Guimarães Rosa Centenário

Eugênio Silva

Neste artigo você encontrará um pouco de tudo sobre a obra e a vida de Guimarães Rosa, que neste ano completaria cem anos de nascimento no dia 27 de junho. É possível ler resumos de alguns de seus livros, ver documentários, ler uma coletânea de citações e palavras do autor sobre si mesmo.

Tinha nome brasileiro:
João
Também tinha nome dos ontens e amanhãs:
Guimarães
E finalizava com o suave perfume das pétalas olorosas:
Rosa.

Não carecia apenas as palavras conhecer,
Mas delas fazer seu mister
E para cada um de nós, até para o Carlos,
também mineiro,
Ele fora do idioma um feiticeiro.

O povo do mundo inteiro o indicou para o Nobel,
No mesmo ano, Deus o levou para o céu.
Um prêmio destes, brasileiro jamais conheceu,
Mas como é voz corrente; é brasileiro também Deus.

Um rio não tem três margens
Para a geografia, esta topografia é miragem
Ah, mas para o dono da imaginação
Como mudar assim o relevo?
Isto é brincadeira séria, uma brincanagem
feita com todo enlevo.

Foi médico
Diplomata
Conheceu terras e salvou pessoas
Foi universal por sua terra
entoar loas

Quem leu
Jamais esqueceu
Quem não leu
Não sabe o que perdeu

Quem o quer ler
Aviso:
Prepare-se para o mundo esquecer
E o Brasil mais brasileiro conhecer.
J.A – 2008

Sobre si e os idiomas

Falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.

Maiores informações

Biografia
Terceira Margem do Rio
Citações
Wikiquotes (mais citações)
Resumo de algumas de suas obras
Academia Brasileira de Letras

Vídeos
Museu Casa Guimarães Rosa (Youtube)
Rosa de todos os tempos (Youtube)
Grande Sertão: Veredas (TV Globo – Abertura da Série)
Grande Sertão: Veredas (Maria Bethânia – Trecho narrado. 1)
Grande Sertão: Veredas (Maria Bethânia – Trecho narrado.2)
Manuelzão e Bananeira (Documentário. Parte 1)
Manuelzão e Bananeira (Documentário. Parte 2)
Manuelzão e Bananeira (Documentário. Parte 3)

Anúncios

7 comentários sobre “Guimarães Rosa Centenário

  1. Não conhecia o sujeito, e o cabra é dos bons.

    Costume dizer que cheguei no Brasil agora, e posso ver que nosso amigo é uma parada obrigatória pela viagem de volta ao meu país.

    Estou encantado com o blog, estarei por aqui mais vezes.

    Tamu junto

    Curtir

  2. “…às vezes quase acredito que eu mesmo, João,
    sou um conto contado por mim mesmo. É tão imperativo…”
    (Rosa, em entrevista a Günter Lorenz)

    Aqui vai a breve súmula biobibliográfica: crônica de uma morte anunciada

    Os eventos e acontecimentos aqui elencados foram colhidos sobretudo nos livros de autoria de Eduardo Coutinho, Vicente Guimarães e Vilma Guimarães Rosa, além da coletânea de documentos e depoimentos intitulada Em memória de Guimarães Rosa, publicada por José Olympio sete meses após o acontecimento que pasmou os admiradores do genial romancista.

    1908: No dia 27 de junho, em Cordisburgo, pequeno vilarejo de Minas Gerais, nasce o futuro diplomata-romancista, uma pessoa marcada por forte religiosidade e misticismo.

    1918: O menino prodígio, que já conhece a língua francesa e holandesa, inicia seus estudos em uma escola de Belo Horizonte, Minas Gerais. Em seus momentos de lazer, escreve inúmeras cartas em forma de logogrifos e charadas.

    1925: Aos 16 anos, ingresso na Faculdade de Medicina. Durante esse período de estudos universitários, o jovem estudante conquista diversos prêmios com seus contos, entre os quais se destaca “Chronos Kai Anagke”, a misteriosa história de um enxadrista que conclui um pacto com o demônio para receber… um prêmio – o tema do pacto será retomado em Grande Sertão: Veredas, romance que, por sua vez, receberá… diversos prêmios.

    1930: Conclusão do curso de Medicina. Nesse ano, Getúlio Vargas comanda a célebre Revolução que muda radicalmente o destino nacional e marca o espírito de toda uma geração de brasileiros.

    1933: Ingresso, como Oficial-Médico, na Polícia Militar de Minas Gerais. Aprendizado do russo e do japonês. Em companhia de Geraldo França de Lima, Rosa sonha com as cerimônias de gala da Academia Brasileira de Letras, à época um prestigioso reduto de intelectuais.

    1934: Brilhante sucesso no concorrido concurso de ingresso à carreira diplomática. O leque de conhecimentos de Rosa é vasto: do Direito à Geografia, da Filosofia à… Botânica.

    1936: Participação e primeiro lugar no concurso de poesia da ABL.

    1937: Com Sagarana, participação e segundo lugar em concurso literário nacional.

    1938: Posto de cônsul-adjunto em Hamburgo, Alemanha. Com sua futura esposa, Aracy, Rosa ajuda a salvar dezenas de judeus do extermínio nazista.

    1942: Posto de Secretário de Embaixada em Bogotá, Colômbia.

    1946: Chefe de Gabinete do Ministro, no Rio de Janeiro, antiga capital federal. Publicação de Sagarana, coletânea de contos que recebe o Prêmio Felipe de Oliveira. Consagração literária. O escritor afirma ter escrito certos contos em estado de transe hipnótico, mediúnico – semeia-se o enigma.

    1947: Em carta a seu tio Vicente Guimarães, Rosa anuncia o início de uma “guerra literária”.

    1948: Conselheiro de Embaixada em Paris.

    1951: Chefe de Gabinete de João Neves da Fontoura, ministro de Getúlio Vargas.

    1954: Getúlio Vargas executa a corajosa decisão de escolher o momento para sua travessia final: “Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.”

    1956: Publicação de Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas. São 1.400 páginas impecáveis publicadas em um único ano. O romancista declara que concluiu sua obra prima em três dias e duas noites, em estado de possessão, sem dormir. O romance recebe três grandes prêmios. Estranhamente, Rosa declara que essa é sua “autobiografia irracional”, enquanto Riobaldo fala de “almanaque grosso, de logogrifos e charadas” e menciona, sem razão aparente, a erva medicinal “dona joana”, que provoca infarto se consumida acima de pequena dose. O romance narra a história do pacto faustiano concluído pelo bardo Riobaldo – um pacto cujo objeto é a vitória sobre Hermógenes (epônimo de Saussure, segundo G. Genette), cujo preço é a perda de Diadorim (Deodorina, o “presente de Deus” ou a alma), cujo prêmio é Otacília (“moça da carinha redonda”, a efígie cunhada sobre a moeda). Os jagunços que combatem ao lado de Riobaldo têm por nome Drumõo (Carlos), Dos Anjos (Augusto), Selorico (Odorico) Mendes… A guerra trava-se no universo da literatura e da linguagem.

    1957: Rosa candidata-se à Academia, mas é preterido na eleição.

    1958: Nomeado Embaixador por seu amigo e conterrâneo Juscelino Kubitschek.

    1961: Recebe o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra. Publicação de poemas sob os pseudônimos anagramáticos de SOARES GUIAMAR, SÁ ARAÚJO SEGRIM e MEURISS ARAGÃO. Sob forma de logogrifos, o conjunto de seus personagens traz nomes que sugerem desdobramentos ficcionais do próprio autor: Moimeichego (moi-me-ich-ego), Rosendo, Dona Rosalina, Orósio, João Porém…

    1963: Rosa candidata-se novamente à Academia e visita acadêmicos, em campanha eleitoral, firmemente decidido a obter vitória. Antonio Callado pergunta-lhe a razão para tanto empenho. Resultado do esforço: Rosa é eleito à unanimidade. Misteriosamente, começa a adiar, sine die, a cerimônia de posse. Quando procura explanar suas razões, nota-se “um terror pueril em seus olhos”, segundo Augusto Meyer. O enigma se desdobra: a Otto Lara Resende, o médico e embaixador mineiro afirma que o prêmio Nobel, se lhe fosse atribuído, poderia matá-lo. As declarações, semeadas com critério e parcimônia, induzem a supor que Guimarães, tal como seu personagem Riobaldo (Rosa-io-bardo), poderia ter eventualmente concluído algum pacto faustiano – como aquele que ocorre em seu conto “Chronos Kai Anagke”, de 1929.

    1964: Ainda reticente no que tange à posse na tão almejada Academia. Publicação de suas obras em diversos idiomas, e avanço da tradução do conjunto da obra para o alemão, por Curt Meyer-Clason, com quem o romancista troca intensa correspondência, pois deseja fazer dessa versão uma matriz para futuras traduções em outros idiomas.

    1965: De maneira incompreensível a todos, Rosa, ainda aterrorizado pela Academia, evita a cerimônia de posse. A alguns, declara sofrer de males cardíacos; a outros, afirma estar com excesso de trabalho na divisão de fronteiras do Itamaraty (como se Rio Branco já não houvesse deixado quase tudo preparado, desde a virada do Século XIX…).

    1966: Meyer-Clason anuncia o fim próximo de tradução do conjunto da obra, espaçando-se a correspondência entre ambos. O romancista fixa, por fim, a data da cerimônia de posse. Estranhamente, o dia escolhido é uma quinta-feira, 16 de novembro de 1967 – ao fim do ano seguinte. Também o dia da semana escolhido parece incongruente, sobretudo pelo número de meses que faltam para a cerimônia.

    1967: Publicação de Tutaméia (“tudo meu”), uma forma de guia de leitura para o conjunto da obra, segundo Assis Brasil. Emir Monegal, em viagem com o romancista, observa que esses meses de 1967 são vividos como derradeiros, um pouco como se Rosa soubesse, de antemão, que não mais passaria pelos lugares visitados. Rosa declara, nas mais diversas ocasiões, que poderia suportar a cerimônia de posse, mas que temia a chegada do dia seguinte. À mancheia, Rosa semeia a ambigüidade e cultiva o enigma.

    Terça-feira, 14 de novembro de 1967: Austera preparação e ensaio exaustivo de todas as etapas da cerimônia. Em forte estado de comoção, o romancista traz frias as suas mãos, mantém-se em silêncio e faz repetidas vezes o sinal da cruz. Ele relembra a Geraldo França de Lima os devaneios de 1933 a respeito das pompas da posse na Academia.

    Quarta-feira, 15 de novembro de 1967: O romancista afirma ter medo de falhar, de chorar, de sofrer uma parada cardíaca durante a cerimônia: “A Academia é demais para mim”. A Academia é demais para um embaixador que pratica 21 idiomas, tem sua obra traduzida em dezenas de países, executou todas as etapas que planejou para sua vida?

    Quinta-feira, 16 de novembro de 1967: Dia da cerimônia adiada durante quatro anos.
    Pela manhã, emagrecido, em suas roupas doravante largas demais, ele diz a Afonso Arinos que “a normalidade nada mais é que animalidade”. Ao entardecer, ele se recusa a comer, receia vestir seu fardão bordado de louros, treme, chora e reza: “não chegarei ao fim deste ano”. As fotos do evento mostram que o fardão, pronto há quatro anos, está agora largo demais. Rosa solicita ao médico Geraldo França de Lima que fique o mais próximo possível, pois teme por sua vida. Em seu discurso, fala com freqüência sobre a morte, e menciona várias vezes o nome de Getúlio Vargas, autor da célebre frase “serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História”. Rosa discursa a respeito dessa “substância amorfa e escolhedora – o tempo”: “Esta horária vida não nos deixa encerrar parágrafos, quanto mais terminar capítulos”. Afonso Arinos observa que Guimarães “chora em seu foro interior”. Por fim, Rosa afirma que “as pessoas não morrem, elas ficam encantadas”. Contudo, para alívio dos presentes, falham as previsões tão alardeadas pelo romancista: nada lhe acontece para além da consagração literária oficial, para além da conquista do prêmio tão almejado.

    Domingo, 19 de novembro de 1967: Terceiro dia após a cerimônia de consagração literária. Pela manhã, ao telefone, Pedro Calmon nota uma voz alterada, melancólica: Rosa parece sofrer e, “em convocação à posteridade”, convida Calmon à leitura do discurso que seria publicado somente alguns meses mais tarde. Em alemão, língua de Fausto, redige uma dedicatória em dicionário oferecido à sua esposa Aracy, e afirma que a vida é apenas passagem. Contrariamente a seus hábitos, não comparece à missa dominical, à Hora do Ângelo. Em seu escritório de trabalho, duas horas mais tarde, “com os olhos desmedidamente abertos, tentou falar, mas não podia mais fazê-lo”, segundo relata Afonso Arinos. Laudo: infarto! Infarto? Em meio a seus livros, Rosa entrega sua alma e está dora em diante “encantado” – fez-se mito, o maior dos mitos da literatura brasileira. Mas fez-se também mistério – indecifrável e imponderável mistério.

    Saiba mais: http://www.anagrama.art.br/textos/livros/Grnd_srt.PDF

    Curtir

  3. Nao conheço a obra toda dele, mas li alguns contos e me apaixonei, o meu preferido é “A volta do marido pródigo”, do livro Sagarana, muito bom.

    Curtir

  4. Ivana, obrigado pela visita.

    Acredito que o ideal seja entrar em contato com a Academia Brasileira de Letras para obter maiores informações a respeito.

    Abraços

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s