Quem te ensinou a gostar de ler?

Boy Reading Book in Tree © Jutta Klee/Corbis

Uma das principais atividades do ser humano é a leitura. Raramente tomamos gosto sozinhos. Geralmente, somos influenciados ou direcionados em casa ou na escola nos primeiros anos de vida. Portanto, quem te levou a gostar de ler?

Por volta dos oito anos comecei a descobrir os livros. Segundo palavras de minha mãe, eu já me divertia vendo as figuras das histórias em quadrinhos, isto antes de aprender a ler. O interesse pela leitura foi algo natural. Não que lá em casa houvesse um ambiente literário. Musical sim, literário apenas um pouco. Lembro, quando pequeno, ouvir meu pai declamar Navio Negreiro. Não havia um motivo especial para isto. Era comum meu pai declamar trechos de poemas não importando a ocasião. Apenas, digamos, o ritmo e a sonoridade das rimas, como:

Auriverde pendão de minha terra, Que a brisa do Brasil beija e balança, Estandarte que a luz do sol encerra E as promessas divinas da esperança… Tu que, da liberdade após a guerra, Foste hasteado dos heróis na lança Antes te houvessem roto na batalha, Que servires a um povo de mortalha! (Castro Alves)

Isto sem contar que lá em casa, apesar dos poucos livros à vista, eu sabia onde encontrar livros um tanto não indicados para uma criança. Havia um livro sobre educação sexual que ficava guardado no armário, mas nas portas de cima. Eu precisava usar uma cadeira para poder abrir a porta e folhear o tal livro. Não me lembro bem o nome do livro. Apenas sei que era de um médico norte-americano. Havia também uma edição comemorativa de Iracema de José de Alencar, que li tempos depois quando estava na 6ª série, se não me engano. Aqueles autores brasileiros do século XIX e início do século XX me pareciam um tanto entediantes. Talvez seja por isso que só reli Machado de Assis lá pelos vinte e cinco anos. Imagine um guri de 12 anos, cheio do vigor da própria idade e já começando a ter idéias libidinosas pensando em suas colegas de sala de aula, que é obrigado a ler textos de autores que falam de modo empolado citando coisas distantes. A obrigação de ler desestimula qualquer um. A leitura tem que ser um prazer, uma descoberta, um desbravar de situações. Felizmente recuperei o tempo perdido com alguns desses autores como Machado de Assis, José de Alencar e outros mais. Hoje, na minha profissão, professor de História, vejo o quanto é necessário e imprescindível ter o retrato de uma época a partir da literatura.

O quintal de minha casa era grande como eu disse anteriormente. Havia uma espécie de quarto sem portas que servia para guardar coisas velhas e móveis sem utilidade; além das ferramentas do meu pai. Eu brincava neste quintal diariamente e apenas entrava neste quarto quando era preciso pegar a bola que lá se perdia depois um chute mais forte ou quando meu pai pedia para ajudá-lo a encontrar uma determinada ferramenta. As ferramentas ficavam nas gavetas de uma velha arca de madeira, ainda do tempo dos móveis com pés de palito, que foram moda na década de 1950 se não me engano. Ao abrir as gavetas eu sentia o cheiro indefectível de ferramentas enferrujadas e gostava de fazer barulho com elas. O som dos metais é bastante interessante.

Esta arca tinha portas de correr no centro e duas portas com dobradiças nas extremidades. Ao abrir as portas de correr eu encontrava pequenas garrafas de bebida, aquelas que são servidas nos vôos, um copo de conhaque do tipo Napoleão. Algumas vezes vi meu pai bebendo conhaque neste copo. De vez quando ele até o esquentava numa labareda bem tênue que saía do isqueiro especial para acender o seu cachimbo. Havia partes de um antigo lustre que existia em minha casa antes mesmo de eu nascer. Lógico que ali também se escondiam insetos. Raramente eu abria estas portas de correr. Não por medo de encontrar algum inseto, mas apenas porque já sabia o que havia ali dentro. Vez ou outra eu pegava um pingente do lustre, que parecia ser de cristal, e me admirava com o espectro das cores do arco-íris que ele desenhava no chão ou sobre qualquer superfície, desde que iluminado pelo Sol. Eu pensava que era um diamante ou uma pedra preciosa e passava um bom tempo vendo as cores e as fazia caminhar pelo chão.

Eu estava sozinho brincando na área de serviço onde havia um tanque de lavar roupas de cimento armado. Este tanque, quando não era usado para lavar roupa, me servia como o mar para brincar com barquinhos de papel e pregadores de roupa, que eu dava vida como se fossem marujos e mergulhadores. Passava horas brincando neste tanque e no final, invariavelmente, fazia o redemoinho que surge quando tiramos o tampão do seu ralo e afundava os barquinhos de papel. Não sei bem por que, talvez movido pela curiosidade de toda criança, decidi finalmente abrir as portas com dobradiças que ficavam nas extremidades da arca. Larguei barquinhos de papel, mergulhadores e marujos no redemoinho do tanque e fui até o quarto das velharias. Quando abri as portas de dobradiça, elas não fizeram o som característico de dobradiças enferrujadas. Apenas puxei a maçaneta, que era pequena e pendente e ouvi um clique. A porta se abriu e lá dentro eu vi uma significativa quantidade de livros. Livros que eram do meu irmão mais velho. A maioria eram livros escolares. Álgebra, História, Português, Matemática e outras matérias. 

O livro de História trazia em sua capa a figura de um Bandeirante, um antigo caçador de esmeraldas. Não sei se era o Borba Gato, Domingos Jorge Velho ou outro, mas aquela figura imponente, de pé, tendo estes bem fixados ao solo, suas botas até os joelhos, as calças por dentro das botas, a camisa parecendo uma armadura acolchoada, a barba longa e vasta e o olhar fixo em quem o olhava na capa, intimidavam mais do que o bacamarte que estava sendo segurado por ele como se fosse uma lança, que tinha a base bem posta ao solo. Parecia dizer: “Eu sou o senhor deste livro. Se quiseres ler, terás que passar por mim antes”. Seria este o grande personagem da história do Brasil? Abri o livro interessado em saber o que havia lá dentro. Não lembro bem mas eu vi desenhos de caravelas, índios, bandeirantes, mapas do Brasil em várias épocas e achei aquilo fascinante. As páginas que demarcavam o início dos capítulos eram de um tom coral meio pastel e os títulos dos capítulos em azul marinho. Um belo e convidativo contraste.

Tempos depois ao ingressar na faculdade soube que este tipo de livro, não por seu formato, mas por seu conteúdo factual estava um tanto ultrapassado. Desculpem-me doutores, mas nenhum livro, por mais duvidoso ou tendencioso que seja o gosto de quem o escreveu é um livro ultrapassado. Seria como um tesouro esquecido. Um tesouro que foi colocado num escaninho da história e lá permanece até que alguém o pegue e leia.

As absurdas queimas de livros por parte de inquisidores, ditadores e facínoras de ocasião constituem verdadeiros assassinatos; porém, ao mesmo tempo, demonstra o quanto estas personagens temem o saber e os livros. Até mesmo os livros escritos a seu favor podem cair em desgraça, dependendo do humor ou do dia da semana ou sei lá que outro motivo. Todos para o Index, parece ser a ordem quando se instala um governo de exceção em algum lugar.

Outra grande descoberta foi um antigo Atlas geográfico do MEC. Seria interessante comparar alguns mapas daquela época com os atuais. Muitos países mudaram. Até hoje gosto de ver mapas e aprender os contornos dos países e tudo mais que puder absorver.

Os livros sempre foram uma enorme viagem para mim. Neles eu mergulhava sem medo de chegar ao fundo e bater com a cabeça.  

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13 comentários sobre “Quem te ensinou a gostar de ler?

  1. Acredite se quiser, mas eu reaprendi a gostar da leitura depois que eu passei a usar melhor a Internet e a frequentar esse mundo dos blogs.

    Esquisito, não?

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  2. Lucho, a sua observação foi bacana.

    No fundo, a Internet veio também para que nós nos tornássemos leitores mais atentos e a evolução do hábito da leitura é uma conseqüência disso.

    Sim, pode parecer esquisito, mas eu acho que não é tanto assim. Acabamos por aperfeiçoar a ortografia e também a exposição das idéias após lermos mais a partir da Internet e dos blogs.

    Abraço.

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  3. Bem o meu caso não é esse
    fui estimulada a leitura
    desde dos 5 anos pelos meus pais
    consequencias boas refletem isso
    no meu desmpenho escolar, tenho 16 anos e gosto muito de ler e isso me auxilia na maneira de me expressar em apresentações de trabalho e escrever,aliás para deixar claro quero ser jornalista.
    =)

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  4. Oi Nânia.

    Como você mesma nos expressou, uma das vertentes do estímulo à leitura vem de dentro de casa mesmo e isto me parece fundamental. Os pais, antes da escola, seriam os responsáveis por este descobrimento.

    Parabéns por sua opção de profissão.

    🙂

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  5. Também aprendi a gostar de ler por influência de minha mãe. Pensando bem, nem sei se aprendi a gostar ou já aprendi a ler gostando. 🙂 Ainda assim reconheço a importância do incentivo à leitura. Minha mãe vara as noites lendo.

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  6. Paola,

    Realmente a leitura é uma descoberta e fica mais interessante ainda quando temos este incentivo dentro de casa.

    Imagino que sua mãe seja mesmo uma leitora ávida e você não fique atrás. 🙂

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  7. Jorge:

    Gostei muito do texto. Acho muito legal quando percebemos que algumas lembranças que vão aflorando são, na verdade, a genese de comportamentos, interesses e, pq não dizer, de posturas que nos direcionam por toda a vida. Esse texto tem a sua cara.
    Um beijo

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  8. Oi Lucia.

    Agradeço por suas observações e palavras. Certamente que a gente aprende a ser o que é nesta primeira fase da vida e isto é fundamental para que tenhamos posturas dignas em nossas vidas.

    Acredito que esta também seja uma das funções dos livros e da leitura.

    Beijo.

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  9. Oi Jorge!

    Estou aqui cismando sozinha a noite, e resolvi conhecer melhor o teu site!!

    Quem me ensinou a gostar de ler deve ter sido meus pais, e lembro que eu resolvia palavras cruzadas Picole aos 5 anos de idade.
    Meu primeiro livro foi O Gato De Botas, eu gostumava ler em voz alta.

    Mas um fato que marcou muito foi quando tinha uns 10 anos. Minha mae arranjou nao sei daonde algumas duzias de cheque-livro. Daqueles que a gente troca o valor impresso por livros. E ela me levou numa livrria e disse pra eu pegar quantos livros eu quisesse.
    Peguei uns 4 ou 5 e falei: Pronto, mãe.
    Mas ela disse: pode pegar mais!
    Voltei pra casa com uns 20 ou 30 livros! E li tudinho!

    só sei que li Dom Casmurro, O Tronco do Ipê e outros classios brasileiros por lazer.

    Minha melhor materia na escola era Lingua Portuguesa, cheguei a escrever uns versinhos, umas cronicas. Pena que nunca pensei em guardar meus cadernos de escola.

    Só fui fazer exatas no colegio pq era maria-vai-com-as-outras, e pq nao gostava de biologia.

    No fim fui fazer letras e hoje em dia dou aula. Nao de portugues, mas de japones e faço traduçao por hobby.

    abraçao!

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  10. Marcia,

    Muito interessante a sua trajetória ligada aos livros e leitura. Achei bonito este seu relato e tenho certeza que você se sente um pouco mais perto daqui do Brasil com essas lembranças e visitas.

    Fiquei muito contente por saber que, aí do outro lado do mundo, você sente o coração apertadinho ao lembrar de como teve início este caminho.

    Grande abraço.

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  11. O “questionamento” foi quem me ensinou a gostar de ler. Com a internet “todo mundo sabe tudo” muita gente escreve sobre determinado tema técnico, por exemplo, sem nunca ter lido um autor ou seja, defende uma questão de forma empírica com base no nada. Para piorar nós temos os mediadores e facilitadores “leitores de manchetes”. Por isso, por duvidar desses facilitadores me apaixonei pelos livros e procuro ler o mais “na fonte” possível.

    Coisa do tipo, você tem dois livros, mas só pode ler um:
    1º) Chiavenato falando das “idéias” Philip Kotler.
    2º) Philip Kotler falando das “”idéias”” Philip Kotler.

    Eu beberia na fonte e você?

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  12. ah com certeza q eu tb leio na fonte
    gosto de autenticidade na historias!
    mas isso me remete a um outro fato os livros q fazem sucesso e lançam filmes nunca são fiéis a ele e isso é realmente lamentavél pq de certa forma desvaloriza a obra!

    E vc o q acha?

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