Escritores pulam para o outro lado do balcão

A avalanche das grandes redes de livrarias que teve início nos EUA e se espalhou pelo mundo criando cadeias de lojas, que hoje não são apenas livrarias mas grandes magazines virtuais ou não, acabou por levar à falência centenas de livrarias independentes. Um bom exemplo disso está no filme Mensagem Para Você, em que uma pequena livraria infantil se vê engolida por uma das filiais de um grande conglomerado especializado em vender livros.

Na Inglaterra surgiu um programa de incentivo aos livreiros e leitores que promovem a ida de um autor para trás do balcão de uma livraria independente. Cabe aqui uma pequena explicação. No Rio de Janeiro ainda há uma tradição parecida com estas pequenas livrarias independentes, que denominamos livrarias de bairro ou de rua, em oposição às lojas do tipo megastore ou bookstore que são mais facilmente encontradas em shopping centers, que também levaram a formação de cadeias por parte de algumas destas livrarias de bairro tanto no Rio quanto em São Paulo, por exemplo.

Aquele ambiente intimista no qual o livreiro (propietários e balconistas) e os leitores estavam acostumados foi sendo perdido ou esquecido devido a uma série de exigências impostas pela filosofia das grandes redes. Não que isto seja errado. É apenas uma forma de encarar a venda de livros, que deixou de ser algo romântico, eu diria, e até cultural para se tornar uma espécie de peg-pag.

Pois foi pensando nisto de atrair novamente o leitor para as pequenas livrarias, hoje denominadas independentes, que começou na Inglaterra o Strictly Come Bookselling (algo como Venha Ser Livreiro), se é que podemos chamá-lo de projeto, no qual um escritor vai até a sua livraria preferida, geralmente próxima de sua casa, e passa um tempo por lá exercendo as funções de um livreiro. Coisa do tipo arrumar os livros, ajudar o leitor a encontrar um livro para dar de presente e tudo mais que envolva a vida desta livraria.

Num dos trechos do artigo Authors jump the fence to help out behind the counter, de Megan Walsh, do The Times, são dados alguns exemplos de como os “autores guardam suas canetas e desligam seus laptops e literalmente saltam para o outro lado do balcão de uma livraria. Até mesmo George Orwell, autor de 1984 e Revolução dos Bichos, conjecturou “Será que eu seria um bom livreiro? Confesso que passei dias felizes numa livraria”. Entretanto, nem sempre um autor se torna um bom livreiro. É preciso um certo tino para a coisa.

Segundo Leslie Thomas, um famoso autor na Inglaterra, “o autor tem que encontrar com o leitor no meio do caminho”, e é o que ele está fazendo ao prestar seus serviços a Torbay Bookshop.

Na semana passada, os autores participaram de uma ação denominada Love Your Local Bookshop, promovida pela Independent Booksellers, uma associação inglesa de livrarias independentes que, como também nos Estados Unidos, buscam maneiras de permanecerem ativas e não serem engolidas pelas novas regras do mercado livreiro. Nesta semana os autores foram convidados a, por exemplo, organizar as prateleiras colocando os livros em ordem alfabética.

A escritora Kate Mosse, autora de alguns bestsellers, está ensinando os adolescentes de Hampshire, a escreverem sobre sua cidade natal na livraria Hayling Island e declarou “Todos os escritores são escritores locais em algum lugar. Comecei a perceber isto quando pensei sobre minha cidade natal e é uma forma de contribuição social.”

[1]

Há uma série de registros de autores que se viram obrigados a pedir asilo literalmente a uma livraria como foi o caso de James Joyce, execrado nos EUA e Inglaterra e que encontrou refúgio na livraria Shakespeare & Company., em Paris. Também há casos de livreiros que apóiam autores novatos antes que eles se tornem famosos.

Assim, a Bookseller´s Association, da Inglaterra, pretende que os leitores descubram ou venham a redescobrir o que pode oferecer uma livraria independente. Por exemplo, converse com o livreiro. Certamente ele lhe dará grandes dicas e informações sobre que livros você deve ler. Se você não acredita, isto está no sangue de todo livreiro. Ele conhece os livros e ficará extremamente feliz por lhe ajudar.

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[1] Sylvia Beach, fundadora e proprietária da livraria Shakespeare & Company, em Paris, arrumando a vitrine. Sua presença foi importantíssima no cenário literário da capital francesa entre 1919 e 1941. Imagem© Bettmann/CORBIS

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