Músicas Brasileiras, Latino-Americanas e os Gringos

Você talvez não imagine, mas os Beatles gravaram bolero. Os Rolling Stones e os Talking Heads, cada qual, usaram ponto de macumba nos arranjos de uma de suas músicas mais famosas, além do fato dos gringos sempre aparecem por aqui para beber na fonte e reinventarem sua música.

Foi pensando nisso e lembrando de outras músicas decidi organizar uma coletânea musical, que considero um passeio pelo mundo da música de origem latino-americana, que traz músicas gravadas, compostas ou arranjadas por gringos e que contenham pitadas latinas. São 18 gravações que você pode ouvir no Recanto das Palavras Galeria. Será aberta uma nova janela e você poderá continuar lendo aqui. Espero que gostem. Se tiverem sugestões e críticas, será melhor ainda.

Recanto das Palavras Galeria

 
Clique sobre a imagem para ouvir as Músicas

Também preferi fazer uma divisão tendo por base o aspecto geocultural da América Latina, cuja fronteira fica mais ao Norte, justamente no Rio Grande, o curso de água que separa o México dos Estados Unidos, marcando, assim, uma fronteira cultural, social, política e econômica em vez da divisão em hemisférios Norte e Sul.

Brasil

O Brasil inicia a série com a gravação de Garota de Ipanema por Frank Sinatra, tendo Tom Jobim no violão, acompanhando e cantando em Português na parte final. Eu preferi esta à gravação feita por João Gilberto, Astrud Gilberto e Stan Getz.

Em seguida, um quase samba-canção, a música Happy Man, do conjunto Chicago que à época, início dos anos 70, contava com o percusionista brasileiro Laudir de Oliveira em sua formação e que sugeriu um molho diferente para esta composição de Peter Cetera.

rollistoneshotrocks

Em 1968, Mick Jagger veio ao Brasil passar férias e tomou conhecimento de nossa cultura. Foi levado a vários lugares, inclusive a terreiros de Candomblé. Achou interessante usar atabaques na gravação de Sympathy For The Devil. Pode-se perceber no início da música sons que provavelmente ouviu quando das visitas aos terreiros.

O escocês radicado em New York, David Byrne, líder do grupo Talking Heads, parece ter um caso de paixão com a música brasileira. Levou para o exterior a cantora Margarete Menezes, repaginou o Tom Zé, produziu músicas do Jorge Ben e deu um mergulho profundo em nossas raízes religiosas africanas. No filme True Stories, dirigido por ele, há uma cena que um pai de santo faz um “trabalho” para que uma mulher consiga se casar. A música de fundo é Papa Legba[1]. Ele faz uma mistureba, onde se vê a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, um alguidar, velas de sete dias e parte da “oração” tem uma frase em espanhol: “Rompiendo la monotonia del tiempo”.

Nos anos 90, quando foi gravado o CD Red Hot + Blue, contendo regravações das músicas do compositor Cole Porter com intuito de angariar fundos na luta contra a Aids, ele fez um arranjo calcado no Samba para Don´t Fence Me In [2].

Não poderia faltar a música Aquarela do Brasil, que é a música brasileira mais apreciada no exterior. Achei uma gravação com o jazzista Chick Corea. Tenho certeza que esta gravação será apreciada, pois há um toque de chorinho pelo bandolim que faz parte do arranjo.

Como o produtor e trompetista Quincy Jones vem para o Carnaval desde a década de 50, ele logicamente bebeu na fonte para criar Soul Bossa Nova. Tem cuíca, tamborim, pífano. Tudo misturado no estilo do swing das Big Bands, com naipe de metais bem característico e bossanovista no balanço.

E se você achava que Chorinho e Be Bop não tinham qualquer ligação musical, pode parar de pensar assim: Charlie Parker gravou Tico Tico no Fubá.

México e Caribe

Nesta região da América Latina temos ritmos como salsa, rumba e bolero entre outros. Os dois primeiros ficam para as ilhas do Caribe e o bolero para o México, país de origem deste ritmo, mesmo que outros países latino-americanos, como o Chile, também possam ser incluídos.

besamemucho1

O mais famoso bolero de todos os tempos é Bésame Mucho, que causou até queda de Ministro da Justiça e Ministra da Economia no Brasil. A gravação é dos Beatles em Inglês. Muito interessante mesmo. Dentre os inúmeros boleros também famosos, uma das gravações mais bacanas que encontrei foi Quizás, Quizás, Quizás com Nat King Cole. Apesar da belíssima voz, dá pra perceber um certo esforço para driblar o sotaque ao cantar em espanhol. Não poderia faltar o bolero Adíos na gravação do Glenn Miller e sua Big Band. Numa levada totalmente jazzística, o pianista Ahmad Jamal reinventa mais um bolero, Perfídia.

Stevie Wonder que não é bobo e enxerga longe, andou gravando umas músicas com toques de salsa como Don’t You Worry ´Bout A Thing. Ainda na linha da salsa, agora mais suave, temos a excelente Samba Pa Ti, que conta com a participação do Carlos Santana, o autor, acompanhando na guitrra, ao fundo, o violão de Ottmar Liebert.

A salsa definitiva, Tequila, é aqui adoçada pelo genial guitarrista de jazz Wes Montgomery.

Andes

Da região originária de um dos maiores impérios que o mundo já conheceu, o Império Inca, Paul Simon e Art Garfunkel gravaram, em inglês, El Cóndor Pasa que hoje é patrimônio cultural peruano, pois ao que parece antes de ser aproveitada em uma peça teatral homônima, foi recolhida (composta) por dois peruanos no século XX.

George_Benson_G_Bad_Benson

E pra finalizar, uma composição do guitarrista de Jazz, George Benson, muito antes de virar cantor pop e fazer plástica no nariz, chamada My Latin Brother.

Breve nota sobre as músicas brasileira, latino-americana e norte-americana

instumentosafricanos

Desde que fomos descobertos e colonizados pelos povos ibéricos, que dentre as várias mazelas provenientes deste processo, podemos tirar algumas coisas muito interessantes e formadoras da cultura dos vários países que se encontram abaixo do Rio Grande.

A mistura de povos africanos, nativos e europeus nos permitiu o sincretismo religioso. A título de exemplo, temos no Brasil o Candomblé e em Cuba a Santeria, cujos orixás e rituais são muito próximos. Afinal, a mão-de-obra escrava era basicamente a mesma, vinda dos mesmos lugares da África. E este mesmo sincretismo não impediu, ao contrário do que aconteceu nas regiões colonizadas por protestantes, o uso de instrumentos musicais de origem africana como atabaques e demais instrumentos de percussão, que passaram do terreno mítico/religioso para o cotidiano nas festas populares como o Carnaval. Em se tratando de colonização de base religiosa protestante, como nos Estados Unidos, é interessante notar que o sincretismo se deu justamente na área colonizada tendo como base religiosa o catolicismo, a região da Lousiana [3], que foi comprada aos franceses pelos norte-americanos em 1803. New Orleans era um dos portos de entrada dos escravos vindos do Caribe e trocados por algodão, por exemplo, naquele famoso comércio triangular praticado pelos colonizadores. Por este motivo, é possível encontrar manifestações religiosas de origem africana e também festas populares como o Mardi Gras, a nossa Terça-Feira Gorda, em que há grupos que se assemelham muito aos ranchos, agremiações que originaram os blocos carnavalescos e escolas de samba [4].

É fato que não foi permitido aos negros reverenciarem seus deuses nas Plantations e muito menos utilizarem seus instrumentos musicais. Tudo isso para que fosse abafada qualquer tentativa de união contra a sua situação de escravos. Portanto, foram sendo convertidos a várias vertentes do protestantismo como, por exemplo, a Igreja Batista. Gradativamente, nos cultos desta nova religião foram adaptando suas expressões culturais ancestrais, em alguns casos esquecendo as origens e absorvendo mais e mais os conceitos da religião de base judaico-cristã. Esta adaptação também envolveu os instrumentos musicais e a estrutura da música em si, quando introduziram a blue note, aquela nota musical que não havia na escala européia e que é a base do blues e do jazz. Não se pode negar a influência destes estilos musicais na cultura do século XX e certamente perdurará até a eternidade.

Então, como hoje o mundo é globalizado, se bem que este conceito remonte a alguns milhares de anos, desde que as primeiras trirremes fenícias singraram o Mediterrâneo, a música não tem mais fronteiras e os irmãos da parte de cima da citada fronteira, não importando a cor da pele, sentem a saudade ancestral das florestas e savanas africanas e vêm aqui, na parte de baixo do Equador, buscar inspiração para reinventarem sua música e dar aquele molho que sentem que está faltando. E como aqui a mistura foi total e ainda vem acontecendo, eles se deliciam ouvindo música andina, bolero, tango, samba, salsa, rumba e tudo mais que seja reconhecido por eles como latino.


[1] Veja o vídeo no Youtube.

[2] Veja o vídeo no Youtube.

[3] Nome dado em homenagem ao Rei Luís XIV (1643-1715)

[4] Leia o artigo Carnaval pelo mundo: Krewe of Oshun no Mardi Gras de New Orleans

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13 comentários sobre “Músicas Brasileiras, Latino-Americanas e os Gringos

  1. Jorge:

    Genial! O tema é fantástico e você foi extremamente feliz na forma como o desenvolveu. A seleção musical também é incrível. Gostei demais! Parabéns!

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  2. Lúcia,

    Obrigado. Estas músicas fizeram parte, dentre as inúmeras que ouvia lá em casa, da minha formação. Só achei legal buscar versões diferentes para não cair na mesmice, digamos.

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  3. Cara este artigo está muito bom. Esta eu naõ sabia. cara que coisa. valeu Obrigado por este teu empenho pela informação correta. E parabens por sua dedicação ao blog. Que por sinal é meu point de cultural. valeu joaomaria

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  4. Parabéns!!!!!

    Alias esse tema foi muito oportuno e de muito bom gosto. Isso é algo que acontece em todo o planeta e são poucos que se dão ao luxo de procurar “raizes” em tudo o que fazem e não simplesmente admitir que é assim porque é assim.
    No aspecto cultural o Brasil é impar pois reune diversas culturas e as misturou de uma maneira muito homogênea não só na música.
    Que bom seira se essa geração se interessasse por suas raízes e pela historia e menos pela televisão e atualidades o mundo seria muito melhor.

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  5. Oi Jorge!

    Minha contribuição tinha que ser daqui do outro lado do planeta.
    No Japão também tem uma banda de Okinawa que já se encantou com o ritmo brasileiro!!
    O nome da banda é The Boom, e fez sucesso com a música Shima-Uta, uma balada de rock com ritmo de Okinawa. Vieram fazer uma apresentação em São Paulo e depois disso as músicas deles passaram a ter um toque brasileiro.
    Aqui vai o link com a dicografia deles. Vá olhando a lista, que vai aparecer um album chamado “Samba do Extremo Oriente”, e outro chamado “Tropicalism-o”.

    http://www.five-d.co.jp/boom/discs/album/index.html

    abraços do oriente.

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  6. Marcia,

    Que barato!!! Acabei de ouvir duas músicas dos caras, uma em cada álbum. Bossa Nova e um lance meio Olodum. Bacana mesmo.

    E cantam em Português, com um característico sotaque japonês.

    Abraços cariocas.

    ps. O inverno daqui está dando praia. Será o aquecimento global? 🙂

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  7. Jcegobrian,

    A música realmente é um ponto de união entre os povos, mesmo que alguns tenham pruridos como você bem relatou.

    A nossa diversidade rítmica e musical é inigualável mesmo e isto é dito sem qualquer intuito “patrioteiro”. É uma constatação.

    Um grande abraço.

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  8. Texto belo e esclarecedor. A coletênea ficou maravilhosa…Adoro música e com uma história bem contatada, fica muito mais legal!!! Vc é demais!

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