Trem das Onze Blues ou São Paulo não é o túmulo do samba

A música realmente é maravilhosa e sempre nos surpreende. Eu estava vendo uns vídeos com o Adoniran Barbosa e resolvi que escreveria um post chamado “São Paulo não é o túmulo do samba”. Não é nem nunca foi. É apenas um outro tipo de samba, que é um prolongamento do samba do Rio de Janeiro, que teve origem na Bahia. E ao procurar um video com a música Trem das Onze, me deparo com um vídeo, no qual Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura, – meu filho me fez aprender a ouvir e gostar desse grupo -, e o bluesman Vasco Faé, que começam a tocar Hoochie Coochie Man, do Muddy Waters, e fazem uma ponte sensacional com o samba acima citado. Eu sugiro que deixem o vídeo tocar e continuem a leitura. Se quiserem, também podem ver um vídeo com a gravação clássica da Gal Costa, de 1973.

Trem das Onze

Não posso ficar nem mais um minuto com você
Sinto muito amor, mas não pode ser
Moro em Jaçanã,
Se eu perder esse trem
Que sai agora as onze horas
Só amanhã de manhã.
Além disso mulher
Tem outra coisa,
Minha mãe não dorme
Enquanto eu não chegar,
Sou filho único
Tenho minha casa para olhar
E eu não posso ficar.

O Samba e o Blues
Assim como há vários estilos de blues – Delta e Chicago, por exemplo – o Samba é uma síntese da transformação de um país agrário e rural em industrial e urbano, isto é, a base social criadora de ambos estilos, samba e blues, começaram nas áreas rurais relembrando, mantendo e transformando a música ancestral africana mesclando, como no caso do Brasil, com a urbanidade burguesa, dos barões do café e industriais à pequeno burguesa da iniciante classe média, e a também pobre dos imigrante e brasileiros, que se apresentava na passagem do século XIX para o século XX. Isto é fato comprovado, pois os estilos musicais se firmaram e criaram seus modelos no transcurso do século passado, tornando-se as músicas, digamos nacionais, tanto do Brasil quanto dos Estados Unidos.

O Compositor e seus sambas

Adoniran Barbosa
Adoniran Barbosa(1910-1982), numa montagem em que está ao lado da imagem da letra de "Tiro ao Álvaro", música que, pasme, foi censurada por "Falta de gosto", durante a Ditadura Militar.

Mas voltando ao nosso caríssimo Adoniran Barbosa, cujo nome de batismo era João Rubinato, compositor de jóias do cancioneiro nacional como, Trem das Onze, Samba do Arnesto, Iracema, Tiro ao Álvaro e tantos mais, ele foi, e me perdoem novamente usar esse vocábulo, a síntese do samba urbano de São Paulo, que também surgiu em áreas de população pobre, juntando a cultura brasileira com a dos imigrantes italianos que se fixaram em bairros como Brás e Bexiga. A forma como ele brinca com as palavras, usando um Português que não faz concordâncias de qualquer ordem, não respeitando regras gramaticais, mas que nem por isso suas músicas deixam de ser saborosas histórias, ou melhor dizendo, crônicas em forma de música. Se você é professor de Português, terá em mãos um excelente material para trabalhar em sala de aula, ao conhecer esses sambas.

Um detalhe interessante sobre Adoniram Barbosa está no blog Censura Musical, que reproduzo abaixo:

O caso de Adoniran é um dos mais eloqüentes. O compositor, que nunca teve militância política, foi censurado por utilizar em suas letras uma linguagem coloquial, com erros propositais de gramática. Em 1973, cinco de suas canções foram vetadas, inclusive as que já haviam sido gravadas na década de 50. Os pareceres são assinados pela censora Eugênia Costa Rodrigues. Na letra da música Tiro ao Álvaro, ela circula as palavras “tauba”, “artomorve” e “revorve”. E conclui: “A falta de gosto impede a liberação da letra”. Tiveram o mesmo destino outras quatro canções, entre elas Já Fui uma Brasa (“Eu também um dia fui uma brasa. E acendi muita lenha no fogão”) e Casamento do Moacir (“A turma da favela convidaram-nos para irmos assistir o casamento da Gabriela com o Moacir”), essa última considerada de “péssimo gosto”.

Vejamos, então, o caso de Iracema, um samba trágico no qual um noivo chora a morte de sua noiva, a Iracema que dá título ao samba, que foi atropela e morta em plena Avenida São João, vinte dias antes do casamento.

(Iracema, fartavam 20 dias
Pra o nosso casamento
Que nóis ia se casa
Você atravessô a São João
Vem um carro te pega
E te pincha no chão
Você foi pra assistência,
Iracema
O chofer não teve curpa,
Iracema
Paciência, Iracema, paciência!)

Continuando nessa linha de interpretar música como crônica social, o que é extremamente válido, e isso já foi apresentado por mim em outros artigos, como os que foram escritos citando Noel Rosa e Geraldo Pereira também neste caminho.Vamos pegar o Samba do Arnesto, aquele amigo que faz um convite para um samba no Brás e, lá chegando, a turma não encontra ninguém. Vejamos a letra na íntegra:

Samba do Arnesto

O arnesto nos convidô prum samba, ele mora no brás
Nóis fumo e não encontremos ninguém
Nóis vortemo cuma baita duma reiva
Da outra veiz nóis num vai mais
Nóis não semos tatu!
Outro dia encontremo com o arnesto
Que pidiu descurpa mais nóis não aceitemos
Isso não se faz, arnesto, nóis não se importa
Mais você devia ter ponhado um recado na porta
Anssim: “ói, turma, num deu prá esperá
A vez que isso num tem importância, num faz má
Depois que nóis vai, depois que nóis vorta
Assinado em cruz porque não sei escrever arnesto”

E a verdadeira imagem musical, mental, social, sociológica, da cidade que cresce para todos os lados e da paulistanidade, se é que esse termo existe, é Saudosa Maloca, clique no link ao lado para ouvir Elis Regina e Adoniran Barbosa cantando um trecho de algumas de suas músicas. Ao clicar, abrirá uma nova janela. Relaxe na cadeira e deixe fluir.

Saudosa Maloca

Si o senhor não tá lembrado
Dá licença de contá
Que aqui onde agora está
Esse edifício arto
Era uma casa véia
Um palacete assobradado
Foi aqui seu moço
Que eu, Mato Grosso e o Joca
Construimos nossa maloca
Mais, um dia
nois nem pode se alembrá
Veio os home cas ferramentas
O dono mandô derrubá
Peguemos tudo as nossas coisa
E fumos pro meio da rua
Preciá a demolição
Que tristeza que nóis sentia
Cada táuba que caía
Duia no coração
Mato Grosso quis gritá
Mas em cima eu falei:
Os homi tá cá razão
Nós arranja outro lugá
Só se conformemos quando o Joca falou:
“Deus dá o frio conforme o cobertô”
E hoje nóis pega a páia nas grama do jardim
E prá esquecê nóis cantemos assim:
Saudosa maloca, maloca querida,
Que dim donde nóis passemos dias feliz de nossa vida

Adoniran, numa das versões de Elifas Andreato para a capa de um disco.
Adoniran, numa das versões de Elifas Andreato para a capa de um disco.

Essa imagem está disponível no blog Colletiva.

Leia também os artigos:

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4 comentários sobre “Trem das Onze Blues ou São Paulo não é o túmulo do samba

  1. fico no global dashboard, no navegador de tags e sempre vejo teus posts por lá.

    quero dar os parabéns ai pela garra em termos de constância, e pela qualidade dos textos.

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  2. Ola pessoal,
    Sou brasileira, moro nos EUA em Seattle WA e sou professora de Ingles, Historia dos EUA e Historia de Washington aqui na escola publica. Tenho Mestrado e Doutorado em Educacao “Curriculum and Instruction” voltado pra ensinar uma lingua estrangeira atraves de musica.
    Tenho grupos particulares de crianca e adulto para aprender Portugues e esta musica TREM DAS ONZE e a minha primeira experiencia depois que consegui meu Doutorado.
    Tenho um plano de aula muito legal !!!!!!!!
    Norma Henry, Ph.D.

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  3. Norma,

    Muito interessante sabermos que você leciona Língua Portuguesa em Seattle. As portas estão abertas para que possamos ajudar naquilo que for possível.

    Abraços cariocas.

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