Quadrinhos podem estimular a leitura.

Childhood Book Illustration by Sarah Stilwell Weber© Blue Lantern Studio/CORBIS (1904) Isto não parece novidade, pois muitos de nós aqui no Brasil começamos a nos interessar pela leitura a partir desta forma de literatura. Cabe frisar que não estou aqui discutindo se quadrinhos são ou não literatura ou arte. Apenas imagino seja ambas. E, segundo uma explicação que me foi dada por um quadrinista amigo meu, o quadrinho tem uma função além da estética e da literatura. Os espaços entre os quadrinhos, de certa forma, levam-nos a criar e a desenvolver a imaginação, justamente por podermos preencher este mesmo espaço entre a passagem de uma cena para outra. Achei esta explicação fundamental para entendermos um pouco a funcionalidade e a qualidade do quadrinho como arte-literária (neologismo?).

Após esta introdução, gostaria de apresentar a livre tradução de um texto que saiu na semana passada no The Times, no qual a editora de educação deste jornal, a jornalista Alexandra Frean, mostra as opiniões e resultados da pesquisa do professor aposentado Chris Brown, que foi transformada em livro, sobre o estímulo à leitura a partir dos quadrinhos na Inglaterra.

Antes, é preciso dizer que os quadrinhos na Inglaterra não tem a mesma força e penetração cultural como temos no Brasil, Estados Unidos e Japão, por exemplo, tanto que o autor da pesquisa diz acreditar que a leitura de mangás seja um excelente início. Na Inglaterra, parece que torcem o nariz para isto. Deve ser uma questão cultural. Vamos ao texto:

Os meninos devem ser estimulados a ler quadrinhos para que com isso obtenham o hábito da leitura e, a partir daí, possam ter um melhor relacionamento com as meninas, diz um conselheiro do governo inglês.

Chris Brown, autor do livro Boys into Books (algo como Meninos dentro dos livros), relacionou cerca de 200 livros (lançamentos), sendo que muitos eram quadrinhos, que atenderiam aos interesses dos meninos ingleses entre os 5 e 11 anos de idade. Esses quadrinhos poderiam ser de grande valia, pois estimula respostas visuais para as imagens e também estimula respostas intelectuais para as palavras. Entretanto, muitos pais e escolas não aprovam o uso deste material.

O autor afirma que, “no Continente [Europa em oposição à Inglaterra, uma ilha] os livros visuais ocupam uma boa fatia do quadro geral de vendas no mercado editorial. Mas, aqui na Inglaterra, ainda não se dá a devida importância a este segmento”. Ainda segundo o autor, o estilo de quadrinhos baseados no manga se mostraram particularmente populares entre as crianças da faixa etária pesquisada. Existe ainda uma tímida tentativa de transpor a obra de Shakespeare para os quadrinhos, e caso isto aconteça será perfeito para as crianças inglesas.

De acordo com uma outra fonte de dados, a pesquisa Primary Boys into Books, esta feita pelo governo inglês, que pretende investir 5 milhões de libras para incentivar a leitura entre os jovens, principalmente os meninos que estão dez pontos percentuais abaixo das meninas da mesma faixa etária em termos de leitura. O ministério da educação inglês espera que, assim, a distância intelectual entre meninas e meninos diminua. Foi provado que 78% das meninas, contra 65% dos meninos se interessam por ler. Prevê-se que as bibliotecas públicas, através deste programa de incentivo venham a emprestar mais livros, principalmente os listados por Chris Brown.

Constarão dessa lista as graphic novels e os quadrinhos, que terão alguns títulos disponíveis como “Jason: Quest for the Golden Fleece” (Jasão e o Velocino de Ouro), o mito de Jasão e os argonautas e uma história de Satoshi Kitamura chamada Boy’s Stone Age (Meninos da Idade da Pedra), que conta a história de um menino que volta à Idade da Pedra. Ainda haverá destaque para quadrinhos e livros tendo temas como espionagem, fantasmas e alienígenas.

Jim Knight, o Ministro das Escolas, disse que é “vital que façamos as crianças, principalmente os meninos, entrarem no mundo da leitura, e quanto mais cedo melhor”. Mais de um terço dos meninos abaixo dos dez anos usam o computador para jogar vídeo-games por cerca de três horas diárias em média. “Tenho certeza que esta escolha, jogar em vez de ler, tem um efeito em cadeia sobre seu desempenho nas escolas”, disse o Ministro.

Em uma outra iniciativa governamental, as bibliotecas públicas receberão livros de poesia; mas já de antemão, as autoridades sabem que “mesmo que seja um livro colorido colocado à frente das crianças não se pode esperar que elas façam disto seu único motivo de diversão”.

Livre tradução do artigo Comic books ‘can get boys in the habit of reading,
de Alexandra Frean. The Times, 14/06/2008.

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24 comentários sobre “Quadrinhos podem estimular a leitura.

  1. Oi Jorge!

    Quadrinhos, meu ponto fraco…

    Confesso que sou fã da Mônica e do Cebolinha desde pequena, e também, que aprendi a ler (e a gostar de ler) em japonês (!!) com mangás do Tezuka no original.
    Sempre quis ensinar meus alunos a gostar de ler (não importa o idioma) atraves de quadrinhos, e já houve época que quis ser quadrinista.
    Realizei meu sonho montando um livro didático de conversação em japonês, recheado com meus bonequinhos. Um deles, segundo meus alunos, parece-se muito com o Cascão…!

    mas, o que acontece, é que AINDA é uma polêmica usar quadrinhos, por exemplo, em sala de aula.
    E existe, no mercado, tudo quanto é tipo de quadrinhos, de tudo quanto é assunto ou tema, para tudo quanto é faixa etária…
    Existe material muito bom, e existe também muito lixo, infelizmente. Não estou falando especificamente dos quadrinhos brasileiros, mas principalmente dos quadrinhos japoneses.

    Na minha opinião, se for pra usar os quadrinhos com fins educativos,
    existe necessidade de selecionar, passar numa peneira bem fina, e pinçar o que for bom.
    E, diante da quantidade de material, isso dá um trabalhão….

    um abraço grande

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  2. Oi Marcia!

    Eu acredito que os quadrinhos sejam uma excelente forma de auxílio à educação. Houve época em que usei quadrinhos em sala de aula, principalmente quando as aulas eram de História Antiga e, como sempre busquei o lúdico para ensinar, eu usei muito os quadrinhos do Asterix. Havia também alguns clássicos da literatura como, por exemplo, Os Lusíadas em quadrinhos.

    Agora, eu não sabia que você também tem dotes artísticos. Eu acho que seria muito legal você não apenas desenvolver como apresentar seu material para alguma editora. Quem sabe não dá samba?

    Vou te contar um segredão, ok? Eu também me amarrava na turma da Mônica e do Cebolinha. Também curti muito o Mortadelo e Salaminho,de um quadrinista espanhol chamado Francisco Ibáñez e mais um montão deles.

    Grande abraço.

    ps. Tá frio pra caramba aqui no RJ. Para os nossos padrões, 19 graus é frio polar. Até apareceram uns pingüins hoje na praia. 🙂

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  3. Mas eu sou totalmente a favor em usar quadrinhos em aula!!
    basta encontrar o que se quer no meio de tanta coisa, ne??

    Minha apostila já foi publicada. Se chama Nihongo Jozu, e pode ser comprada em SPaulo, na escola de japones chamada Aliança Cultural Brasil-Japão, homepage aliancacultural.com.br
    (Sem querer fazer propaganda, é claro… hihihi)

    Aqui em Kanazawa, Provincia de Ishikawa, Japão, faz um calor abafado…

    abraçao

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  4. Bem, na verdade no site da Alianca só tem a propaganda do curso (no caso, de conversação. Clique em cursos, depois, em conversação), e só tem a capa da apostila 1, que nem fui eu que fiz, foi o Marcelo Cassaro, meu ex-aluno.
    Vamos fazer o seguinte.
    Como não trouxe nada pra cá, depois que eu voltar pro Brasil, te mando alguma coisa pra vc ver…
    só não me esqueça de cobrar,pq ainda vai demorar uns meses…

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  5. Coincidência, ontem à noite estava fazendo um trabalho da pós que falava exatamente sobre o uso de quadrinhos na educação, o livro citava vários elementos que vc citou aqui… é um tema muito interessante pra se discutir 🙂

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  6. Jorge:

    Os Quadrinhos podem servir como excelente ferramenta de ensino.

    Só como referência, cito o livro do Willian Irwin, intitulado ‘Os super-heróis e a Filosofia’, onde as histórias de HQ são analisadas sob o ponto de vista filosófico.

    É deveras surpreendente verificar quantos conceitos tão antigos, e tão atuais podem ser encontrados em aparentemente ‘simples’ histórias para entreternimento.

    Grande abraço, amigo!

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  7. É! Quando a gente pensa em quadrinhos, vem na cabeça Mônica e Cebolinha. Mas se você for numa banca, você vai encontrar tantos quadrinhos ruins e que não vão ajudar em nada na educação das crianças. Foi como a Marcia lá em cima disse: se é pra ler quadrinhos tem que filtrar!

    Até mais!

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  8. Marcia:
    Tentarei achar o link e vou aguardar o seu retorno com o material. Mas, pode (e deve) continuar escrevendo por aqui. 🙂

    Renata:
    Realmente a Internet veio para nos auxiliar e aprendermos um pouco mais. Obrigado pela visita. Dê uma olhada na dica passada pela Fátima.

    Fátima:
    Grande dica. Vou procurar este livro.
    Um grande abraço.

    Wyliam:
    Certamente, a Marcia falou o que devemos fazer. Tem muito joio para jogar fora, mas sempre será um trabalho que envolverá conhecimento.
    Abraços.

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  9. Confesso que até hoje adoro histórias em quadrinhos. Devoro todas as revistinhas da minha neta que tem sete anos de idade e lê como gente grande, – de livros e quadrinhos a bula de remédio. rsrs Não é hístória de vó-coruja não. É a mais pura verdade. A leitura está no dna dela. Ainda não sabia ler e ficava folheando livros (sem qualquer ilustração) como se estivesse decodificando a escrita. rsrsrsr Adorei o post. Bjs e inté!

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  10. Olá a todos.
    Eu sou de Manaus e sou fissurada por quadrinhos desde criança. Comecei como a neta da Ju Rigoni lendo sem saber ler e criando minhas próprias histórias e a mim os quadrinhos ajudaram muito, principalmente na questão de despertar o interesse pela leitura.
    Eu acho importantíssimo e maravilhoso a idéia do uso de quadrinhos em sala de aula como forma de ensino e comunicação. Claro, é necessário se fazer a seleção. Assim como há a má literatura, há quadrinhos ruins também. Eu, por exemplo, tenho uma coleção de livros em quadrinhos sobre a história do Brasil que usei muito na minha época de escola.
    Na minha cidade, há 10 anos atrás, existiu um clube especializado em quadrinhos que se chamava O Clube dos Quadrinheiros de Manaus e eles revolucionaram a questão cultural da cidade. Chegaram a lançar um livro com as melhores histórias. Meu tcc foi sobre eles, que até hoje ainda se reúnem para falar sobre as novidades do mercado.
    E para o Jorge Alberto, tem uns livros bem legais sobre qaudrinhos:
    Fadas no Divã – psicanálise nas histórias infantis, um livro de psicologia que fala do aspecto psicológico sobre todas as histórias infantis incluindo os quadrinhos, de Diana Lichtenstein e Mário Corso da Ed. Artmed.
    Homens do Amanhã, do Gerard Jones, sobre geeks, gângsters e o nascimento dos gibis, da Conrad.
    Clube dos Quadrinheiros – As Melhores Histórias, de Mário Orestes pela Ed. Valer

    É isso.
    Até a próxima.

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  11. Oi Larissa!

    Muito bacana saber da sua ligação com os quadrinhos e também sobre sua produção. Já tentou apresentar para alguma editora?

    Obrigado pelas excelentes dicas.

    Abraço

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  12. Eu uso quadrinhos em sala de aula, e uso como “prêmio” aos que terminam os “exercícios didáticos”. Resultado, como nós, seres humanos, adoramos “ganhar”, eles têm se aplicado muito mais aos estudos formais para receberem o direito de “se divertirem” durante as aulas, lendo os “gibis” da professora. Comecei essa prática porque percebi que meus alunos adolescentes já, não conseguem interpretar textos. Estou esperançosa nos resultados.

    Gostei muito de encontrar esse post seu.

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  13. Professora Raquel,

    Me perdoe pela demora em responder sua mensagem.

    Eu não imaginava que outros professores e professores também fizessem uso dos quadrinhos em sala de aula, mas de uma forma lúdica. Forma, por sinal, que melhor enxergo o ato de Educar. Os quadrinhos são realmente uma excelente porta de entrada para o mundo da leitura e do aprendizado, tanto que até hoje lembro de algumas histórias lidas na infância e, se me permitir dizer, foram balizadoras da maneira pela qual desenvolvi o gosto pela leitura.

    Uma outra aplicação é a observação da forma correta de escrever. Uma linguagem coloquial bem “colocada” é muito importante. Isto me fez lembrar alguns quadrinhos da Marvel, se não me engano, onde os personagens eram usuários de ênclises, mesóclises em profusão. Coisa do tipo “Pega-lo-ei”. Muito divertido lembrar disso agora que de coloquial não tem quase nada.

    Fico agradecido por suas palavras e suas visitas sempre serão bem-vindas.

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  14. Olá, Jorge.
    Bom, eu apenas fiz uma reportagem diagramada sobre O Clube dos Quadrinheiros de Manaus, como tcc e vou apresentá-lo para outros estudantes e um editor, que irá assistir.
    No entanto, eu pretendo escrever um livro sobre eles e aí sim apresentá-lo a uma editora para ver se acham interessante e ver no que dá.
    Tem um outro livro que encontrei, é sobre as referências femininas nos quadrinhos, mas não lembro o nome dele agora.
    Assim que der envio.

    Abraços.

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  15. Eu estou fazendo minha monografia sobre a importancia das HQs na sala de aula e não tenho livros para minha fonte de pesquisa. O que você poderia me indicar?

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