Copa de 1958, a primeira de muitas

1958

Tudo quanto sei com maior certeza sobre a moral e as obrigações dos homens devo-o ao futebol. (Albert Camus, escritor franco-argelino que foi goleiro)

Que coisa magnífica é o futebol. Este esporte é capaz de fazer inimigos voltarem a ser amigos de infância e também é capaz de dar origem a inimizades que se tornam figadais.

O futebol é capaz de lavar a alma de um país inteiro como aconteceu há cinqüenta anos, quando ganhamos a primeira das cinco copas do mundo. Logicamente que outras virão, mas esta, a de 1958, serviu como redenção para quem a viveu e também sofreu a derrota de 1950 em pleno Maracanã.

Eu não vi esta copa. Nasci cinco anos depois. Mesmo assim, em algumas ocasiões meu pai tocava os LPs que continham as marchinhas, sambas e narrações dos gols do Brasil nas Copas de 1958  e 1962. Lembro, em especial, da narração do Pedro Luis e Edson Leite. As ondas do rádio parecendo mesmo ter vindo em ondas como aquelas que se propagam ao atirarmos uma pedra num lago. O som subia e descia. Era chiado e nem sempre se podia distinguir muito bem o que era narrado.

A Taça do Mundo é Nossa

(Composição: Maugeri, Müller, Sobrinho e Dagô)

A taça do mundo é nossa
Com brasileiro não há quem possa
Êh eta esquadrão de ouro
É bom no samba, é bom no couro
A taça do mundo é nossa
Com brasileiro não há quem possa
Êh eta esquadrão de ouro
É bom no samba, é bom no couro
O brasileiro lá no estrangeiro
Mostrou o futebol como é que é
Ganhou a taça do mundo
Sambando com a bola no pé
Goool!
A taça do mundo é nossa
Com brasileiro não há quem possa
Êh eta esquadrão de ouro
É bom no samba, é bom no couro
A taça do mundo é nossa
Com brasileiro não há quem possa
Êh eta esquadrão de ouro
É bom no samba, é bom no couro
O brasileiro lá no estrangeiro
Mostrou o futebol como é que é
Ganhou a taça do mundo
Sambando com a bola no pé
Goool!

Se os gregos contavam seu tempo de acordo com as Olimpíadas, isto é, o intervalo de quatro anos entre uma e outra, o brasileiro faz o mesmo por causa da Copa do Mundo. Ganhar uma Copa do Mundo nos faz sentir orgulho. É uma das poucas vezes em que realmente o mundo se curva ante o Brasil. Até mesmo o nosso pior perna de pau pode ser considerado craque de bola pelos gringos. É a tal pátria em chuteiras que o Nelson Rodrigues profetizou, também, ao dizer que perderamos o complexo de cachorro vira-lata. Nos equiparamos aos melhores do mundo para, anos depois, sermos os melhores do mundo.

E como a vitória em 1958 foi a redenção eu vi no rosto de meu pai, em 1993, algo parecido com o sentimento que ele teve no dia 16 de julho de 1950, ao presenciar o Brasil ser derrotado pelo Uruguai. Sim, ele esteve no Maracanã neste dia medonho.

Fomos ao Maracanã eu, meu irmão mais novo e ele assistir a final da Conmebol entre Botafogo e Peñarol. Acho que está mais do que claro que sou botafoguense.

Faltando dois minutos para o término da partida  já gritávamos “É CAMPEÃO”, quando o Peñarol fez o segundo gol, empatando a partida. Meu irmão e eu olhamos instintivamente para o nosso pai e percebemos que de negro ele ficara cinza. E pensamos: “É agora que vamos ficar órfãos”. Meu pai olhando para o campo diz o seguinte:

– Tudo de novo… Assim não dá… Assim não dá…

Lembrou-se daquela tarde em que perdemos a Copa do Mundo em casa.

O que aconteceu foi que ganhamos a Conmebol de 1993 nos pênaltis, mesmo que tenhamos começado mal, perdendo o primeiro pênalti. Quando isto aconteceu, um outro botafoguense parecendo entrar em transe começou a berrar em nossos ouvidos:

– Eu não acredito! Eu não acredito! Tudo pra botafoguense é difícil… Até arrumar mulher!

Tivemos que rir pelo inusitado das palavras. Mas, ao final, todos se abraçaram e saímos de lá campeões. Não sei se meu pai sentiu a alma lavada. Acredito que não, pois isto só seria possível numa outra edição de final de Copa do Mundo com os mesmos personagens em campo.

E hoje, 29 de junho de 2008, cinquenta anos depois, comemoramos a conquista da primeira Copa do Mundo. A taça do mundo é nossa!

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2 comentários sobre “Copa de 1958, a primeira de muitas

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