Alguns livros, o amor, uma música e uma sala de aula

Antes de ler o que tenho para contar, clique na seta e ouça a música. Faça-o quantas vezes quiser durante a leitura deste artigo.

Ontem à noite entrei numa sala de aula para dar mais uma de minhas aulas e percebi que a sala estava mais ou menos vazia. Apenas alguns poucos gatos pingados. Perguntei o motivo da ausência do público não pagante e a resposta foi uma só: “Dia dos namorados”. Pensei comigo mesmo sobre o que faria. Eu já não estava lá com muita vontade de encher o saco dos alunos com uma aula de história.

Peguei a cadeira, virei o espaldar para frente e sentei-me de frente para demonstrar um pouco mais de intimidade com a turma, que era composta neste momento por meia dúzia de alunas e três ou quatro alunos. Fiz uma pergunta: “vocês estão aqui porque gostam da aula ou porque não tem em quem dar umas bitocas hoje?”. Houve um certo silêncio meio constrangedor, pois ao que parece não tinham em quem dar as tais bitocas ou temiam dizer que só estavam ali por obrigação.

Então, puxando pela memória, que confesso já meio falha e isto explicarei mais adiante, comecei a falar sobre o amor. Sim, isso mesmo. Em plena Cidade de Deus após umas salvas de tiros, com direito à balas traçantes riscando o céu, resolvi falar de algo que não tinha, a princípio, nada a ver com uma aula de história.

E lá fui desfilando alguns conceitos – próprios e nem tanto assim – sobre este sentimento que só nós desenvolvemos. Percebi que começaram a se ajeitar nas cadeiras, visto estarem sentados de uma forma, como direi, meio largada. As meninas passaram a prestar mais atenção, o que comprova que as mulheres amam e os homens fazem amor. Enquanto eu falava, por exemplo, sobre o gostar de alguém que é algo que não deve ser obrigatório, algumas meninas instintivamente se jogaram um pouco mais para frente e percebi seus olhos mais abertos. Quando falei sobre o fato de enganar ou ser enganado, os alunos sorriram com o canto da boca e as meninas pareceram meio tristinhas. Entretanto, houve um ou dois que após o sorriso de canto de boca, voltaram a posição inicial, muito provavelmente lembrando que já acontecera algo que lhes remetia a uma, digamos, forma de ter sido enganado.

E lá estava eu tascando Pascal na cabeça deles ao informar que, segundo o filósofo, “a paixão têm razões que a própria razão desconhece”, e aproveitei para falar sobre a Revolução Científica e o fato de que este sentimento, de acordo com os cientistas atuais, nada mais é que um processo químico que ocorre em cada um de nós, ativando hormônios e sei lá mais o quê, que nos faz olhar para alguém de forma diferente, mas que infelizmente tem prazo de validade. Também falei do verbo amar, que é intransitivo – verbo que não pede objeto -, aproveitando aí, para brincar com a palavra trânsito. Logo, o amor é um sentimento que precisa de trânsito, mas que na verdade, sempre está engarrafado. Logo, é intransitivo. Falei de Mario de Andrade e seu livro Amar, verbo intransitivo.

Em seguida lembrei-me dos gregos, em especial, Platão em O Banquete, quando conceitua o que realmente é o amor, que consiste em vários tipos de amor, sendo que o mote é o agalma, isto é, aquilo que imaginamos que a outra pessoa tenha e possa nos suprir a necessidade e por este motivo, geralmente dá-se com os burros n’água. Mas mesmo assim continuamos.

Engraçado que quanto mais eu falava sobre este sentimento, mais eu lembrava de outras citações e lá fui eu me meter a falar no tal do amor romântico que, segundo os entendidos no negócio, foi a perdição da civilização. Coisa mais dolorida é este tipo de amor e foram citados Abelardo e Heloísa, juntamente com Tristão e Isolda. Contei um pouco de cada uma dessas histórias. E concluí com a clássica história de amor de Romeu e Julieta.

Se os educadores de gabinete gostam de falar na tal da interdisciplinaridade, acho que isto aí que contei é um exemplo. Pois, num bate-papo informal, que na verdade foi uma aula, vários conceitos e períodos da história foram contextualizados. E como eu disse lá em cima, a memória anda meio falha, e acabei esquecendo de contar, antes de os liberar para o intervalo, a história do poeta persa Majnun e seu amor por Layla, que se vocês não sabem, certamente serviu de base para todas as outras histórias de amor escritas nos séculos seguintes, pois é um conto sufi que surgiu por volta do século VIII, e na altura do século XII começou a circular pela Europa. Até mesmo Shakespeare parece ter bebido na fonte para escrever Romeu e Julieta.

Sendo assim, como este blog trata das palavras escritas e faladas foram citados livros e de brinde vocês podem ouvir Layla, na versão acústica de Eric Clapton, que escreveu esta música ao se apaixonar por Paty Harrison, a mulher de seu melhor amigo George Harrison.

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2 comentários sobre “Alguns livros, o amor, uma música e uma sala de aula

  1. Olá Jorge,
    só li o post agora, sem ouvir a música, e só soube dela no último parágrafo.
    Parei pra comentar só pra dizer que sou muito, muito fã de George Harrison, que era um cara tão sensacional, que, diferente de mim (que como fã do George sempre tive birra do Clapton e da música), perdoou o Clapton pela “punhalada” nas costas (música-declaração trocando o nome da amada, esposa do melhor amigo) e nunca deixou de ser amigo dele, foram amigos até o fim da vida de George, que morreu em 2001 de câncer.
    No ano seguinte, Clapton fez um show-homenagem ao amigo (Concert For George) que é das coisas mais lindas e emocionantes a que eu já assisti.
    Foi aí que para mim, como fã, Clapton se redimiu da traição.
    Um abraço,

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  2. Mariane,

    A história foi um grande triângulo amoroso. O Clapton passou anos guardando este segredo até que não agüentou mais e compôs a música. Sim, dependendo do ângulo de vista foi uma punhalada.

    Agora, feliz foi esta mulher que, como poucas no mundo, teve duas músicas feitas em sua homenagem, a saber: Something e Layla. Por sinal, ambas são sucesso até hoje.

    Eu tenho o CD deste show e te confesso que também me emociono quando o vejo.

    Abraços.

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