Falsa Baiana – Geraldo Pereira, samba sincopado e bossa nova

Muito provavelmente você já cantarolou os versos de “Falsa Baiana”. Acredito piamente que a maioria conhece a versão bossanovística do João Gilberto que, digamos, revitalizou este samba seminal, que para muitos foi um samba precursor da Bossa Nova, justamente pelo fato de ser sincopado (¹). O que a maioria não sabe é que este e outros sucessos da MPB, como Sem Compromisso (neste post é apresentado por Chico Buarque e Tom Jobim), Acertei no Milhar (antológica versão como samba de breque gravado por Moreira da Silva, o Kid Moringueira), Bolinha de Papel e Escurinho entre outras composições são de autoria de um motorista de caminhão da companhia de limpeza urbana, chamado Geraldo Pereira.

Geraldo PereiraEste ano ele completaria 90 anos [Juiz de Fora, MG, 23/4/1918] e muitos acreditam na lenda de que foi morto numa briga com Madame Satã. Ele morreu, sim, de causas naturais, isto é, complicações intestinais num hospital público em 1955. Mesmo assim, como diz o ditado que quando a lenda é maior que o fato, publique-se a lenda. Lenda esta que foi alimentada por muito tempo até que o referido personagem da Lapa, o lendário homossexual Madame Satã, que encarava a polícia e a botava pra correr, contou que tudo se originou de um entrevero entre ele e Geraldo Pereira devido a uma frase infeliz que o compositor proferira: “Puto não toma cerveja no meu copo”.Madame Satã Esta frase foi dita após ter visto Madame Satã tomar um gole de cerveja em seu (dele, Geraldo Pereira) copo. A coisa ficou meio que esquecida até que um dia, Madame Satã, que não levava desaforo pra casa, foi tomar satisfações. Discutiram e ele empurrou o compositor que caiu e bateu com a cabeça no chão. Muito provavelmente estava bastante bêbado. A briga se deu na Rua Teotônio Regadas, na Lapa. Este depoimento foi recolhido no livro “Lapa do Desterro”, uma coletânea de textos sobre o bairro organizada por Isabel Lustosa.

Geraldo Pereira foi o típico compositor de sambas. Negro, pobre, favelado, quase sem instrução formal e tido por malandro. Entretanto, a sua biografia não pode ser vista apenas por este ângulo. É preciso se entender como se deu e se dava a inserção do negro na sociedade urbana brasileira desde o fim da escravidão para que alguns mitos sobre a sua figura caiam por terra.

Geraldo não viveu de “golpes” ou de expedientes de jogatina e, muito menos, da exploração de mulheres que, aliás, não foram poucas em sua curta vida. Viveu com elas, mas não delas. Em síntese, a sua estratégia de vida foi marcada pela busca de afirmação como compositor, mais do que como intérprete, que lançou mão da sua criatividade intelectual; condição que lhe permitiu a passagem por uma fresta estreita que dava acesso a um universo intelectual bastante heterogêneo._ (in: DIAS, Luiz Sergio – No tempo de Geraldo Pereira. Centro de Artes Geraldo Pereira)

Foi boêmio, sim, e não deixava de participar de outras atividades culturais como shows e até mesmo aparições no cinema (“Berlim na Batucada, de 1944”). Viveu a época áurea do Rádio no Brasil tendo suas composições gravadas pelos maiores artistas da época como Emilinha Borba e Ciro Monteiro, por sinal, seu padrinho musical e que o acompanhou até a sua morte como seu grande intérprete.

Como dito anteriormente é inegável a sua influência para o surgimento da Bossa Nova. Leia o trecho abaixo:

Cyro de Souza explica que “se quiser continuar pesquisando você vai encontrar a divisão rítmica de João Gilberto, que veio muitos anos depois, caracterizar a ‘bossa-nova’, nas síncopes de Geraldo Pereira”. Para Cyro “a grande partida foi o samba teleco-teco, que GTP ‘encheu de nuances’, fazendo uma ‘bossa inteiramente nova’, cerca de 18 anos antes do surgimento do ‘samba de apartamento’ da zona sul do Rio.” (CAMPOS, Alice Duarte Silva de et alii. Um certo Geraldo Pereira. pp. 141. Rio de Janeiro, FUNARTE/INM/Divisão de Música Popular, 1983.)

E o próprio João Gilberto fala a respeito de sua admiração por Geraldo Pereira e sua música numa história que se passou na Lapa:

Eu era ainda do conjunto Garotos da Lua, nem pensava em cantar sozinho, quando um dia ele me convidou para sentar com ele num bar daqueles na Rua da Lapa. Enquanto a gente tava tomando umas coisas no bar, passaram uns sujeitos e me estranharam, ficaram olhando da porta. E ele:”Que é que vocês tão olhando? Isso aqui (era eu) é gente minha!” Os caras foram embora. O samba dele era leve e cheio de divisões rítmicas, isso sempre me chamou atenção. Ele não tinha consciência disso, mas foi um inovador na música popular brasileira na década de 1940.” (idem. pp. 26)

Aqui, eu aproveito trechos e títulos de suas composições para fazer uma brincadeira:

Etelvina, minha falsa baiana escurinha, que não samba, não dança, não bole nem nada. Achas que vou acreditar que você só dança com ele e diz que é sem compromisso? Até parece que pisei num despacho! Eu ia te dizer que acertei no milhar e, dos bilhetes que te escrevi fiz bolinha de papel.
Ass. Geraldo, teu escurinho.

Links sobre Geraldo Pereira

Sem Compromisso com Chico Buarque e Tom Jobim

Falsa Baiana com Ciro Monteiro

Falsa Baiana com Roberto Silva e Roberta Sá

Centro de Artes Geraldo Pereira

Comunidade no Orkut

Se você toca violão…

(¹) Sincopado – Som emitido em tempo fraco de um compasso, e prolongado no tempo forte que se segue. (…) a síncopa, a batida que falta. Síncopa, sabe-se, é a ausência da marcação de um tempo [fraco] que, no entanto, repercute noutro mais forte. (…) De fato, tanto no jazz quanto no samba, atua de modo especial a síncopa, incitando o ouvinte a preencher o tempo vazio com a marcação corporal – palmas, meneios, balanços, dança. É o corpo que também falta – no apelo da síncopa.
In: Sodré, Muniz – Samba, dono do corpo. Mauad Editora

3 comentários sobre “Falsa Baiana – Geraldo Pereira, samba sincopado e bossa nova

  1. OI Jorge, agradeço sua visita e o espero mais vezes. A “Falsa Baiana” é realmente uma música linda e simples em seu texto. Não é uma canção tão fácil de se cantar e tocar quanto parece. Caiu no gosto popular pela letra tão descritiva e por sua melodia cheia das curvas dessa baiana, que não deve ser a falsa. Abraços, Solange de Paula.

    Curtida

  2. Muito interessante a abordagem do seu blog, vou entrar com mais calma com o tempo.
    Logo adiciono seu blog nos meus favoritos também. Não deixe de visitar, criticar e etc!

    Curtida

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alteração )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alteração )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alteração )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alteração )

Conectando a %s