Elas tocavam seus pés descalços no chão

Subo a rua de paralelepípedos lentamente. Não preciso de pressa e o mormaço não anima o passo acelerado. Como sempre faço, sigo observando as minúcias da rua, como se tentasse absorver cada pedaço da memória de um tempo que este mesmo chão recebeu os passos e o caminhar de malandros, rufiões e prostitutas. De sambistas, poetas, escritores e cronistas. Se cada um dos paralelepípedos contasse a sua visão das histórias que vivenciaram ou que ouviram contar, transmitidas através das tramas encadeadas do calçamento, muito haveria para se resgatar.

As vi, duas, descendo a Ladeira de Santa Teresa. Trajavam um fato de cor marrom mais parecendo andrajos. Os rostos brancos como de alguém que não tem costume de tomar Sol regularmente. Lembrei-me rapidamente que logo acima, lá no topo da ladeira, fica o convento de Santa Teresa que pertence a Ordem das Carmelitas Descalças. Por isso seus pés descalços na rua transversal de paralelepípedos.

Eu já as vira na rua quando a atravessavam indo em direção à feira livre que fica depois da outra extremidade. E nesta extremidade da rua morou uma Carmem, a Miranda. Que engraçado isso… pois o convento e a Pequena Notável receberam o mesmo nome, que provém de Karmel, que deu Carmem, Carmina, Carmelita, Carmo…

Elas, são sempre duas, andavam em silêncio e puxavam um carrinho de feira. Certamente compraram legumes e verduras. Carne, eu não acredito que seja vermelha. Devem comer peixe ou galinha se depender das roupas que usam. O fato criado a partir de linhas cruas sem estética e carregadas de ética, eu suponho. Não sei por qual motivo me veio este pensamento associando vestimenta e alimentação.

As de hoje eram duas moças bonitas por volta dos 25 anos. O que as levou desejar uma vida de reclusão e ascetismo? Seus pés tocavam os paralelepípedos em silêncio. O que será que elas e seus pés descalços dizem ao mundo sobre suas vidas. Os pés descalços tocando um solo que não é sagrado e foi (ainda é) do pecado.

Ao passarem por mim não levantaram os olhos. Devem ter nas reentrâncias e relevos do calçamento uma espécie de mapa. Observo com mais acuidade e vejo que uma delas está tomando um sorvete. Ah, o prazer da carne e o pecado da gula na rua.

Mas uma pergunta não me sai da cabeça e gostaria muito de fazê-la a essas meninas: Por que, em pleno século XXI, elas preferiram levar uma vida de clausura?

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6 comentários sobre “Elas tocavam seus pés descalços no chão

  1. Jorge

    Creio que nunca experimentaram dos pecados da carne BEM FEITO ,pois se experimentassem a fruta.
    Não ficariam descalças e sim nuas…….

    Com todo respeito!

    🙂

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  2. Ola Jorge Alberto.

    Quis vir aqui agradecer-te pessoalmente pelo comentario ao meu Guest Post no Fique-Rico.

    É bom saber que podemos contar com outros colegas e amigos destas “andanças” .

    Também é igualmente gratificante agradecer e ajudar na manutenção e promoção dos blogues dos outros bem como do nosso blogue e de todos os que contribuem para a evolução do mesmo.

    Acho que a interacção entre bloggeiros ainda não está como deveria estar, no entanto já se vê algumas mentalidades a mudar e começa a ver-se os primeiros sinais de entre-ajuda entre colegas da profissão, o que a meu ver, só pode trazer coisas boas.

    Além disso, gosto de contribuir para a “comunidade” e adoro ver esse espirito de entre-ajuda entre nós, colegas.

    Votos de sucesso para ti e para o teu blog. Um grande abraço colega e amigo.

    Artur Ferreira,

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  3. Mas é isso mesmo, Elisabete. Temos a capacidade da escolha. Há pessoas que escolhem uma vida monástica e outras uma vida, digamos, normal.
    É estranho, eu sei, ver que algumas pessoas renunciam ao que a vida tem de melhor a nos oferecer. 🙂

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  4. Artur,

    Concordo plenamente com suas palavras. O principal objetivo é a interação entre as pessoas. Concebo desta forma a chamada blogosfera.

    Logicamente que, como em qualquer agrupamento social, há o joio e o trigo. Temos apenas que saber como filtrar. O restante é conseqüência (ainda com trema).

    Um abraço.

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  5. Mas são realmente os prazeres o que a vida tem de melhor a nos oferecer, ou são justamento eles, ou o apego a eles, a causa de de todos os nossos sofrimentos e angústias? Porque os prazeres são passageiros… quando elas renegam alguns deles, elas de certa forma se libertam. Sofremos porque perdemos, mas perdemos o que? Será que realmente um dia possuímos?

    Muito bom o blog!
    []’s

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  6. “Mas uma pergunta não me sai da cabeça e gostaria muito de fazê-la a essas meninas: Por que, em pleno século XXI, elas preferiram levar uma vida de clausura?” Acho que é só para andar descalço. Abrs

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