram de eixo na passagem da Idade Média para a Idade Moderna. O Mediterrâneo cedeu lugar ao Atlântico. O capitalismo deve muito às especiarias e ervas aromáticas. Os valorosos lusitanos levaram décadas para contornarem a África e chegar ao Oriente, e lá encontrar os produtos, concorrendo, assim, com mercadores venezianos e árabes. De quebra, aportaram aqui e o Caminha foi logo dizendo "que em se plantando tudo dá". Sinal que eles já imaginavam usar o Brasil como produtor e fornecedor dessas matérias-primas que denominamos especiarias. Duvidam? Fomos colonizados por causa de uma especiaria: o açúcar.

Odeio Coentro

Há alguns anos acampei num lugar paradisíaco antes de Angra dos Reis. Foram dez dias de não fazer nada a não ser tomar banho de mar, cachoeira para tirar o sal do corpo, comer e dormir. Vez ou outra, um dos campistas trazia um peixinho ou outro fruto do mar e nos dava de presente. Por mais que tenhamos levado comida em lata ou aquelas que podem ser preparadas de forma rápida como macarrão, que depois de pronto mais parecia cola de balão, com sabor de hospital, eu vos digo: nada se compara a algo preparado por nós mesmos. Além do sal, que outro tempero teríamos? O armazém mais próximo ficava muito longe e não valia a pena andar tanto para comprar temperos. Um morador da região nos disse para prestar atenção à trilha que nos levou até ao paraíso citado. Nela encontraríamos coentro para temperar e dar sabor ao peixe. Sendo assim, sempre percorríamos a trilha e colhíamos ali sem qualquer esforço uma plantinha que nem demos bola, mas que agora era uma espécie (tudo bem, pode ter trocadilho) de salvação do paladar. O mais interessante é que eu detesto coentro. Mesmo assim me fartava e comia o peixinho numa boa. Ficava todo feliz. 

Curiosidades

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Especiaria [De espécie + -aria.] S. f. 1.Qualquer produto de origem vegetal, aromático (cravo, canela, pimenta, noz-moscada, etc.) usado para condimentar iguarias; espécia, espécie.

Ainda no terreno das curiosidades sobre as especiarias é interessante lembrar que foram os primeiros romanos que atribuíram este nome às ervas aromáticas e condimentos. Chamavam-nas de Species. Mas foram os franceses, os reis da culinária que ampliaram o âmbito de utilizações desses produtos vegetais.

As rotas de comércio mundial foram mudadas em função desses produtos por volta do fim da Idade Média. Do Mediterrâneo para o Atlântico para ser mais específico. Assim sabemos porque falamos o Português.

As aplicações envolvem religião e magia, gastronomia e medicina curativa. Logo, é possível perceber o véu de mistério e mistério relacionados ao uso de determinados produtos.

– José, filho de Jacó, foi trocado por especiarias por seus irmãos e acabou como primeiro-ministro no Egito, quase 2000 anos antes de Cristo.

– Dentre as jóias, metais preciosos e demais riquezas, a Rainha de Sabá carregava especiarias em sua caravana quando de seu encontro com Salomão.

– Os egípcios usavam especiarias durante o processo de embalsamamento.

– Os médicos da Grécia antiga utilizavam as especiarias como remédio.

– Foi Marco Polo, quem, através de seus escritos no século XIII, mostrou para os europeus os outros usos das especiarias.

– As especiarias também eram conhecidas como Ouro Aromático.

– Devido ao seu preço proibitivo para a maioria da população, as especiarias eram símbolo de status e também eram deixadas como herança para os familiares de algum ilustre possuidor de recursos para as comprar.

– Quando Vasco da Gama regressou de sua viagem ao Oriente, a primeira empreendida por Europeus através de uma nova rota marítima, contornando o Cabo da Boa Esperança, houve comemorações em Lisboa. O povo passou a comprar as especiarias por preços mais acessíveis.

– Um quintal de pimenta, cerca de 60k do produto, valiam no Oriente 2 cruzados (moeda portuguesa da época). Os preços de venda variavam entre 20 ou 30 cruzados. Um enorme lucro e um preço acessível, já que os preços cobrados pelos venezianos eram muito mais altos.

– Os venezianos mandaram espiões para Lisboa e tentaram dissuadir governantes do Oriente a não fazer comércio com os portugueses. Os árabes também se sentiram prejudicados pela entrada dos portugueses nessa atividade comercial altamente lucrativa.

– Os árabes muçulmanos ameaçaram destruir o Santo Sepulcro em Jerusalém e converter à força ao islamismo qualquer cristão que encontrassem pelo caminho. Enviaram recados ao papa solicitando a proibição de viagens portuguesas ao Oriente.

Quadros da Especiarias

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1 – Anis-estrelado
2 – Malaguetas picantes secas
3 – Malaguetas encarnadas e verdes
4 – Sementes de alcaravia
5 – Bagas de Zimbro
6 – Vagens de cardamomo
7 – Pimenta-de-caiena
8 – Gengibre inteiro e em fatias
9 – Macis
10 – Açafrão
11 – Cúrcuma moída
12 – Sementes de cominho
13 – Tamarindo
14 – Vagens de Baunilha
15 – Grãos secos de pimenta
16 – Casca de cássia
17 – Sementes de mostarda pretas/brancas
18 – Noz-moscada inteira e raspada
19 – Sementes de funcho
20 – Cravo-da-índia
21 – Sementes de endro
22 – Grãos secos de pimenta verde
23 – Paus de canela

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1-Salsa
2-Tomilho
3-Coentros
4-Eruca
5-Salva
6-Folhas de louro
7-Alecrim
8-Verbena
9-Cebolinha
10-Salsa frisada
11-Estragão
12-Manjerona
13-Cebolinha picado
14-Ramo de cheiros
15-Hortelã
16-Manjericão
17-Endro
18-Cerefólio
19-Orégãos
20-Azedas

Leia também os artigos:
O Que Comer? Breve (e algumas) história (s) da Comida
Tempura vem de tempero

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2 comentários sobre “Sem Tempero Não Dá! A Globalização por causa da pimenta

  1. Show..
    Sou um apaixonado pelos temperos e considero um talento quem consegue usá-los sem fazer uma grande bagunça gastronômica.

    Grande abraço!

    Neo

    Curtir

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