História do Brasil: 7 erros para crianças num cartaz

Semana passada estava eu tomando conta de uma prova e quando a sala começou a ficar vazia fui olhando para as paredes em vez de olhar para os alunos, que naquele momento eram poucos estavam bem distantes uns dos outros. Logo, colar seria um pouco mais complicado.

Antes é preciso dizer que a escola que trabalho à noite, pela manhã é um CIEP (Brizolão), para crianças da 1ª à 4ª séries. Ainda não me acostumei com a nova nomenclatura para as séries do primeiro grau. Por este motivo há cartazes e mais cartazes feitos pelas dedicadas professoras primárias que fazem de tudo para alfabetizar seus alunos. Elas deveriam receber o maior salário no magistério.

Deparei-me, então, com o cartaz abaixo e fiquei espantado com o nível de desinformação que ele continha. São tantos conceitos errados numa só imagem que eu não tive dúvidas em fotografar com meu celular e mostrar o quanto se pode ensinar errado e incutir visões errôneas sobre um determinado fato histórico. O chato é que isto é feito de maneira consciente por quem produz este tipo de coisa. Até os convido a analisarem a imagem antes de ler o que escrevo logo após.

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Vejamos os erros:

naus 1 – Na imagem estão três caravelas, o que mostra que quem produziu a mesma imagina que estas sejam as naus de Cristóvão Colombo (Santa Maria, Pinta e Niña). Portanto, um erro cronológico, geográfico e conceitual.

A esquadra de Cabral era composta por 13 navios! TREZE para ficar bem claro e não três! E o título da imagem é Descobrimento do Brasil. Talvez o ilustrador, sem saber , esteja representando as três caravelas que compunham esta frota. Sei não…

 

sol2 –  Ao fundo, o Sol está na linha do horizonte. Observem as imagens dos personagens e percebam aonde está a sombra. Pelo visto, o relógio do ilustrador mostrava meio-dia. As sombras estão dispostas como se fosse meio-dia. Erro horário!

 

rosto 3 – O rosto do suposto capitão que, segundo se imagina seria Cabral, na verdade é uma representação de Colombo. Cabral usava barba. Ah, sim. Deve ser Gaspar da Gama ou Caminha, que foram à praia confabular com os índios.

 

capitao4 – Ainda na figura do navegador vemos o esboço de um sorriso. Ora, ora, ora… a visão do vencedor novamente vindo lá dos recônditos do inconsciente para nos dizer que ele é bonzinho e não vai fazer mal algum aos nativos. Visão preconceituosa e ideológica.

 

 

 

naus 5 – Este é um erro primário quanto aos elementos da Natureza e a arte de navegar. Se uma caravela está fundeada, as velas são recolhidas. Se estiverem abertas e o vento soprar na direção que as trouxe a estas praias, elas vão terra a dentro.

Como é que as bandeirolas, lá em cima, na ponta dos mastros, estão indicando que o vento sopra na direção contrária? Acho que isto é uma questão de física, não? Ah, houve calmaria. Sei…

 

nativos 6 – Percebam a figura dos índios. São todos brancos! Certamente, os Tupinambás e os Tupiniquins não são brancos. O ilustrador pode alegar que é defeito gráfico e as cores não foram bem afixadas durante o processo de impressão, tanto que não estão nus. Deve ser tinta que borrou e ficaram perfeitas como tangas. Será que cola? Erro étnico!

 

nativorock 7 – Um dos índios, no canto baixo à esquerda, está esboçando um sorriso para o europeu, pois fizeram contato visual. Notem que este índio parece cantor de Rock do tipo Metal Farofa, com os cabelos castanhos caindo sobre os ombros. Nos relatos da viagem, os índios são apresentados como tendo a cabeça raspada, o que realmente faziam. Logo…

Quer dizer, então, que os índios adoraram ver os europeus? Aqui cabe um parênteses. Os europeus, após terem os primeiros contatos com os habitantes do continente americano, ficaram anos e mais anos discutindo a origem dos nativos. Alguns chegaram a levantar a hipótese que estes eram descendentes de uma das doze tribos perdidas de Israel. Será?

 

 

É duro ensinar uma coisa e mostrarem outra. Depois pensam que vida de professor é fácil.

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11 comentários sobre “História do Brasil: 7 erros para crianças num cartaz

  1. hahahaha, Jorge, que máximo!!

    Imaginei uma aula assim:
    – encontrem os erros desta ilustração e comentem.
    – uai, psor, erro???!!! Tem ALGUM erro nesse desenho??????!!!
    – um premio pra quem achar… pelo menos um! só um… unzinho! vai! pe-la-mor-de-deus, eu sei que tem algum…. acho….

    bem, vamos dar uma colher de chá para o desenhista, a culpa não pode ser SÓ dele…
    Já pensou?
    – Não, meu caro, ainda não está do jeito que eu quero, poderia refazer o desenho?

    adorei o post.

    abração

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  2. Pois é, Marcia.

    Os caras não sabem o poder que têm nessas horas. Passam conceitos errados mesmo. Certamente que pode se tornar engraçado e na maioria das vezes é; como no caso de os gringos ainda acharem que nossa capital é Buenos Aires.

    Abração pr´ocê também. 🙂

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  3. Imagino que todos os alunos jogarão seus livros de ciência e história fora por causa desse desenho…

    A propósito, aquele não pode ser Cabral, pq ele não entendia nada de navegação e a Escola de Sagres foi um grande engôdo.

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  4. Adorei os comentários, mas até é “compreensivel” os alunos não encontrarem erros, o duro, são alguns colegas professores, ou acharem q índio com cara de roqueiro não “dá nada”.
    Enfim, somos fruto de uma escola que não valoriza a história.

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  5. Oi Jorge!
    Ainda estou por aqui do outro lado do planeta.
    Encontrei um japonês que acredita que na Amazônia a gente encontra anacondas gigantes e assassinas, iguais aquela dos filmes…

    abraços!

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  6. Olá Jorge Alberto…

    Estava na net procurando algo interessante para trabalhar historia do Brasil na Edu. Infantil. Sou recem formada em História, mas atuo com os pequenos e queria algo que realmente fizesse sentido para a realidade deles e que fosse coerente com uma historia critica e construtiva. Com certeza tuas palavras sobre um “simples cartaz” das caprichosas e exageradas profes primarias me fez pensar e refletir sobre a minha pratica docente em ambos os lados da moeda…

    Eita poder que a história tem, não acha???!!!

    Abraços

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  7. Cristiane,

    Achei muito bacana o que você relatou em sua mensagem. Eu confesso que não tenho cacoete para trabalhar com alunos do primeiro grau. Porém, idéias eu acho que não faltam a você. Uma das coisas que eu sempre pensei a respeito da Educação é que ela deve ser lúdica. Fica muito mais fácil para aprender e apreender conceitos. Imagino que você já tenha ido por esse caminho, não?

    A história é tão poderosa que os tiranos queimam livros e tentam mudá-la ao seu bel prazer.

    Abraços.

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