Frankenstein a quatro mãos

Minha senhora, o seu marido é um monstro de: (a) insensibilidade ou (b) é feio mesmo? Bem, se a senhora marcou a opção “a”, marcou bobeira quando o conheceu e só agora sua cegueira sensório-emocional foi curada como por milagre. Mas, o que fazer, né? Os netos estão aí mesmo dando alegrias para a senhora, enquanto o jumento velho aluga canais pornô na tv a cabo. Mas, se a senhora marcou a opção “b”, posso afirmar que o amor é cego. Estou errado ou a senhora, já pensando nas possíveis vezes que faria o papel de lateral avançado, isto é, levaria algumas bolas nas costas, escolheu o feio sabendo que a concorrência praticamente não existiria e, por isso, a senhora mostrou ser uma mulher de visão, certo? Sorriu, né?

Agora, o que a senhora me diria se soubesse que o livro Frankenstein (ou o moderno Prometeu) – este é o verdadeiro título original – , de Mary Shelley foi escrito a quatro mãos? Não, minha senhora. A autora não foi a cemitério cortar as mãos de algum cadáver para amarrar às suas (dela) e, assim, escrever mais palavras e mais rápido. Eu estou dizendo que o livro foi escrito a quatro mãos, pelo fato de ter sido também escrito pelo marido da autora, o poeta Percy Bysse Shelley. Pode acreditar, pois é isso que afirma o pesquisador Charles Robinson, professor de Literatura Inglesa na Universidade de Delaware, em seu livro, The Original Frankenstein, que será publicado em outubro.

Segundo o professor Charles Robinson, Percy deu vários pitacos estilíticos e literários aos textos manuscritos da esposa. Desconfia, o pesquisador, que ambos usavam a mesma caneta e trocavam anotações na cama. Bonito, né, minha senhora? A senhora aí suspirando, por que o seu marido nem quer mais dividir o mesmo sabonete com a senhora e ainda chega em casa com cheiro de sabonete de motel. Fica triste não. Ele sempre volta pra casa e isso já é um negócio e tanto.

Todos sabem que o livro foi gestado quando o casal Shelley passava alguns dias às marges do Lago Genève, em companhia do poeta inglês Lord Byron. Quem não sabe de quem se trata, leia o about do meu blog. Pois bem, no meio das conversas à lareira, contavam histórias fantásticas e assombradas entre si, até que foi sugerido a Mary, por Lord Byron, escrever algo neste sentido tendo por base contos fantásticos alemães lidos pelo casal anteriormente. Em 1818, foi lançada a primeira edição do livro que se tornou um clássico universal. Hollywood filmou a história inúmeras vezes e Boris Karloff imortalizou a imagem que temos hoje do monstrengo criado por Victor Frankenstein, o estudante de ciências naturais que o criou.

Os críticos literários e também historiadores, psicólogos e demais estudiosos já analisaram esse livro sob diversos prismas; sendo dos mais interessantes, aquele que faz uma analogia entre o momento vivido à época do lançamento do livro com o contexto econômico mundial, pois se tratava do início do auge da Revolução Industrial e todos imaginavam um mundo movido por máquinas e governado pela tecnologia. Nos dias de hoje, quem sabe, poderia se falar em uma certa similaridade entre Frankenstein e as manipulações genéticas que já são capazes de acontecer. Por acaso, Dolly, aquela ovelha clonada, não poderia ser uma espécie de Frankenstein?

O que Percy Shelley fez, e isso sem desmerecer a genialidade de Mary Shelley, foi apenas indicar caminhos e palavras que melhor cabiam no texto como, por exemplo, em vez de usa a palavra “belo”, usar a palavra “melhor” para caracterizar o ser que estava sendo criado. Ainda segundo o pesquisdor, ele chegou até mesmo a alterar certas passagens que considerava religiosas em demasia, visto manter vivo um certo anticristianismo. Na contagem final das palavras, cerca de 70 mil, Percy foi responsável por cerca de 8% desse total.

Sendo assim, minha senhora, até mesmo quando se trata de casos de terror, quando se compartilha com amor, a coisa fica muito melhor, não?

Veja a primeira versão cinematográfica de Frankenstein, filmado em 1910, nos estúdios de Thomas Edison.

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