O cabelo como símbolo de poder e beleza

Há muito tempo, durante uma aula sobre os motivos da escravidão no Brasil, eu fiz uma pergunta a um grupo de alunas que usavam alisantes nos cabelos. Elas se entreolharam e os alunos riram. Fiquei chateado pelo riso e os mandei parar com isso. Se alguém novamente soltasse um riso, eu disse que tiraria um ponto da média naquele bimestre.

Pode ser que eu tenha sido duro ou objetivo demais; porém, eu pretendia mostrar que estavam enganadas em relação a si mesmas como pessoas. Mas como surgiu esta pergunta que fiz? Foi por ter escutado alguém sussurrar que “a fulana tem cabelo ruim”. E aí fiquei me perguntando o que seria cabelo ruim. Foi quando me dei conta que também ouvira esta frase várias vezes quando alguém queria designar que outra pessoa, ou ela mesma, pertenceria a um outro grupo que não aquele considerado padrão de beleza estética. Assim, do nada, no meio da aula eu pergunto:

– Por qual motivo vocês passam henê no cabelo?
[pausa um tanto longa e olhares de espanto]

Refiz a pergunta mais duas vezes até que uma menina, após este método maiêutico  de pressão (chatíssimo, e que levou Sócrates a tomar cicuta), resolveu responder como se fosse uma espécie de defesa.

– Ora, professor, eu uso…

Então se seguiu o diálogo:

– Mas por que você usa?
– Eu uso!
– Mas me diga o que te faz querer usar este produto no cabelo?
– Professor, eu uso! (já se alterando)
– Então me diga…
– Professor, é o seguinte: se eu passar henê eles me chamam de morena. Se eu não passar henê eles me chamam de neguinha.

Após ouvir isto eu fiquei sem argumentos. A coisa era muito mais arraigada do que eu poderia imaginar. Há uma classificação étnico-cultural por conta do cabelo ser crespo, encaracolado ou liso. A cor da pele, se é que podemos considerar gradações de cor do tecido epitelial como sendo fator de classificação social, poderia ser determinada pelo tipo de cabelo. Perguntei-me se valeria a pena explicar o motivo da cor da pele ser negra, branca ou amarela. Não imaginei nem ao menos falar sobre melanina, meio ambiente, clima e demais fatores que, no processo da Evolução levaram a mutações genéticas desde que os primeiros grupos de homo sapiens saíram da África para ocupar outros continentes. Acabei deixando a coisa de lado. Pode ter sido um erro meu.

O cabelo e o simbolismo utilizados por todas as etnias levam a algumas considerações históricas muito interessantes Vejamos apenas algumas para não tornar este artigo muito extenso e a leitura não virar uma situação cabeluda.

O caso clássico de simbologia, amor e poder é o de Sansão e sua amante-algoz, Dalila. Por sinal, assista o filme épico Sansão e Dalila, mas não vale rir da canastrice do Victor Mature (Sansão) ; entretanto, você tem todo direito de admirar a beleza de Hedy Lamarr, que interpreta Dalila. Notem que a coisa não é apenas romântica, mas é também uma história de lutas inter-étnicas. Ambos personagens são semitas, só que um torcia por Deus F.C e a outra por Deuses F.C., quer dizer, Sansão era judeu e Dalila filistéia (leia-se palestina). Sabem onde Sansão morava? Não?!?! Na faixa de Gaza que era governada à época pelos filisteus (leia-se palestinos). Interessante, não?

Quando surgia um astro errante no escuro céu da península balcânica, vindo com seu longo rastro de gelo derretido (e derretendo), percorrendo sua órbita em torno do Sol e parecendo uma cauda, os gregos apontavam para o céu e gritavam KOMETA! KOMETA! KOMETA! (Tecla SAP: CABELEIRA! CABELEIRA! CABELEIRA!)

Cada cultura e cada etnia têm seus padrões estéticos e isto não quer dizer que uma seja melhor que a outra. São apenas diferentes. Porém, dentro de cada uma destas culturas e etnias também há os transgressores, digamos, que vêem no corte ou uso de um determinado tipo de padrão capilar, uma forma de se mostrar contrário a esta ou aquela forma de ser social, como se fosse também um protesto; além de ser uma forma de simbolizar um grupo social. Por exemplo, o tipo de cabelo à la rastafari é quase uma identidade jamaicana ou dos seguidores de Jah. Vide Bob Marley.

Na década de 1960, a da contra cultura e do faça amor não faça guerra; prosseguindo pela década de 1970, cabelos compridos entre os caucasianos e black power, entre os negros demonstravam que eles não gostavam nem um pouco daquela então atual ordem social e mundial.  Tanto que um dos maiores sucessos na Broadway nesta época foi o musical chamado Hair. Nos anos 80, os punks resolveram transformar a sua ira à sociedade em cabelos com cores berrantes e formatos que lembravam a coroa de raios da Estátua da Liberdade; além de repaginarem o corte ao estilo ameríndio moicano na seu outdoor ambulante dizendo: Ó, eu não gosto de vocês, seus bobos. Vide Bob Cuspe logo acima.

Após a vitória dos Aliados na II Grande Guerra, as mulheres que se uniram aos nazistas, em especial na França e na Itália, foram execradas em praça pública tendo seus cabelos picotados de forma irregular para mostrar a elas e aos outros que cometeram um ato contrário ao restante da população dominada pelo inimigo derrotado. Vide o filme Malena.

Dizem que é dos carecas que elas gostam mais. O que a maioria das pessoas não sabe é que a letra desta música tem duplo sentido, ou pelo menos, o tal careca adorado por 9 entre 10 mulheres.

Entrando no campo da música popular brasileira Lamartine Babo já dizia que “o teu cabelo na nega, mulata”. Gilberto Gil veio com o Sarará Miolo.

sara, sara, sara, sarará
sara, sara, sara, sarará
sarará miolo

sara, sara, sara cura
dessa doença de branco
sara, sara, sara cura
dessa doença de branco
de querer cabelo liso
já tendo cabelo louro
cabelo duro é preciso
que é para ser você, crioulo

Eduardo Dusek atacou de “Eu quero seus cabelos negros em minhas mãos”, e numa outra marchinha de carnaval dos tempos em que ser cabeludo colocava em dúvida a masculinidade, perguntavam se o Zezé é (viado) e deviam prestar atenção a sua cabeleira.

Os cabelos são tão importantes que até mesmo na Inglaterra dos Lords, os que usavam perucas brancas e curtas à moda D. João Charuto eram alcunhados de wigs, os bambambãs do Parlamento.

Em sinal de respeito às lides religiosas, no candomblé raspa-se o cabelo de quem bolou para seu orixá de cabeça.

Luís XIV, o Rei Sol, aquele mesmo que só tomou dois banhos em vida, ao se perceber calvo pediu que seus toucadores lhe fizessem uma peruca e isto virou moda. Toda corte passou a usar e a moda espalhou-se pelo mundo. Conta-se que tudo se deu por causa de um surto de piolhos que infestou a corte em Versalhes.

Alguns ameríndios cortavam o couro cabeludo dos colonos que invadiam suas terras, o famoso escalpo. Outros povos, por exemplo, os medos, leia-se Persas, cortavam orelhas e pênis dos cadáveres dos inimigos derrotados.

Sem qualquer crítica a coiffeurs e hair stylists mundo afora e que cobram os olhos da cara para dar umas tesouradas nos cabelos das senhoras, senhoritas e moçoilas; acho meio boboca os caras falarem que o look tem que ser fashion. Por isso finalizo este artigo com um antigo anúncio de xampu que marcou época na TV Brasileira.

ps. Cor e tipo de cabelo, assim como cor de pele, não conferem sabedoria ou superioridade, ignorância ou subserviência.

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9 comentários sobre “O cabelo como símbolo de poder e beleza

  1. Mininu!
    Como sempre vc arrazou!!!!!!!!
    Infelizmente o preconceito ainda reina.
    Mas como dizem, ninguem está satisfeito consigo mesmo e tentam mudar, onde, (no meu pensar), deveriam mudar mesmo é o modo de pensar e agir.

    Parabéns querido!
    Carinho de RO!

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  2. OI JOrge!!!

    Eu lembro desse comercial!!! eu lembro!

    Não uso Colorama, mas a minha cabeleira vem até o joelho, pq sou evangelica!
    hihihi

    abração

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  3. já dizia ary barroso:

    “nega do cabelo duro,
    qual é o pente que te penteia?
    qual é o pente que te penteia?
    qual é o pente que te penteia, nega?”

    música de david nasser, imortalizada por elis regina em

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  4. minhas irmãs usaram o “ferro de espichar cabelo” atualmente a famosa chapinha, até a adolescencia eu usava a trança nagô e desembaraçava o cabelo com a baba da folha de babosa, não resistir a pressão da midia e colegas de classe e usei o tal alisante um desastre quimico num cabelo natural…Recuperei meus cabelos e minha identidade etnica.Abraços

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  5. Ahhh…senti vontade de ouvir na voz da Gal Costa e compartilhar com vc os versos de Jorge Ben Jor e Arnaldo Antunes

    CABELO

    “Cabelo, cabeleira, cabeluda, descabelada
    Cabelo, cabeleira, cabeluda, descabelada
    Quem disse que cabelo não sente
    Quem disse que cabelo não gosta de pente
    Cabelo quando cresce é tempo
    Cabelo embaraçado é vento
    Cabelo vem lá de dentro
    Cabelo é como pensamento
    Quem pensa que cabelo é mato
    Quem pensa que cabelo é pasto
    Cabelo com orgulho é crina
    Cilindros de espessura fina
    Cabelo quer ficar pra cima
    Laquê, fixador, gomalina
    Cabelo, cabeleira, cabeluda, descabelada
    Cabelo, cabeleira, cabeluda, descabelada
    Quem quer a força de Sansão
    Quem quer a juba de leão
    Cabelo pode ser cortado
    Cabelo pode ser comprido
    Cabelo pode ser trançado
    Cabelo pode ser tingido
    Aparado ou escovado
    Descolorido, descabelado
    Cabelo pode ser bonito
    Cruzado, seco ou molhado”

    Como sempre…valeu a passadinha por aqui no fim de mais um domingo!!!

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  6. Caro Jorge,

    Parabens por este artigo! Estou fazendo uma pesquisa sobre o cabelo para uma monografia e me deparei com este seu texto. Gostei muito, voce levanta questoes bem interessantes que sempre devemos ter em mente.

    caso voce tenha algum outro texto neste tema que possa me ajudar ficaria muito grata.

    atenciosamente,

    Nila Costa

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  7. Nila,

    Obrigado pelas palavras.

    Especificamente sobre o assunto “cabelo”, tenho apenas este artigo. Porém, se você quiser algum artigo sobre a moda como fato social, eu tenho alguns artigos aqui no blog.

    Abraço.

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