Os filósofos da Antigüidade só pensavam naquilo

Pode parecer que não, mas não se espante com o fato de, entre as preocupações com o Universo, desvendar sentido da vida e as sutilezas da ética, gastavam neurônios pensando em sexo. E esse é o mote do livro “Sex and Sensuality in the Ancient World” (Sexo e Sensualidade no Mundo Antigo), de Giulia Sissa, no qual ela faz um relato de como, por exemplo, Platão encarava a ereção. Ele afirmava que o “pênis é uma besta rebelde, ansiosa e tirânica”. Que coisa mais estranha, não?(n.t.). Porém, para Aristóteles, uma ereção era algo tão normal quanto andar pra frente ou respirar; é uma coisa natural. Santo Agostinho não fez por menos. Carimbou a ereção, digamos, incontinente como um dos males que levam ao pecado original. Imagine se todos pensassem assim. Não sobraria um ser humano para contar a história.

Adoração a Priapo ₢ about.com

Quando falavam da mulher (que horrooor!)[1], eles não negligenciavam a sexualidade da ala feminina da nossa espécie, apenas diziam que o órgão sexual feminino era uma versão corrompida do órgão sexual masculino (barbaridade!)[2]. As mulheres são mais suaves e ficam úmidas. Segundo eles, havia uma espécie de pênis que ficava em seu colo e também ejaculavam, só que de forma diferente. Bem, a maioria dos escritores e filósofos da Antiguidade era misógina. Logo, parece que não havia conhecimento de causa para falar da mais bela criação da Natureza, a mulher.[3]

Ainda segundo Platão, quando falou do desejo, havia três sexos: Homem, Mulher e Andróginos. Esses andaram pisando na bola e foram extintos. Tentaram atacar os deuses e Zeus os varreu da face da Terra. Mas, ainda segundo essa idéia, em cada ser humano pulsa aquela vontade de novamente enfrentar os deuses. Entenderam? Pois é… estranho pra caramba[4].

A autora também faz uma relação entre penetração e poder, mesmo afirmando que até o século XIX, não havia armários.O que nos leva a lembrar da frase de Oscar Wilde, o tal do “amor que não ousa dizer o nome”, que foi escamoteado no amor platônico[5]. Voltando ao ato da penetração, ao homem foi dado o papel, digamos, de penetrar tudo que bem entendesse como, por exemplo, mulheres, crianças, cabras e árvores (Esta não é uma nota do tradutor. É a opinião da autora do livro). Ao mesmo tempo, o papel de submissão e passividade na relação não era o desempenhado pelo homem, que não se constituía num objeto de desejo caracterizado pela passividade. A penetração não envolvia romantismo. Era, na verdade um ato cercado de ações em detrimento do sentimento. Portanto, segundo a autora, não havia uma identidade definida separando heterossexualidade da homossexualidade. Diziam que o “verdadeiro homem” podia dormir com mulheres e rapazes, desde que não fosse penetrado.

Esses gregos eram muito estranhos mesmo, como diria Obelix se os conhecesse antes dos romanos. (n.t.)

A autora também cita a obra de Michel Foucault, a História da Sexualidade [6], que tenta entender as mudanças ocorridas na forma como é encarada a sexualidade, mesmo que possamos crer que na Antigüidade, o sexo era muito mais uma relação de poder, ao contrário da atual que coloca o amor em primeiro lugar.

Apesar do tom humorado que dei a este artigo, que é uma livre tradução da resenha que Mary Beard, do The Times, fez para esse livro, cabe lembrar que a autora faz uma análise da sexualidade e da sensualidade entre os gregos, romanos e os primórdios da era cristã. O seu grande trabalho é tentar entender, e separar, o prazer do desejo na Antiguidade e como cada homem e mulher lidava com o erotismo.


[1] Nota bem irônica do tradutor.

[2] Eles diziam… “Que horroooor!” revirando os olhinhos. Nota mais irônica ainda do tradutor.

[3] Nota do tradutor. A mulher foi a melhor coisa que Deus fez.

[4] Se você leu o Banquete, pode ser que tenha a mesma impressão que eu tive: um bando de enrustidos querendo saber se deveriam ou não soltar a franga.

[5] Sabe qual é a cura para o amor platônico? Uma trepada homérica. (n.t.)

[6] Michel Foucault morreu de Aids e deixou o quarto volume deste livro inacabado. (n.t.)

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7 comentários sobre “Os filósofos da Antigüidade só pensavam naquilo

  1. Ah, coitados!…
    Eu os imagino renascidos em nossa época e, com a sua licença, cometo a ousadia:

    Poderoso clitóris
    que ganha o mundo.
    Admirado por homens e mulheres,
    cada dia mais empinado,
    mais arrogante,
    mais instigante,
    mais sabido,
    sugado, chupado
    e querido, –
    mais amado que o falo,
    é o que dizem…

    Metam-se com a vagina,
    ou, se preferirem, com o ânus,
    que do contato com o clitóris
    ninguém entra ou sai impune.

    Talvez o órgão sexual feminino seja mesmo “uma versão corrupta”… rsrsrs
    Sempre bom te ler. Bjs, Jorge, e inté!

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  2. Que Horrooooooorrrrr,,,kkkkk
    Ainda bem que são tempos passados. rsrsrs
    Imaginou , dias de hj??kkkkkkkk
    Adorei a postagem querido amigo!
    Carinho de RO!

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  3. Grande lembrança, Jorge! Adélia é Adélia. Não o conhecia não. Gostaria muito de tê-lo escrito, mas não tenho talento para dizer tanto em tão poucas palavras.
    Quanto ao meu aí em cima, em verdade refere-se a uma crítica à cultura que, embora no terceiro milênio, subjuga a mulher a ponto de extirpar-lhe o clitóris. (A primeira parte dele também foi extirpada.) Bjs e inté!

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  4. Ju,

    Eu lembro de ter assistido a um ciclo de palestras proferidas por um antropólogo, quando fazia graduação, no qual foram apresentados temas relativos a cliterodictomia. É algo pavoroso e, infelizmente, ainda existe nos dias de hoje.

    bjs

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  5. Como sempre…gostei “pra caramba”, como vc gosta d falar. Mas o q eu amei mesmo foram as NOTAS DO TRADUTOR. Vc é ótimo, Jorge!rs

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