O jogo só vai acabar quando o meu time empatar

Brazil, Land of Soccer © Fabio Polenghi/Corbis

Lendo um artigo sobre um árbitro de futebol que anulou um gol de pênalti, o que é impossível, mas aconteceu, eu me lembrei dos tempos de adolescente quando na rua em que eu morava jogávamos futebol num campinho de pelada.

Antigamente, campo de pelada existia aos montes e nas proximidades onde eu morei havia vários. Um deles era em declive. Não dá pra acreditar, certo? Mas era assim mesmo. O time que jogava pra baixo tinha uma certa vantagem e seus ataques eram mais velozes e o que jogava para cima demorava para chegar ao gol adversário, mas mesmo assim nas tardes de domingo as peladas eram bastante disputadas.

O campo onde nós jogávamos era conhecido como o Campo do Toco. Uma árvore velha foi queimada – alguns dizem por um raio – só que foi porque já estava velha e podre mesmo. O tronco virou um banco que ficava na lateral e ali cabiam uns quatro ou cinco “torcedores”. Até que nosso time era bom. Eu jogava na defesa e só sabia chutar de bico. Logo, eu tinha tudo para ser um zagueiro botinudo.

Certa vez, fomos convidados para jogar num bairro distante, tanto que era preciso tomar trem, fazer baldeação e tomar um ônibus para chegar lá. Éramos um bando de adolescentes entre quatorze e dezessete anos indo jogar futebol num lugar que nem conhecíamos.

Algazarra e gargalhadas em quantidades generosas até que, ao tomarmos o ônibus, isto já na parte final da aventura de ida, a cada parada num ponto, o Mario, que jogava bem pra caramba, mas em sua boca o time estava desfalcado dos atacantes, digo, incisivos e mantinha apenas os dois pontas bem abertos, quer dizer, apenas os caninos apareciam quando ela sorria, resolvia mexer com as meninas que por ventura estivessem esperando a condução. Numa dessas paradas ele fez psiu! e aquele silvo que é produzido quando os lábios se unem e puxamos o ar. Mais ou menos parecido com a forma que o condutor de uma charrete faz para o cavalo começar a andar.

Ele fez isto para duas meninas e… sorriu!  As meninas viram o sorriso desfalcado e prontamente fizeram um sinal passando o indicador pelos dentes e depois o sinal de não com o mesmo indicador. Deram uma gargalhada em seguida e nós as seguimos nesta gargalhada. Até chegarmos ao campo do adversário, o Mario não sorriu mais e nem mexeu com ninguém.

Chegamos, trocamos de roupa e vestimos o uniforme. Apenas um calção e uma camiseta de malha. Um dos caras do time adversário, e que fizera o convite, foi até nós e foi logo avisando que o time dele estava invicto a várias partidas. Não demos bola. Nosso negócio era jogar bola.

A nossa escalação e mais a “comissão técnica” era uma festa de apelidos. A nossa comissão técnica era composta por um único profissional, que também era o nosso goleiro, o Aqui-tá-raso-aqui-tá-fundo. Ele tinha uma perna menor que a outra. Agora, parte da escalação do selecionado do Toco Futebol Clube: Nando Cebolinha, pois falava igual ao personagem dos quadrinhos, trocando as letras. Além dele, Ratinho, seu primo, que parecia um ratinho mesmo. Jacaré, Codorna e Pe(eeee)dro. A vogal “e” deveria ser dita com a voz rouca, imitando a da sua avó, quando o chamava diariamente ao fim da tarde para ir tomar banho. Todos esses foram da minha sala na escola. Estudamos juntos da 3ª. a 8ª. Séries. Outros que completavam o scretch eram Bigu, Sarará, Zé Maluco, Mario (banguela) e Tico. Havia outros craques como Maurício Cabeludo e o Sérgio Três por mil, isso porque diziam que ele vendia cuecas na feira usando o seguinte bordão: “É TRÊS POR MIL! É TRÊS POR MIL! Vai levar pro maridão, freguesa?” Abreviamos o apelido para Cueca mesmo.

Terminamos o primeiro tempo com o placar favorável de 2 x 0. E o segundo tempo foi moleza. Os caras só levando vareio de bola. E como jogador brasileiro que se preza, prefere dar olé a fazer mais gols, ficamos tocando bola e fazendo firulas. Ora, os caras não perdiam jogos há não sei quanto tempo, certo? 

Não posso precisar em que altura do jogo estávamos, mas deveria faltar uns dez minutos para acabar quando o “técnico” do time adversário se levanta do banco, ou melhor, do barranco que ficava na lateral e grita para todo mundo ouvir:

O JOGO SÓ VAI ACABÁ QUANO O MEU TIME IMPATÁ!!!

Imagine que você está num lugar em que não conhece ninguém, o campo está cercado pela torcida adversária, o time dos caras perdendo, prestes a deixar para trás a suposta invencibilidade e você ouve uma frase como essa? O que você faria? Sim, isso mesmo. Você deixaria os caras empatarem, pois ninguém ali estava afim de levar uns cascudos só porque vencera um jogo.

Sabe qual foi o placar? Não?!… 3 x 2 para os caras. Tomamos três gols em dez minutos.

Agora dá pra você entender, ou tentar entender, os motivos que levam um juiz de futebol a inventar uma regra que é capaz de anular um gol de pênalti.

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