Machado de Assis em dois livros: psicanálise e etnia

Faz pouco tempo eu li um livro sobre Machado de Assis, no qual o autor discutia um tema que é quase tabu entre os críticos literários e também o público em geral, isto é, a questão do negro tanto na obra quanto no autor, o Bruxo do Cosme Velho, como também era conhecido. Após a leitura deste livro, que recomendo, percebemos que tudo aquilo que era dito a respeito dele e sua relação com a cor de sua pele é falácia.

Machado não negava ser negro (mulato), como até então era voz geral nos meios intelectuais. Segundo o autor de “Machado de Assis Afrodescendente”, ele a explicitava e a demonstrava em várias passagens de seus livros. Ao mesmo tempo, é compreensível, digamos, que por ele absorver a cultura burguesa e branca que compunha a elite brasileira de então, meados do século XIX e início de século XX; para poder flanar entre os salões e ser aceito, era preciso manter esta postura e estereótipo do “ser branco”. Também como contemporâneos de Machado de Assis, temos dois personsagens, José do Patrocínio e André Rebouças. Ambos afrodescendentes e proeminentes na sociedade brasileira de então. Talvez, por isso, por não explicitar suas palavras na forma como Patrocínio o fazia, quem sabe, a idéia de que Machado negasse sua etnia tenha sido elaborada.

Agora, recentemente, também li um livro que trata de um assunto que pode parecer ficção, mas é bastante interessante, já a partir do título: Freud e Machado de Assis: uma interseção entre psicanálise e literatura. Neste livro, o autor analisa parte da obra de Machado de Assis, à luz das idéias de Freud. Sem saberem da existência um do outro, ambos trataram do mesmo assunto, a mulher, em campos diferentes.

Freud teve seu interesse despertado para a análise da psiquê humana quando passou a estudar a histeria e, assim, quem sabe, poder compreender melhor a sexualidade e a mente humana. Todos nós conhecemos aquela famosa frase em que ele pergunta: Mas afinal, o que quer uma mulher?

Machado escrevia para mulheres e sobre mulheres, esta é a verdade. Ao mesmo tempo, ambos, tanto o psicanalista quanto o romancista retratam uma época, a das primeiras mudanças sociais efetivas motivadas pela nova ordem burguesa implantada algumas décadas antes. Mesmo que Viena e Rio de Janeiro (Uma, a capital do Império Áustro-Hungaro e a outra, Capital do Império Brasileiro) ainda estivessem sob um regime monárquico, o ideal social burguês já se fazia presente.

Assim, Machado, segundo o autor, não acreditava na mulher como um ser que devesse ter amarras, que sua sexualidade não pudesse ser vivida e apresentada. Lembremos que Flaubert foi processado por ter escrito Madame Bovary, considerado um atentado à moral. Absurdo, não? Freud, por seu lado, procurava entender esta sexualidade. Não dá pra discutir muito neste quesito. É fato que o homem tem medo da sexualidade feminina e se encarregou em cercear isto no decorrer do tempo.

Sendo assim, é contemporâneo ter as idéias de Freud servindo para analisar e compreender, e porque não dizer, nos maravilhar um pouco mais com a obra de Machado de Assis, o que fica bem claro nesta passagem do livro em questão:

Através dos romances de Machado de Assis, da chamada fase da maturidade, pretendemos mostrar o quanto este autor, que desconhecia Freud, captava, de forma aguda, as sutilezas do discurso do desejo inconsciente. Interessando-nos, prioritariamente, o discurso dos personagens femininos, escolhemos os que são mais representativos do que socialmente se denomina as pecadoras: Virgília e Marcela, de Brás Cubas; Sofia, de Quincas Borba, e Capitu, de Dom Casmurro, bem como também fizemos um contraponto, apresentando as mais virtuosas: Carmo e Fidélia, de Memorial de Aires.”

Virgília, Marcela, Sofia, Capitu, Fidélia e Carmo conseguiram despertar paixões e produzir críticas. Mobilizaram as pessoas, justamente por terem conseguido, como diria Freud, “de forma atenuada” apresentar temas delicados para a sociedade, tais como a sedução,o ciúme, a inveja, o adultério, a prostituição, a loucura, etc.. Nada mais atual!

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