Diagnóstico: Mulher

Marilyn Monroe, um dos casos estudados no livro.Quando Zelda Fitzgerald (¹) voltou de seu mergulho em uma fonte pública, percebeu-se que a sua mente havia ultrapassado o tênue limite entre a sanidade e a insanidade. Ao mesmo tempo, um economista norte-americano fez uma observação relacionando dois mundos aparentemente sem qualquer ligação: a moda e o mercado de ações. Segundo George Taylor, economista da Wharton School, conforme a economia se torna estável ou crescente, a barra das saias também sobe mostrando um pouco mais acima dos joelhos femininos; tanto que foi criado o índice hemline (cotação barra da saia). A prosperidade e o otimismo provocados pela economia sugerem que as pernas femininas podem ser mais ou menos apresentadas. Certamente que esta é uma visão machista e preconceituosa, mas com um fundo bem-humorado. E o que de mais empírico pode surgir a partir do utilitarismo? Certamente que, em se tratando do estudo da mente feminina, os médicos se deixam levar por modismos no diagnóstico das doenças mentais e a maioria de nós, por desconhecimento, talvez, confia na psiquiatria que supomos estar livre destes modismos.

Um dos aspectos mais fascinantes do livro “Mad, Bad and Sad: Women and the Mind Doctors” (algo como “Louca, Má e Triste: mulheres e o pensamento médico”) de Lisa Appignanesi, editado pela W. W. Norton & Company (2008), é justamente o estudo sobre os modismos relacionados ao estudo da mente que, em muitos casos, poderia até ser considerada uma disciplina sui generis. Claro que qualquer um de nós vê como doente mental qualquer pessoa que se recusa a obedcer as normas de comportamento aceitas pela sociedade. Imagino que seria interessante ler Durkheim sobre a coerção social (n.t.) para entendermos os mecanismos do que seria o comportamento social aceito pela sociedade. Com o passar do tempo, a definição de não conformidade a este comportamento muda de acordo com a época e estilos de conformidade.

Segundo a autora, Lisa Appignanesi, o livro conta não apenas “a história da loucura, maldade e tristeza e as maneiras em que as entendemos ao longo dos últimos 200 anos”, mas também faz um levantamento das loucas, más e tristes por si próprias, nomeadamente as mulheres, incluindo Zelda Fitzgerald, Lucia Joyce, Virginia Woolf e muitas pacientes menos famosas, que sofreram “frenesi, possessões, manias, melancolia, ataque de nervos, delírios, atos aberrantes, tiques dramáticos, apaixonadas relações de ódio e amor, problemas em relação ao sexo, alucinações visuais e auditivas, medos, fobias, fantasias, distúrbios do sono, dissociações, ligações espirituais e de comunhão com amigos imaginários, vícios, auto-mutilação, bulimia nervosa, depressão ” e assim por diante. Ufa! Uma lista como esta deixa qualquer mulher grata a Freud, mesmo que ele se sentisse incomodado a perguntar porque tais desesperadas e iludidas criaturas poderiam desejar. Não é de se admirar que no século 19 não tenham construído sanatórios em quantidade suficiente para estas pessoas.

Parece que logo após a condenação por bruxaria e feitiçaria, crimes pelos quais as mulheres com a mente aberta, as ditas liberadas, eram punidas com regular freqüência no passado, a loucura passsou a ser a melhor forma de encarcerar seus pensamentos e atitudes. Como a autora observa “as doentes poderiam ser vítimas da visão do médico sobre o que ele considerava sanidade e isto poderia muito bem trabalhado contra as mulheres, dependendo do pensamento da época, comportamento sexual ou hábitos”.

Os diagnósticos da medicina da época, quase que completamente exercida por homens, estariam sujeitos ao subjetivismo do caráter e formação destes médicos. Por este motivo, os diagnósticos, poderiam refletir comportamentos masculinos como o romantismo, patriarcalismo, idealismo e até a misoginia não se deve descartar. A escolha de termos era apenas limitada pela imaginação de quem diagnosticava. As mulheres da era vitoriana que não foram cerceadas pela sociedade logo eram diagnosticadas como vítimas da melancolia, monomania, homicida monomânica, insanidade moral e fatalmente eram neurastênicas. Até que surgiu a histeria que “melhor expressa da mulher em perigo o confronto das exigências e não mais defensáveis restrições colocadas sobre as mulheres no fin de siècle”.

Para saber sobre a história da psicologia feita por mulheres no Brasil, leia o artigo “O poder feminino na invenção do inconsciente“, de Roni Filgueiras, que está no Boletim Faperj ( Semana de 17 a 23 de abril de 2008. Ano 3. Nº 184)

Se médicos do sexo masculino se propusessem a definir o que é a loucura, respondendo a comportamentos que desprezam as convenções sociais de sua cultura, do sexo feminino, na tentativa de compreender a si mesmos e seu contexto, e talvez até mesmo para criar ou reforçar a identidade, tudo conspiraria para que esses mesmos médicos satisfizessem as modificações das definições de loucura. “Muitas vezes suficiente”, observa a autora, “extrema manifestação da cultura do mal-estar, sintomas e perturbações da ordem espelhada do tempo.” Anorexia, ela escreve, “é geralmente uma doença de abundância não de fome, depressão surge dos tempos de paz e de prosperidade, e não de guerra. “Lamentando, enfurecendo, estremecendo e alucinando nosso caminho para o século 21, quando” a soma das informações disponíveis a qualquer minuto é maior do que nunca na história, “nós” vemos concebida “uma condição na qual a atenção é um déficit.”

Dentre todos os diagnósticos e tratamentos médicos que havia, nenhum foi tão provocativamente divisor como os de Sigmund Freud, como documentou a autora no seu livro “Freud´s Women“, que analisa os primeiros anos do movimento psicanalítico, a época do aprofundamento de Freud. Diagnósticos, estes, marcados por uma racionalidade e frieza radicais que não tinha antecedentes na história da medicina. Isso tudo sem qualquer conotação convencional com a moralidade da época.

Sim, havia alguma coisa. Sexo, é claro. E neste ponto a autora não tem qualquer intenção de atacar ou radicalizar. Pelo contrário, ela resume polidamente o que houve após Freud ter aberto a porta da consciência colocando fora do alcance dos tenebrosos desejos inconscientes, hostilidades, conflitos edipianos. Isto deu vida a inúmeras herdeiras intelectuais, após a análise de sua própria filha, Anna Freud, como também Melanie Klein e Karen Horney entre outras. E desde o baby boom do pós-guerra, o foco das atenções incidiu sobre as mulheres “em relação ao seu destino biológico – menstruação, gravidez, menopausa. Essas pioneiras marcaram um o início de um culto da infância e da sua inevitável corolário, a demonização de mães, em cujos pés amontoaram responsabilidades por todos os tipos de doenças e disfunções, da gagueira a esquizofrenia, que passaram a ser entendidas como fatos neuroquímicos e decididamente fora da influência dos modismos.

Quase em contraposição a este livro, um outro que professa um certo ar de radicalismo feminista propõe que as práticas psiquiátricas aplicadas às mulheres, constituem uma história de subjugação e controle por parte dos homens. Isto é o que expõe Elaine Showalter em The Female Malady: Women, Madness, and English Culture, 1830-1980 (algo como A Doença Feminina: mulheres, loucuras e a cultura inglesa 1830-1980). O que Lisa Appignanesi apresenta é o fato de as mulheres também serem responsáveis pela criação deste tipo de diagnóstico e definições da sua loucura. A propagação do tratamento a resistentes fenômenos como a anorexia e bulimia são quase que majoritariamente apresentados nas mulheres, que são quase 90% dos pacientes em casos de transtornos alimentares, por exemplo. Tanto quanto ajudam estes tratamentos, ao mesmo tempo criam uma imagem semelhante a da neurastenia que se imaginava durante a Era Vitoriana.

Sobre a autora:
Lisa Appignanesi (Elsbieta Borenztejn nascida em 4 de janeiro de 1946, em Lódz, Polônia) é um novelista e escritora de origem polaco-judaica. Alguns de seus livros foram lançados no Brasil como,por exemplo, Simone de Beauvoir: uma biografia.

(¹) Este post foi criado, em livre tradução, a partir do artigo “Diagnoses: Female” de Kathryn Harrison na edição de 27/04/2008 do New York Times Sunday Book Reviews. Caso deseje ler o texto no original clique aqui.

Anúncios

Um comentário sobre “Diagnóstico: Mulher

  1. Oiii 🙂
    Muito obrigada por ler o meu blog e comentar!!!Brigadinha.
    Passei pelo seu e achei super interessante tb!!Vou ler tudo com calma e sei que vou gostar!!
    Obrigada tb pela indicação do outro blog!!
    Bjo e bom fim de semana

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s