O e-book é um naufrágio?

 Lusitania Sinking© The Mariners' Museum/CORBIS

Pode ser que eu esteja enganado, mas certamente ainda não será dessa vez que o e-book, ou livro eletrônico vingará comercialmente. Segundo palavras da própria Amazon Books, apenas uma em cada 20 pessoas lê alguma coisa em seu leitor de livros eletrônicos, que foi lançado há pouco mais de seis meses com grande estardalhaço. Livro, a gente lê sentindo cheiro de papel.

Jeff Bezos, o diretor executivo da Amazon, disse que os e-books representaram apenas 6% do total das vendas de títulos em duas versões – uma cópia impressa e uma versão eletrônica – disponíveis. (Times Online / Books)

Há certos hábitos que estão arraigados que imagino ser bastante difícil de serem mudados ou esquecidos. Gostaria de deixar bem claro que não sou luddista. Eu adoro quinquilharias eletrônicas. Já tive Palm Top e também Ipaq. Também tenho celular que só não anda por que não veio com rodinha. Até cheguei a ler alguns livros num deles, mas sinceramente, nada substitui o contato dos dedos com o papel e a maravilhosa vontade de anotar nas laterais do livro usando sempre um lápis as coisas pertinentes àquela leitura que estou fazendo.

Como eu disse antes, livro a gente lê sentindo o cheiro do papel e da tinta. Não dá pra substituir ainda. Isto demonstra o quanto este objeto mais do que perfeito que a humanidade foi capaz de inventar. Livro nada mais é que um retângulo contendo várias folhas, tinta e idéias. Por pensar assim, cheguei a criar uma frase que dava nome a um outro blog que eu mantinha, chamado Cachaça Retangular, e lá estava escrita a frase: O livro é uma cachaça composta por papel, tinta e idéias.

Ele acrescentou que via o e-book como tendo potencial para se tornar uma parte significativa dos negócios da Amazon, e que a empresa tinha sequer considerado acrescentar certos “bens intangíveis” para o produto – como o cheiro obrigatório de um livro – para tornar a experiência mais realista. (Times Online / Books)

Desde que Gutenberg deu tratos à impressão com tipos móveis que o conhecimento tornou-se mais acessível a todos. Bastava, portanto, aprender a ler. Mas, para ter gosto pela coisa, isto é, o livro e a leitura, é preciso ter prazer. Então, se é um hábito prazeroso folhear um livro e também sentir seu cheiro, como é que se pode, pelo menos atualmente, ler um livro num aparelho que parece impessoal.

Claro! Todo livro tem sua alma e ela está entranhada no âmago de cada folha, de cada letra, de cada gota de tinta.

Tratemos bem os livros. Eles são nossos amigos. Se bem que alguns os façam de inimigos até mesmo figadais. Quem tem o livro como inimigo não sabe fazer amigos, a não ser pela força. Todo movimento totalitário é inimigo dos livros e os levam para as fogueiras. Bem feito para estes governos que logo caem e seus próceres, assim como o maluquinho italiano e a figura de bigode engraçado da Áustria/Alemanha sentiram na pele. Bem feito mesmo.

Isaac Asimov, na introdução de uma coletânea de contos de ficção científica, fazia observações a respeito do temor ao novo que todos nós temos. A humanidade em si é conservadora. O novo não apenas assusta, mas também dá aquela sensação de “temos que aprender tudo novamente” e isto, para determinadas situações parece muito demorado.

Um dia, o livro em papel será superado pelo meio eletrônico. Acredito que será muito mais por uma questão de ecologia do que por uma questão econômico/teconólogica.

Não estou deixando de falar sobre os audiolivros. Estes estão sendo novamente colocados no mercado brasileiro como novidade. Já foi feita uma tentativa, pelo menos que eu tenha presenciado, e não foi coroada de sucesso. Parece que dessa vez pode chegar a obter uma boa fatia de mercado.

Eu sou do tempo das histórias contadas também nos disquinhos coloridos de vinil que o Braguinha produziu como, por exemplo, a História da Dona Baratinha. Não deixavam de ser audiolivros. Eram deliciosos. Havia música. Abaixo, trecho de um artigo que saiu no Estadão, quando das comemorações de 95 anos de nascimento do compositor.

Ao assumir a direção artística da gravadora Continental, em 1943, Braguinha tinha filha pequena e, um pouco para ela, um pouco por vislumbrar o mercado inexplorado, começou a produzir discos para crianças.

Os dois primeiros foram adaptações de Branca de Neve e os Sete Anões, gravado por Carlos Galhardo, Dalva de Oliveira e Os Trovadores, e Chapeuzinho Vermelho. Veio em seguida a coletânea de Cantigas de Roda. As histórias tinham composições originais de Braguinha. Os três volumes mereceram direção musical e arranjos de Radamés Gnattali.

Era a Coleção Disquinho. Tinha capas coloridas e tornou-se paixão das crianças da época. Continuou sendo paixão das crianças até o fim anos 80 (já no formato de compacto de 33 rotações), quando saiu de catálogo. O acervo da Continental foi incorporado pela gravadora WEA e ficou parado lá por algum tempo.

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6 comentários sobre “O e-book é um naufrágio?

  1. Gosto muito da idéia do e-book, mas não troco por livros em impressos.

    Li vários no computador e certamente irei ler muitos outros, mas não vou com a idéia do leitor de e-book.

    Não sou familarizado com os audio-books, mas é interessante.

    Acredito que temer o novo, é se perder.

    Obrigado pela visita ao meu espaço.Volte sempre.

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  2. Jorge,

    creio que, hoje, chegamos a um estágio tecnológico tal que é possível substituir o conteúdo dos livros, exceto a textura das folhas. até anotações poderão ser feitas nas bordas, se usada a técnica de multi-touch (ela deverá estar disponível nos modelos comerciais até o fim desse ano, ou, no mais tardar, no início de 2009). o que falta, então, para que o e-book deslanche?

    várias questões devem ser endereçadas antes de o mercado explodir e voce está certo, isto ainda vai levar algum tempo. vejamos algumas delas:

    em primeiro lugar, é preciso que os aparelhos de leitura cheguem a um preço aceitável. hoje, os preços giram na faixa de US$250 a US$350, o que é ainda um tanto alto. some-se, ainda, o preço do próprio livro que, em promoção, situa-se em torno de US$10 cada.

    segundo, a disponibilidade do livro que se quer ler. a e-library está crescendo, mas lentamente. é mais fácil comercializar um título novo, para o qual o arquivo eletrônico já foi criado até mesmo para a impressão da versão em papel, do que tornar uma versão em papel para o formato eletrônico. se não estou enganado, voce já andou mostrando isto por aqui em passado recente.

    terceiro, falta de padronização no tratamento dos arquivos que contêm os e-books. cada equipamento tem um sistema próprio de armazenar, ler e manipular esses arquivos, o que significa que, se eu comprar um e-book para ler no Kindle, o qual é comercializado pela amazon, eu não posso lê-lo no aparelho da sony. até os arquivos são gravados em protocolos diferentes. a sony comercializa seus próprios títulos (veja aqui), os quais não podem ser lidos no Kindle, ou em outros equipamentos (veja uma lista ainda incompleta aqui).

    quarto, ficaremos à mercê das editoras em relação à confiabilidade dos arquivos, prazo de validade, intercambiabilidade entre equipamentos de diferentes marcas, sérias limitações para poder emprestá-lo a um amigo, etc..

    o número de vantagens do e-book – facilidade de acesso (pode-se obtê-los até por download), possibilidade de se procurar um certo trecho por um sistema de busca, como se faz em um editor de texto comum, marcações, anotações nas laterais (em breve), alteração do tamanho das letras, acesso à internet para a aquisição de novos títulos e outras tantas, capacidade de armazenar vários livros em um espaço reduzido – ainda é inferior ao número de desvantagens, as quais podem ser também listadas por quem está acostumado a uma boa leitura, além daquelas que surgirão das limitações tantas a que os e-books estarão submetidos. a não ser que nos habituemos a elas, o que eu creio ser muito difícil, o mercado de e-books ainda está longe de poder ser considerado como uma nova ponta a ser explorada. o que é lamentável…

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  3. Certamente, Gil.

    Suas observações são sempre pertinentes e sabemos que a coisa ainda levará um certo tempo para deslanchar. Por enquanto, como você bem citou, não há compatibilidade.

    Digamos que eu ainda esteja envolto pelo romantismo quanto ao livro em si, como objeto.

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