A Redentora (1964) e o Rio Centro (1981)

1964.jpgNasci cerca de um ano antes da Redentora, isto é, o golpe de Estado que os militares deram em 1º de abril de 1964, e insistem em chamar de Revolução. Por isso, posso dizer que de certa forma fui influenciado por ela. Apesar de ser filho de militar, nunca conversei com meu pai a esse respeito, mesmo quando cursava a graduação em História. O assunto jamais fora proposto em nossas conversas. Lembro, sim, de ter muito medo que meu irmão mais velho fosse preso. Uma criança aos cinco anos, em 1968, ouvindo no rádio que estudantes faziam manifestações contra o governo eram presos, só poderia imaginar que seu irmão mais velho também poderia ser preso.

Clique na seta para ouvir Cálice, com Chico Buarque e Milton Nascimento.

Podemos questionar o sentido da palavra ‘revolução’; até mesmo, quem sabe, a sua etimologia. Vejamos… Re-Evolução. Agora, uma pergunta fica no ar: Re-evoluir de onde para onde se o que aconteceu foi um retrocesso? Por outro lado, que estruturas foram radicalmente modificadas para dizerem que houve uma revolução? As palavras têm um significado, mas quem as usa, faz da melhor maneira que lhe convier. Houve sim, uma quartelada como tantas que ocorreram na história do Brasil República.

Lembremos de nossa chegada à República. Foi uma quartelada, onde nem mesmo o Marechal imaginava estar derrubando o Império, e apenas um tiro foi disparado, atingindo as nádegas de um ministro. Passamos pela década de 20, período permeado de levantes militares, alguns até de caráter inovador como a Coluna Prestes. Tivemos o Estado de Sítio de Artur Bernardes e desaguamos no Estado Novo getulista. Após a Segunda Grande Guerra, um período de calmaria, uma confusão em Aragarças na década de 1950, e culminando com a sanha da Guerra Fria que caçava supostos degustadores de crianças mundo afora. A América Latina foi varrida pela onda anticomunista. Quem diria que nós ficaríamos de fora deste baile? Para conter a pretensão de João Goulart instalar um governo “comunista” puseram as tropas na rua, o que durou até 1985.

Sim, foi um período dos mais arbitrários no Brasil. Até hoje sofremos as conseqüências dos desmandos, mas, lá no fundo, isto só fez com que avivássemos nossa memória nos dias atuais, não permitindo que novamente venha a ocorrer algo similar.

Eu estava no Rio Centro no dia 1º de maio de 1981. Escutamos um barulho abafado enquanto os músicos que acompanhariam Elba Ramalho afinavam seus instrumentos. Comentei com um amigo: “acho que arrebentou a corda do baixo…”. Não demora muito, outro amigo que se atrasara, veio correndo lá de fora e nos disse que tinha estourado uma bomba num carro. Instintivamente olhei a minha volta e percebi que havia apenas uma porta para a saída das pessoas e neste ano, ao contrário do ano anterior, não havia arquibancadas. Todos estávamos de pé e alguns se sentavam no chão de cimento do Rio Centro. Se o plano dos facínoras desse resultado, muitos morreriam pisoteados, e a confusão que se estabeleceria seria responsável por mais outras mortes devido haver uma única saída para todos.

Logo depois o show começou e esquecemos o incidente. Lembramos apenas quando Gonzaguinha surgiu no palco e fez um acalorado discurso. Em seguida, todos nós em uníssono com ele cantávamos, como que para espantar os males que nos tentavam impor…”Ê… sacode a poeira… imbalança, imbalança, imbalança, imbalançá!”.

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4 comentários sobre “A Redentora (1964) e o Rio Centro (1981)

  1. Oi, estou fazendo um programa de TV sobre o episódio do Riocentro e procuro uma testemunha que estava no local no dia, na hora e possa me contar sua versão, como você fez nessa crônica. Pode entrar em contato comigo?

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  2. Olá, Paola.

    Eu tinha 17 anos em maio de 81 e fui ao 1º de maio escondida dos meus pais. Me lembro, também, da possibilidade de pânico e de como a coisa foi contornada com absoluta calma. Não me lembrava de ter sido Gonzaguinha a dar a notícia. Me lembro que se pediu calma e que cantamos juntos e que toda aquela multidão cantando em uníssona foi uma experiência muito emocionante: éramos mais fortes do que eles. Eles tentaram estragar a festa, mas não conseguiram. Dos shows, me lembro especialmente de Maria, Maria puxada pelo Milton Nascimento. Nesta época havia canções que sempre nos arrancavam lágrimas nas passeatas e manifestações e essa era uma delas. As do Gonzaguinha também, claro. Me lembro, ainda, do retorno para casa, de gente deixando o enorme galpão com toda calma, o que foi lindo, do enorme engarrafamento pelo elevado Dois Irmãos, a adrenalina, a preocupação, o medo de ter que enfrentar o pai acordado e de suas perguntas e a tristeza de ter que mentir, porque tinha a certeza de que tinha acabado de viver um momento que ficaria para sempre marcado na triste história da ditadura militar em nosso país.

    abraços

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