Desenredo

Nos mergulhos à profundidade da alma para resgatar memória não tão recente; porém exatamente presente que remete ao tempo que enredava nas tramas do teu desejo. Deste mesmo profundo mergulho ao íntimo da ânima é inesquecível o quanto foi doloroso voltar a tona em busca do ar e novamente em terra firme pisar. A dor desta profundidade deixou marcas que questionam os porquês deste querer.

Dos vôos do coração, a lembrança de todos os momentos, hoje, remanescentes retalhos de sentimentos, ou do sentimento marcado, ausente, presente, recorrente; que me fazem todos os dias acordar e recordar. Deste mesmo lado esquerdo do peito, não se compreende o intransitivo verbo. Dizer esta palavra… Ah… como era fácil dizê-la a você, pois era a mais pura verdade. Esta foi uma das verdades absolutas sem qualquer tipo de questionamento.

Nas sombras que os olhos percorrem nas madrugadas insones, digo bem baixinho o teu nome. Qual dos nomes… Ê vida, vida… Amor, brincadeira. Se amaram pra vida inteira… Do caminhar a passos pensativos, penso que o desejo poderia ser retroativo e não apenas unilateral para se fazer vivo. Falta… sinto falta… muita falta… e minhas palavras, especialmente aquelas que antes fluiam em minha mente, hoje são evitadas… guardei-as. Nunca mais proximidades alheias. Nunca mais as mesmas brincadeiras.

Cada um de nós é um Universo. O meu Universo era em teu corpo. Teus olhos cor de folhas secas iluminavam ao longe, como o farol que guia o marinheiro perdido na noite salgada. Encontrei porto seguro em teus braços. Me fez explorador, bandeirante de teus rincões. Criei bandeiras para em teu sertão penetrar. Descobri, conquistei, tomei posse. Efêmera posse ao pensar que meu padrão fora erguido em tuas praias e naveguei em teu sorriso fazendo de seus cabelos, ao enredar meus dedos, o timão e o leme.

Garrafa de náufrago hoje. Seguir ao sabor das marés e correntes sem querer de outra praia aproximar. Praia que soube um dia ter existido quando contei a história da estrada de ferro que levava ao mar, um estado que não tinha saída para o mar. E por isso sorriu também com os olhos.

Hora de partir… Geraes… foi-se embora pra bem longe…

Desenredo

Boca Livre

Composição: Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro

Por toda terra que passo
Me espanta tudo o que vejo
A morte tece seu fio
De vida feita ao avesso

O olhar que prende anda solto
O olhar que solta anda preso
Mas quando eu chego
Eu me enredo
Nas tranças do teu desejo

O mundo todo marcado
A ferro, fogo e desprezo
A vida é o fio do tempo
A morte é o fim do novelo

O olhar que assusta
Anda morto
O olhar que avisa
Anda aceso

Mas quando eu chego
Eu me perco
Nas tramas do teu segredo

Ê, Minas
Ê, Minas
É hora de partir
Eu vou
Vou-me embora pra bem longe

A cera da vela queimando
O homem fazendo o seu preço
A morte que a vida anda armando
A vida que a morte anda tendo

O olhar mais fraco anda afoito
O olhar mais forte, indefeso
Mas quando eu chego
Eu me enrosco
Nas cordas do teu cabelo

Ê, Minas
Ê, Minas
É hora de partir
Eu vou
Vou-me embora pra bem longe

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