O que comer? Breve (e algumas) história(s) da comida.

Vertumnus, retrato de Rodolfo II por Giuseppe Arcimboldo

Não sei se você, que costuma escrever um blog já passou por isso. Se não, certamente um dia passará. De repente, assim do nada, vem a tal da inspiração e você pensa “vou escrever isto”, e mais de repente ainda, vindo do mais nada ainda, algo tira a sua atenção ou o faz despertar deste quase transe. Tudo bem pensa você. Logo mais eu retomo o fio da meada e coloco tudo preto no branco.

Não se iluda, você dificilmente conseguirá retomar de onde parou com a mesma intensidade, digamos, ou conseguirá dar o pontapé inicial naquela palavra que faz o restante fluir como um barco que singra os mares a favor do vento.

Isto aconteceu comigo hoje e até agora estou tentando pegar a idéia inicial no ar e parece que estou usando para isto uma peneira em vez de uma rede de caçar borboletas. As idéias são como os lepidópteros (bacana, né?). Ah, sim, sabe quem era um excelente estudioso dos lepidópteros e também foi um escritor fenomenal? Ninguém menos que Vladimir Nabokov, autor de Lolita. Ele, ao menos, sabia classificar borboletas, tendo até descoberto algumas espécies e as classificou. Dele, uma frase pode muito bem se comparar a isto que nos acontece, a hora de tentar escrever sobre algo que não conseguimos retomar:

Eu não penso em qualquer idioma.

Eu penso em imagens

Por isto, agora, tento voltar a escrever sobre um assunto que considerei muito interessante durante a leitura de um livro que fala sobre a evolução da alimentação dos humanos[1] e isto me fez lembrar de algumas passagens também interessantes da história da humanidade, nas quais os alimentos foram importantíssimos.

Sem comida a gente não vive e isto não dá pra conjecturar muito. Porém, foi por causa de um alimento que, segundo a interpretação judaico-cristã, fomos expulsos do Paraíso. Dizem que foi a maçã, outros garantem que foi o figo e há ainda quem garanta que o fruto proibido tenha sido a romã. Não importa.

Se não fosse a agricultura (olha o alimento aí, gente!), nós não teríamos civilização. Foram vocês, mulheres, que nos deram a civilização ao domesticarem as plantas e, com isso, em vez de ficar vagando pra lá e pra cá atrás de comida, começamos a nos estabelecer em locais propícios para plantar e daí pra criar uma comunidade não custou nada.

Andando um pouquinho sobre a linha da história, você já se deu conta que se não fosse por causa da pimenta, nós brasileiros, não estaríamos aqui e agora falando Português. Você não precisa se sentir triste por não fazer parte da Banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta. A piperaceae, digo, pimenta, era tão valiosa quanto o petróleo dos dias atuais. A pimenta, juntamente com as outras conhecidíssimas especiarias, fizeram os portugueses iniciarem sua epopéia cantada em versos por Camões (Lusíadas) e Fernando Pessoa (Mensagem).

Ah, você vai perguntar: O que a pimenta tem a ver com as calças? Tudo e um pouco mais. Há 500, 600, 1000 anos você acha que existia energia elétrica e geladeira? Claro que não, né? Logo, se você não tem lá muita coisa pra comer e sobram uns pedaços de carne já em início de decomposição, o que te faz encarar isso? O disfarce que você dá ao sabor usando os condimentos. Lógico que esta foi apenas uma das aplicações culinárias. A comida devia ser pra lá de insossa e um temperinho sempre cai bem. Há um excelente livro de A.R. Disney sobre o assunto chamado A Decadência do Império da Pimenta.

Adiantando um pouco mais, mas não tão longe, quando viram que a terra só dava o que se plantava e ouro não aparecida dando topadas, bem como nossos silvícolas estavam no paleolítico e metal amarelo para eles não representava nada, os portugueses tiveram a brilhante idéia de, mais uma vez fazer de um alimento sua fonte de riqueza. E lá vieram capitanias hereditárias com tudo que tem direito, inclusive mudas de cana-de-açúcar trazidas da Ilha da Madeira, onde os portugueses já praticavam a fabricação de açúcar da cana. Viu só? Hoje, o mundo se curva mais uma vez ante o Brasil. Temos o etanol extraído da cana-de-açúcar e corremos o risco de nos tornamos credores do mundo ao exportar este combustível. Por isso a grita geral da gringalhada que só sabe fazer etanol a partir do milho (outro alimento) e dão com os burros n´água. Infelizmente, pagamos um alto preço por isso, a escravidão.

Como o açúcar era parte do dote de moçoilas casadoiras devido seu alto valor comercial. Que fique bem claro que o alto valor era do produto e não da moça, se bem que virgindade fosse o bem mais valioso, o Brasil passou um bom tempo sendo o principal produtor e exportador. Bem, os lucros mesmo ficavam com os banqueiros holandeses que emprestaram a grana para os portugueses montarem os engenhos, além de distribuírem a produção pelo mundo. Não foi à toa que os batavos invadiram o Nordeste, a maior região produtora de então e depois que foram expulsos, fizeram duas coisas: Passaram a produzir açúcar nas Antilhas concorrendo até a bancarrota luso-brasileira na produção do açúcar e… fundaram Nova York.

O tempo foi passando, mas voltemos algumas várias décadas, pois lembrei de uma história que li num livro sobre alimentação natural[2]. É mais ou menos assim: quando os espanhóis chegaram na América, ali na região que os Incas dominavam, estes, muito espertos, bem receberam seus futuros algozes, mas como já previam que a coisa não seria lá muito boa para o seu lado, serviram batata para os europeus. A batata era a comida dada aos porcos. Os incas se alimentavam com inhame que é muito mais nutritivo. Não deu certo. Os espanhóis tinham a pólvora, a cruz e a varíola.

Essa mesma batata, caso você não acredite, foi a responsável pela Revolução Industrial[3]. Está duvidando? Até pouco tempo, aquela batata que a gente usa para fazer batata frita (não conheço um vivente que não goste) era chamada de batata inglesa, só porque eles aprenderam a plantar e exportar. E este aprendizado salvou as vidas de milhares e milhares de crianças que, até antes disso, morriam de inanição devido as várias ondas de fome que assolavam a Inglaterra no período. Logo depois, os lordes ingleses tiveram a brilhante idéia de cercar os campos comunais no que denominaram de Enclosure Acts. Como o crescimento vegetativo das ilhas britânicas estava indo de vento em popa, sobrou mão-de-obra pra lá de barata para as primeiras e ainda incipientes indústrias. Produção em escala e mão-de-obra barata é o sonho de qualquer capitalista selvagem.

Hoje, o grande problema é que estamos comendo tudo aquilo que a Evolução não nos preparou para comer. São alimentos que não são nutritivos, que são feitos ou produzidos usando excessiva carga de produtos químicos e agrotóxicos. Os animais não comem mais de forma natural e recebem alimentação carregada de outros produtos para que sejam comercialmente aproveitados mais cedo do que deveriam. Os refrigerantes nada mais são que água com açúcar e gás. E este açúcar não é natural.

Nossos antepassados, ainda mesmo na fase de transição entre as árvores e o solo, para que já começássemos a andar sobre as patas traseiras, faziam do ensaio-e-erro a principal experiência para saber se um alimento era bom (continha nutrientes) ou se era ruim. O paladar determinava, mas nem sempre acertavam como na história do Tio Vanya[4] , sobre uma família de hominídeos do Pleistoceno que começava a descobrir o fogo e os prazeres da mesa. Este tio acabou morrendo entalado ao comer uma jibóia inteira. E, como nós somos animais, o título do livro é este mesmo, o pai foi almoçado por Ernest, o filho. Afinal, ensaio-e-erro…

Enfim, o mal não é o que sai da boca do homem. O mal é o que entra. Pois você é aquilo que você come.

E como escreveu Machado de Assis… Ao vencedor, as batatas.


[1] Zucoloto, Fernando – Por que comemos o que comemos? . Mauad Editora, 2008.

[2] Hirsch, Sonia – Deixa Sair. Corre Cotia. s/d.

[3] Deane, Phyllis – Revolução Industrial, A. Zahar, 1969

[4] Lewis, Roy – Por que almocei meu pai. Companhia das Letras, 1993.

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7 comentários sobre “O que comer? Breve (e algumas) história(s) da comida.

  1. A pimenta também ajudava a desidratar os alimentos ( meio hipertônico doando para o meio hipotônico) , o que desacelerava a degradação.
    Impressionante como algo tão banal para nós , era tão importante para eles.

    Beijos

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  2. Pimentas a parte, tenho que confessar a minha normalidade de ter idéias magnifícas (ao menos ao meu ver) e, como não dou vazão a escrever na hora, acabo não conseguindo desenvolver apropriadamente. Aconteceu também o contrário, eu ia escrever sobre um assunto, veio a inspirção sobre outra coisa no meio do texto e acabei mudando os rumos da minha argumentação para chegar na nova idéia. Fazer o quê? A mente humana é assim mesmo.

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  3. Cassio,

    Escrevi isto, pois já deixei passar algumas coisas que considerei bacanas para escrever e não consegui retomar como gostaria. Também já me aconteceu isto de tentar retomar da forma que imaginei e acabei criando outra coisa, que pode ter sido até melhor. 🙂

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  4. Achei interessante como entre a fome de palavras para terminar uma idéia e a “fome” que nos é imposta pela consciência da tecnologia utilizada na alimentação contemporânea você acabou escrevendo um temperado e excelente post. Bjs e inté!

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