A Noite de Mil Anos e a Evolução da Tecnologia

Em qual momento da evolução tecnológica a humanidade estaria se não houvesse a Noite de Mil Anos, como passou a ser conhecida a Idade Média? Não sabemos e talvez não tenhamos noção, pois os fatos científicos realmente só passaram a ser melhor divulgados com a invenção, no mundo ocidental, da imprensa e, assim, mais pessoas tiveram acesso ao conhecimento.

Vale lembrar que antes havia a Biblioteca de Alexandria que, ao ser organizada, foi pensada como um repositório de todo conhecimento da humanidade. Porém, infelizmente, foi consumida pelo fogo e cerca de 90% dos livros (papiros) que lá estavam perderam-se para sempre.

Biblioteca de Alexandria

Desde os primórdios da Civilização que buscamos guardar, como se fosse uma reserva intelectual, o conhecimento adquirido até então, em locais específicos denominados bibliotecas[1]. Muitas existiram além da mais famosa, já citada neste artigo. Cada um de nós pode, e deve, ser um bibliotecário.

No curso de nossas vidas compramos ou ganhamos alguns livros e os guardamos em casa. Para muitos de nós é apenas a guarda de livros que gostamos e foram enriquecendo nosso espírito. Biblioteca[2] para alguns é sinal de poder e símbolo de status. Isto é comprovável pela simples visão de um filme em que um bacana mostra sua biblioteca para alguém. Até mesmo pessoas que não são tão ligadas aos livros e a leitura encomendam bibliotecas de fachada, que podem feitas de diversos materiais como resina, madeira, plástico ou qualquer outro que seja moldável e imite lombadas de livros caprichosamente encadernados. Há alguns anos, um empresário do ramo textil que fez sucesso vendendo calças jeans, cuja marca era o nome de uma cidade francesa, concedeu uma entrevista a um jornal mostrando sua biblioteca fake. Foi muito engraçado ler suas palavras explicando os motivos de querer mostrar conhecimento por ter tantos “livros” tão bonitos. Coisa brega pra caramba, esta é a verdade.

Mecanismo de Anticítera1Mecanismo de Anticítera2

Mas, voltando ao assunto em questão, que é a evolução tecnológica, ao ler um artigo sobre a decifração das palavras contidas numa engrenagem, uma máquina ou um computador denominado Mecanismo de Anticítera, que remonta à Grécia Antiga – por volta do século II a.C. -, descoberta em 1901, e que lembra os mecanismos de um relógio, o que de fato era, pois marcava datas como os jogos olímpicos e previsão de eclipses e parece ter sido elaborada a partir das idéias de Arquimedes, me dei conta que importância da ciência e da tecnologia na Antiguidade era tamanha, que alguns pesquisadores sugerem a pesquisa e o estudo da Inteligência Artificial[3] já tenham sido citadas na Ilíada, como no texto a seguir:

De fato, a construção de “máquinas” para auxílio do homem nas suas atividades, surge pela primeira vez em Homero, na Ilíada (canto XVIII), onde eram descritas as trípodes, criadas por Hephaistos, Deus do fogo, que tinham nos seus pés umas rodinhas de ouro, sobre as quais, por si mesmo, e por seu alvítrio, podiam girar na sala (…) mui bem mandadas” e as “servas da casa (…) artefatos, e todas de ouro, e muito semelhantes às meninas que vivem realmente (…) que aprenderam com os deuses o que é preciso e o fazem com perfeição.

O esfacelamento do Império Romano e a conseqüente aglutinação de três vertentes culturais, a romana, a cristã e a dos bárbaros (aqui o termo é usado de forma generalizante, pois vários eram os povos tidos como bárbaros), deu origem a não apenas uma nova ordem social e política como também a uma nova ordem cultural. Tendo a Igreja Católica como condutora, pois foi a única instituição a manter-se de pé, e por isso mesmo, criou um tipo de cristianismo que a faria manter o poder das decisões terrenas, tendo por base a “palavra divina” como sua fidedigna representante. Concluímos, portanto, que, se uma instituição é governada por homens e estes tem interesse em perpetuar seu status quo e poder, logicamente a farão de mantenedora destes mesmos privilégios e por qual motivo não a fariam cada vez mais penetrante nos corações e mentes. Então, com o passar dos séculos, aquilo que não estaria de acordo com os preceitos, ou seria uma heresia ou seria coisa do demônio. Quantos avanços científicos e tecnológicos além da charrua, do estribo e da rotação trienal sucumbiram aos ditames da religião? Quantos, como Giordano Bruno foram queimados em fogueiras? Quantos como Galileu foram silenciados pela força?

A mudança só ocorreu com a chegada de novos tempos. Para isso foram necessários um Renascimento, uma Revolução Científica, O Racionalismo, o Humanismo, os Descobrimentos, o Novo Mundo e seus habitantes e a mudança da percepção do Ser Humano em relação ao Divino. Descartes afirmara que Deus ex machina, o motor do princípio, mas ao mesmo tempo fez da razão o mote da consciência e da Ciência: Cogito, ergo sum (Penso, logo existo). E por pensar, criar, experimentar foi que chegamos aqui, mesmo que aos trancos e barrancos; com marchas e contramarchas; como a atual disputa entre Criacionismo X Evolução. Sinceramente, e esta é a minha opinião, é um pouco demais os criacionistas quererem explicar, por exemplo, as longuíssimas eras geológicas através de seus parcos conhecimentos advindos de textos que, nem ao menos sabemos ser manipulados. Hoje, por exemplo, correntes religiosas vêem como erro a pesquisa com células tronco. E, apesar de toda mídia e ainda não terem descoberto a cura da AIDS, insistem em dizer que não se deve fazer sexo usando preservativos. Incrível é o medo de ver o rebanho diminuir.

Em outro artigo, intitulado “Que Obra de Arte é o Homem“, apresentei um texto em que era discutida, em Cambridge e Oxford, no século XVII, a data da criação do Homem. A única dúvida era o mês, pois ninguém duvidava que fora há cerca de apenas 4 mil anos. O Ocidente estava tão atrasado em termos filosóficos e tecnológicos que nem mesmo o algarismo zero era conhecido até o século XI. Foram os árabes que os apresentaram ao conceito do nada. Uma baita mudança de mentalidade, não? Isto para não falar da geometria, filosofia e outras áreas do conhecimento.

Portanto, sinto-me no direito de perguntar mais uma vez: Em que nível de evolução tecnológica e científica estaríamos hoje?


[1] A história e os vários tipos de bibliotecas, no site NotíciasBR.

[2] Artigo Biblioteca: Lugar perigoso para um livro, no blog Assinado Tradutores.

[3] Inteligência Artificial desde a Antiguidade e Ciências Cognitivas.

——
Leia também os artigos:
Experiência Decisiva
Uma Breve História da Evolução: 150 anos da Teoria da Seleção Natural
Livros de Divulgação Científica Podem Ser Legíveis
Rio de Janeiro, um pólo científico
Física das Partículas em Cartazes nas Escolas
Ciência Para Ouvir. Vale a pena!
Espectro de Darwin

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3 comentários sobre “A Noite de Mil Anos e a Evolução da Tecnologia

  1. Excelente texto, Jorge Alberto.

    Infelizmente não é possível responder a tua questão porque aquilo que foi já não é, portanto perdemos o referencial de uma época, mas tua proposta de reflexão nos aventura por ambos os caminhos na tentativa de reconstruir uma história a partir de uma provocação filosófica.

    Apenas para acrescentar, até hoje questionamos em rodas filosóficas se ao afirmar a existência de Deus em seu Discurso do Método, Descartes não estaria apenas despistando a igreja para que sua obra fosse publicada. Todavia é graças as suas artimanhas retóricas que Descartes inaugurou o período da modernidade.

    Abraços

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  2. Tem toda razão, Evandro. Mas seria muito interessante podermos imaginar em que ponto estaríamos se houvesse uma continuidade tecnológica e científica.

    Abraços

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